A consolidação da América do Sul em jogo

Em artigo do Valor, Marco Aurélio Garcia confirma a América do Sul como eixo prioritário da política externa brasileira no Governo Dilma.
A primeira visita da presidenta será à Argentina.
Segundo Garcia, “Nossa integração com a Argentina não garante a união da América do Sul, mas sem ela não há a união”.
As relações com a Argentina, e mesmo o próprio Mercosul, não se justificam apenas por si mesmos. São parte de um objetivo maior, de integração sul-americana, de construção de um espaço próprio de projeção internacional, de formação de um pólo específico na geopolítica mundial.

Os próximos quatro anos serão um teste de força para a consolidação da Unasul. Em fevereiro, já se terá a III reunião de Cúpula América do Sul – Países Árabes. Escrevi certa vez que, antes de se integrar à América do Sul, o desafio do Brasil era integrar a América do Sul. Essa formação é que está em jogo.
Abaixo, a reportagem de Sergio Leo no Valor.

Na primeira viagem, Dilma visita a Argentina
Sergio Leo | De Brasília
07/01/2011

A primeira viagem internacional da presidente Dilma Rousseff, dia 31 de janeiro ou 1º de fevereiro, à Argentina, terá a missão de “marcar o eixo prioritário da política externa”, disse o assessor internacional da Presidência, Marco Aurélio Garcia. “Nossa integração com a Argentina não garante a união da América do Sul, mas sem ela não há a união”, comentou Garcia. Ele previu que as viagens de Dilma à China e aos Estados Unidos, entre março e abril, terão forte componente econômico e comercial.

“Precisamos melhorar nosso comércio com os EUA, que, durante muito tempo, foi superavitário e agora está deficitário”, disse Garcia, adiantando que a presidente quer tratar de “elementos protecionistas” na política comercial americana, como a recém-renovada barreira ao etanol brasileiro. O governo busca, ainda, uma agenda positiva com os Estados Unidos, provavelmente reativando os acordos de cooperação na área de energia, assinados durante o governo George Bush, pela própria Dilma, quando ocupava o ministério de Minas e Energia, disse o assessor.

“Esses temas (de cooperação em energia) caíram um pouco em esquecimento lá; mas o presidente Barack Obama é muito ligado nas questões energéticas”, acrescentou.

Na China, Dilma pretende fazer uma visita de Estado, aproveitando a reunião do grupo Bric (Brasil, Índia, Rússia e China), agora acrescido da África do Sul. “Com a China a relação é diferente”, disse Garcia. O país, além de principal parceiro comercial do Brasil, ganhou importância política, numa região, a Ásia, em que o Brasil já tem parceiros de peso, como Japão, Indonésia e Índia, que pretende valorizar, segundo o principal conselheiro de Dilma em política externa. A presidente quer levar uma grande missão de empresários e tentará negociar com os chineses formas de aumentar a parcela de produtos industrializados nas exportações hoje enviadas àquele país, informou.

Ao contrário do que se especulava, Dilma manterá, como o antecessor, Luiz Inácio Lula da Silva, uma intensa agenda internacional, segundo a programação confirmada ontem por Garcia. Após visitar Uruguai e Paraguai (e discutir, nesse último, os projetos para o Mercosul), a presidente aproveitará a reunião da América do Sul e Países Árabes, em fevereiro, no Peru, para reunir-se com os presidentes da Colômbia, Juan Manoel Santos, e da Venezuela, Hugo Chávez, e discutir com eles as viagens que fará a ambos os países.

A presidente já decidiu também ir, neste ano, ao Chile, à Bulgária e à Ucrânia, informou Garcia.

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Entregando o Pré-sal – Ato I

Nota da Associação dos Engenheiros da Petrobrás – AEPET sobre a lei do pré-sal.

POR QUE A EMENDA PEDRO SIMON SE TORNOU NECESSÁRIA E POR QUE OS ENTREGUISTAS BATEM NELA.

Quando foi concluído o relatório final da Câmara dos Deputados, sobre o PL 5938 do Governo, que muda o contrato de concessão (da Lei 9478 de FHC, pelo qual, 100% do petróleo é de quem produz) para o de partilha da produção (pelo qual a União recupera a propriedade 40% do petróleo), a AEPET descobriu um contrabando introduzido pelo relator, deputado Henrique Alves, o parágrafo 2º do artigo 42 do projeto do Governo.
Trata-se da absurda devolução ao Consorcio Explorador, em petróleo, dos royalties que ele pagasse em reais. Ora, isto significaria “transformar o Brasil num imenso paraíso fiscal”, ou seja, abrir mão de um imposto que monta, no presente, cerca de US$ 15 bilhões (R$ 27 bilhões). Em 2020 chegaria a US$ 30 bilhões, cerca de R$ 54 bilhões. Assim, consumado esse absurdo, teríamos o pior contrato de partilha do mundo.
Denunciamos esse absurdo a vários parlamentares, tendo o Senador Renan Calheiros se comprometido a levar essa informação ao presidente Lula, pois a introdução dessa emenda piorava muito o projeto do Governo. Simulações que fizemos mostram que, pelo projeto do Governo, a União ficaria com cerca de 60% do óleo produzido; com a esdrúxula emenda do relator essa participação cairia para 40%. É ou não absurda?
O Senador Pedro Simon, a quem explicamos detalhadamente a matéria, ficou atônito e fez um discurso no Senado no mesmo dia, mostrando a dura realidade. Foi aparteado pelo senador Dornelles que disse: “Isto transforma o Brasil num imenso paraíso fiscal”.
Denunciamos o fato numa audiência pública no Senado e quando perguntado pela imprensa quem seria o patrocinador dessa emenda, não titubeamos: “se vocês procurarem quantas audiências públicas o Cartel Internacional, incrustado no Instituto Brasileiro do Petróleo, fez no Senado, só este ano, com um desfile de lobistas, vocês identificarão facilmente a origem dessa malfadada emenda”.
Entrevistado, o autor da inclusão, deputado Henrique Alves pôs a culpa na PETROBRAS, e, com isto, cometeu dois erros: 1) consultamos o presidente e vários diretores da Petrobrás e eles não sabiam de nada; 2) mesmo que tivesse partido da PETROBRAS a idéia da emenda, ela não se justificaria, visto que causaria um imenso prejuízo à Nação.
Veio a votação no Senado. Conversamos com o relator Renan Calheiros, que nos disse: “olha eu prometi derrubar essa emenda, mas a relatoria passou para o Senador Romero Jucá. Fale com ele”. Falamos, e o Senador nos disse: “as emendas referentes a royalties foram retiradas. Serão votadas em separado”. Não satisfeitos, perguntamos: “e a emenda da devolução dos royalties, também ficou para depois’? Resposta: “falei com o fulano, do governo e ele disse que isto não tem problema”.
Suspeitamos de outra inserção sub-reptícia para devolver os royalties para o Consórcio Explorador. Fomos ver o texto do relator e, bingo! Lá estava, camuflada, a famigerada devolução dos royalties para o consórcio. O relator inseriu um acréscimo no artigo 2º do projeto do Governo e então se fez necessária a emenda Pedro Simon para retirar esse absurdo e ainda corrigir a emenda Ibsen, pois já que a União deixaria de perder os R$ 54 bilhões, de mão beijada para os consórcios, dava para ela ressarcir os estados produtores das perdas de cerca de R$ 6 bilhões causadas pela emenda Ibsen Pinheiro.
No dia seguinte, grande parte dos lobistas, incluindo a grande mídia, bateu sem trégua na emenda Pedro Simon, indignados pelo prejuízo dos seus patrocinadores. Nenhum deles mencionou a verdadeira motivação salva-pátria da emenda Simon…
No entanto, nova surpresa estava reservada. Eis que o Projeto que saiu do Senado com a Emenda Simon, proibindo a devolução em petróleo dos royalties pagos, devidamente discutida e aprovada, volta a apresentar outro contrabando, não percebido por ninguém, agora de 4 artigos (2º., 10º., 15º. e 29º.), para essa devolução.
E assim as coisas vão. Continua a luta. Agora na Câmara de Deputados, para a retirada desse absurdo da Legislação.

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Diálogos desenvolvimentistas: Saúde

Tratar de desenvolvimento humano, a médio e longo prazos, requer refletir sobre propostas que mudem estruturalmente o funcionamento do capitalismo. Algumas dessas mudanças se tornaram recentemente possíveis com o surgimento da internet, e passam, necessariamente, pela democratização do judiciário (eleição para os tribunais superiores), da ciência (transparência e impessoalidade nos processos de fomento à ciência), das empresas privadas (adotar convenção 156 da OIT, por exemplo) e dos serviços públicos (que contemple avaliação do usuário do serviço).

Essa é a posição de Mauro Patrão, professor do departamento de matemática da Universidade de Brasília. Para Mauro, porém, é fundamental termos objetivos ousados ao lado de estratégias e táticas adequadas para a sua realização. Nessa linha, percebe a democratização da ciência e dos serviços públicos como objetivos mais de curto prazo que seriam passiveis de ser alcançados já no governo Dilma, embora reconheça que a reforma das comunicações é necessária para o desenvolvimento de todas as áreas e que seria positivo ampliarem-se os mecanismos de democracia direta, o mesmo que defende Paulo Metri, Diretor do Clube de Engenharia do Rio de Janeiro.

Como modelo de democratização dos serviços públicos, por estar entre as prioridades do Governo Dilma, discutiu-se a consolidação do SUS a partir de um processo de democratização dos serviços de saúde. Destacou-se que um dos pontos centrais do modelo do SUS é a gestão tripartite, com representantes do governo, dos servidores e dos usuários. A implementação da gestão tripartite é repleta de falhas, mas pode ser aperfeiçoada. Deve-se especificar de maneira mais clara o modo de escolha dos diversos representantes, especialmente dos usuários, e especificar de modo mais claro as diversas atribuições. Pode ser um grande exemplo de democracia direta.

Além disso, outro modelo de controle do SUS feito diretamente pela população seria a instituição de um sistema de avaliação do atendimento realizado por cada profissional da unidade de saúde. Esse sistema poderia ser implantado junto com o sistema de informatização de consultas, exames e prontuários do SUS, de modo que novas consultas só sejam agendadas para usuários que completem a avaliação do atendimento. Essa avaliação deveria ser breve e analisar tanto a capacitação técnica, quanto a motivação e o cuidado no atendimento. A média mensal da avaliação dos atendimentos realizados determinaria um acréscimo proporcional no salário do profissional. Esse acréssimo deve estar limitado a uma porcentagem do salário, talvez 10% ou 20%, de modo a se evitar o esvaziamento do salário base.

Mauro destacou dois impactos de medidas desse tipo. Da parte dos profissionais, estimularia as diversas iniciativas coletivas e/ou individuais realizadas por dedicados profissionais de saúde, que hoje em dia não tem qualquer reconhecimento do seu valioso trabalho. De fato, hoje em dia, há um estimulo na direção oposta, de modo que muitos profissionais dedicados vão perdendo a inicial motivação e se transformando em péssimos profissionais. Da parte dos usuários, estimularia a consciência de que o SUS é feito para os usuários, de modo que a avaliação das inúmeras pessoas humildes atendidas seria parte integrante do funcionamento do sistema. Esse sistema de avaliação diminuiria a assimetria de poder entre usuários e profissionais de saúde e, provavelmente, a consciência gerada pelo sistema de avaliação estimularia a participação dos usuários na gestão tripartite.

Estando o usuário na base da avaliação, o economista Gustavo Santos reforça a necessidade de trazer a classe média para o sistema como forma de aumentar a pressão para seu aperfeiçoamento, e defende o fim do desconto no Imposto de Renda para usuários de saúde privada como forma de aumentar os recursos disponíveis para o financiamento do sistema público de saúde. Na mesma linha, Mauro destaca que o fim do desconto no IR dos gastos com saúde privada ainda evitaria que o contingente de pessoas que estão ascendendo à classe média saiam do sistema.

Todavia, essa medida é politicamente complicada de ser levada a cabo, dado que, como pontua o analista Leandro Couto, o usuário do setor privado não faria a migração de modo automático, continuaria pagando sua saúde privada e, sem desconto, se voltaria contra o próprio governo. Leandro recorda outra iniciativa, não menos complicada, de o governo enfrentar o Lobby das empresas de saúde privada que ainda não restituem ao SUS pelos serviços que seus clientes utilizam do sistema, geralmente de alta complexidade. O financiamento do sistema público de saúde de fato universal é, de todo modo, um gargalo real. A economista Ceci Juruá estima que sejam necessários recursos anuais em torno de R$ 300 bilhões para universalizar o SUS, considerando um custo mensal de R$ 150,00 para cada um dos 190 milhões de brasileiros. O montante de R$ 300 bilhões equivale praticamente à receita corrente líquida anual do governo federal.

A equação está longe de ser solucionada, mas os desenvolvimentistas demonstram que o debate está muito além da volta da CPMF.

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Ministro boliviano não quer papo com Jobim?

Ministro do Interior da Bolívia anunciou iniciativa anti-drogas entre Brasil, Peru e Bolívia.

A questão, obviamente, envolve assuntos de defesa, mas parece que Nelson Jobim não foi incluído na conversa. Será que Jobim não inspira confiança nos nossos vizinhos? Seria porque teria entregue segredos de Estado aos norte-americanos?

Ainda há tempo para não se confirmar Jobim no Ministério da Defesa, apesar do seu esforço em se manter na mídia nos últimos dias a reboque das ações contra  a violência no Rio de Janeiro. A esperança é a última que morre, ou pelo menos morre depois da confiança da comunidade sul-americana no Ministro da Defesa do Brasil.

Abaixo, a notícia da reunião trilateral para coordenação da luta anti-drogas

Bolívia anuncia reunião com Brasil e Peru para coordenar luta antidrogas

O ministro do Interior boliviano, Sacha Llorenti, anunciou que se reunirá em breve com autoridades do Brasil e do Peru para coordenar ações contra o tráfico de drogas e o crime organizado, informou neste domingo (5/12) a agência de notícias boliviana ABI.
“Surgiu a iniciativa de realizar uma reunião trilateral entre os ministros da Justiça do Brasil e do Interior do Peru e da Bolívia para coordenar uma luta conjunta contra as atividades ilícitas”, declarou Llorenti.

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A proposta foi feita durante uma recente visita do titular do Interior boliviano ao Brasil, onde se reuniu com o ministro da Justiça, Luiz Paulo Barreto, e outras autoridades.

A data da reunião ainda não foi fixada, mas Llorenti espera que seja realizada o mais rápido possível, devido ao fato de que traficantes peruanos, segundo disse, utilizam a Bolívia como país de passagem para enviar droga ao Brasil.

“É importante que se consolide esse encontro trilateral para coordenar ações em matéria de combate ao narcotráfico e melhorar a troca de informação entre as forças antidrogas dos três países”, concluiu.

As autoridades bolivianas anunciaram na semana passada o reforço da fiscalização na fronteira com o Brasil para evitar a entrada de traficantes após as operações que foram realizadas nas favelas do Rio de Janeiro.

Em 2010, a polícia boliviana prendeu 355 estrangeiros por tráfico de drogas, sendo 120 colombianos, 83 peruanos e 57 brasileiros.

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Ministério da Gestão? E o planejamento?

Com o nome de Valter Correia da Silva para a Secretaria-Executiva do Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão, o perfil do ministério está claramente delineado. Miriam aposta na gestão ‘estratégica’ para fazer frente aos desafios de execução dos principais projetos do governo, principalmente o PAC, que, por vezes, acabam atrasando por problemas burocráticos intrínsecos à própria máquina pública.Valter Correia, atual Secretário de administração da prefeitura de São Bernardo do Campo, já ocupou o cargo de Secretário de Gestão do Ministério do Planejamento no Governo Lula, entre 2005 -2007.

Segundo informa o Valor Econômico na sua edição de 03.12, será criado no MPOG um núcleo de gestão governamental para dar competitividade às ações governamentais, que contará com a participação de Jorge Gerdau, que trás a sua experiência à frente do Movimento Brasil Competitivo.

Na sua posse, como já reforcei nesse blog em posts anteriores (http://www.desenvolvimentistas.com.br/minhacircunstancia/2010/12/cdes-e-a-nova-agenda-para-o-planejamento-nacional/) Miriam ressaltou que sua indicação compriria a função de fortalecer essa “importante ferramenta de gestão, que é o planejamento”. Como contraponto, defendo que a gestão é que é uma importante ferramenta do planejamento, que se diz, inclusive, intensivo em gestão. Mas não se pode prescindir de um processo mais completo, ambicioso, que defina os grandes objetivos da ação pública, estabelece as metas, defina indicadores, mas de acordo com uma visão de longo prazo que se almeja, construída a partir de um diagnóstico completo da realidade atual. Nesse processo, a gestão faz sentido. Sem ele, ou sem estratégia, ‘pode ser só uma forma de cavar mais
rápido o buraco para o inferno’.

Espero que a nova Ministra esteja aberta a esse debate. Ainda que o espaço para o planejamento de longo prazo continue restrito à Secretaria de Assuntos Estratégicos, é importante articulá-lo com o médio e o curto prazo, inserí-lo nos instrumentos legais de planejamento e orçamentação, e revitalizar o sistema de planejamento. A SRI também deve ter um papel importante, particularmente nos trabalhos do CDES.

O momento é fértil, o perfil da ministra favorece e parece que a carreira de planejamento e orçamento está disposta a ajudar.

Abaixo, notícia do Valor Econômico sobre a atuação de Gerdau no núcleo de gestão

Gerdau integrará núcleo de gestão governamental

O empresário Jorge Gerdau Johannpeter foi convidado, ontem, pela presidente eleita, Dilma Rousseff, a integrar um núcleo de gestão governamental para dar competitividade às ações governamentais.

Cotado inicialmente para ser ministro de Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Gerdau, que no governo Lula também recusou integrar o ministério, revelou a interlocutores próximos que não exercerá qualquer função executiva no governo e que a ideia é colaborar, com a experiência acumulada no comando do Movimento Brasil Competitivo (MBC), para uma maior agilidade na máquina pública. “Precisamos oferecer o máximo de qualidade nos serviços prestados à população”, disse ele, após reunião na manhã de ontem com a presidente eleita, Dilma Rousseff.

Valor apurou que a intenção é fazer um trabalho, inicialmente, em parceria com o Ministério do Planejamento, que será comandado por Miriam Belchior a partir de janeiro. O secretário-executivo do Ministério do Planejamento será Valter Correia da Silva, atual secretário de administração e modernização administrativa da Prefeitura de São Bernardo do Campo. Miriam já acertou a liberação do secretário com o prefeito do município, Luiz Marinho. Correia é homem de confiança de Gerdau, de Marinho, de Miriam e da presidente eleita, Dilma Rousseff.

O Movimento Brasil Competitivo, composto por técnicos especializados em diversos setores, já faz um trabalho de acompanhamento e consultoria em dez estados. Nesses casos, é firmado um contrato entre os técnicos e consultores com as administrações estaduais e são promovidas auditorias e sugestões de cortes de gastos. Segundo Gerdau, o trabalho do grupo é fazer “aprimoramento e tecnologia de gestão”. O modelo combina com o discurso feito pela futura ministra Miriam Belchior no dia do seu anúncio oficial de que “é possível fazer mais com menos”.

Na conversa que teve ontem com Dilma, Gerdau e a presidente discutiram como modelo de atuação o que é feito hoje no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), programa do qual Miriam é a grande gestora. “Queremos estender esse perfil a todas as áreas estratégicas do governo, como obras, educação e saúde”, declarou Gerdau.

Integrantes da equipe de transição lembraram que, na quarta-feira, Dilma reuniu-se com representantes do setor de saúde e, mais do que o subfinanciamento, ficou atenta aos problemas de gestão levantados pelos próprios integrantes do setor. Gerdau tem um trabalho de eficiência na área em um Hospital Modelo no Rio Grande do Sul. E também é parceiro de Vicente Falcone, responsável pela implantação do “choque de gestão” promovido pelos tucanos Aécio Neves e Antonio Anastasia no governo de Minas.

Pessoas que acompanham as conversas não quiseram afirmar se outros nomes poderão ser convidados para integrar esse núcleo de gestão governamental. Asseguraram, no entanto, que o núcleo não tem qualquer objetivo de esvaziar o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, que continuará tendo o mesmo papel de debater as grandes questões nacionais. E que na reunião temática sobre erradicação da miséria, promovida pela transição há duas semanas, também surgiu a proposta de criação de um grupo específico para tratar desse tema.

A presidente eleita não vai mais à cúpula ibero-americana, que acontece hoje e amanhã em Mar Del Plata, na Argentina. Ela preferiu permanecer no Brasil para prosseguir as negociações para a composição do Ministério. A previsão é que hoje sejam anunciados novos nomes da equipe, principalmente aqueles considerados do núcleo do governo – ou ministros palacianos: Antonio Palocci na Casa Civil, Gilberto Carvalho na Secretaria-Geral e Alexandre Padilha na Secretaria de Relações Institucionais. O atual secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Nelson Barbosa, irá mesmo ter um cargo no Palácio do Planalto, mas não deve ser em nível ministerial. Está cotado, no entanto, para trabalhar ao lado da presidente, participando de reuniões diariamente, com voz em questões da política econômica.

Um ministro próximo ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou ao Valor que após a definição dos ministros palacianos, o próximo passo será anunciar o nome dos chamados ministros de Estado: Defesa (Nelson Jobim), Relações Exteriores (Antonio Patriota) e Justiça (José Eduardo Cardozo). O passo seguinte seria anunciar o nome dos ministros indicados pelos partidos políticos.

Negociadores que acompanham de perto as articulações para a formação do futuro governo afirmaram, no entanto, que não será surpresa se o anúncio de hoje incluir dois nomes do PMDB: Edison Lobão (Minas e Energia) e Wagner Rossi (Agricultura). Ambos estão praticamente certos – Lobão, inclusive, reuniu-se duas vezes ontem com Dilma na Granja do Torto,

Isso serviria para conter os ânimos do PMDB, incomodado pelo fato de não ter nenhum nome da legenda confirmado no primeiro escalão ministerial. Lobão seria o primeiro dos dois nomes a serem indicados pelos senadores pemedebistas. Rossi entraria na cota pessoal do vice-presidente eleito, Michel Temer.

Ontem, o presidente nacional do PT, José Eduardo Dutra, confirmou que está fora da equipe de transição de Dilma Rousseff. Ele disse que sua missão foi cumprida após a primeira rodada de negociações com os partidos aliados. “Com a definição de que eu vou permanecer no PT, as negociações para a formação do futuro governo serão feitas pelos ministros que a presidente Dilma indicar”, declarou Dutra, após reunião no Senado Federal.

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CDES e a nova agenda para o planejamento nacional

A dinâmica do planejamento no Governo Lula resultou num processo contraditório.

Sem dúvida, fortaleceu-se o planejamento setorial, vide as áreas de energia, transportes, educação, por exemplo. Ainda, criaram-se instituições que executaram funções importantes do que deveria ser o planejamento nacional, como a SAE e a SRI, esta particularmente no que tange os trabalhos do CDES. Numa sociedade cada vez mais complexa como a brasileira, e num Estado premido constantemente pelas questões de curto prazo, é essencial se pensar no longo prazo, em se propor as bases para um projeto nacional de desenvolvimento,  e fazer isso de forma articulada com a sociedade, demais entes federativos e com os demais poderes da república.

Minha crítica é quanto à articulação dessas partes, que, a meu ver, foi frágil. Os planejamentos setoriais não eram oriundas de uma visão sistêmica do país, multisetorial por essência.

Creio que esse seja o grande desafio do Governo Dilma quanto ao planejamento. Articular as poderosas ferramentas e instituições que foram fortalecidas no Governo Lula, quando o próprio Ministério do Planejamento perde espaço para a Casa Civil, até mesmo por conta da condução do PAC.  Sabe-se que o PAC é fruto muito mais de gestão do que planejamento, o que levou à Miriam Belchior falar “em fortalecimento dessa importante ferramenta de gestão, que é o planejamento”, quando deveria ser justamente o contrário – a gestão é uma importante ferramenta do planejamento. Este pode ser intensivo em gestão, mas essa não pode substituir o primeiro.

Hoje ocorreu a última reunião do CDES de 2010, a despedida do presidente Lula. O órgão fez um louvável trabalho na construção da Agenda Nacional de Desenvolvimento, de 2005, e agora da Agenda para o Novo Ciclo de Desenvolvimento. As desigualdades sociais e regionais do Brasil são o centro da preocupação dos Conselheiros, que apostam na diversidade brasileira como sua grande potencialidade e na educação como “elemento  transformador  de  longo  prazo  e  de  perenização  dessa transformação de longo prazo e de perenização dessa transformação”. Abrem duas linhas estratégicas para o desenvolvimento nacional nos próximos anos: consolidar  o  processo  de  expansão  equânime  do  emprego  e  da  renda,  fortalecendo  o mercado  interno  ancorado  em  um  modo  de  produção,  de  consumo  de  massa  e  de distribuição sustentáveis; ampliar os  investimentos  inovativos e se  inserir de  forma ativa na  economia  internacional.

Essa estratégia deve ser explicitada. Não há nada mais legítimo que o trabalho feito pelo CDES como base para o projeto de desenvolvimento do Brasil, como tradução do interesse nacional. Ela deve estar na base do processo de articulação do planejamento de longo e médio prazo. Nos oferece, replicada abaixo, uma visão de futuro do Brasil que se quer construir. O trabalho do CDES deve ser louvado, mas reconhecido como apenas o início de um processo que precisa ser fortalecido. O Sistema de Planejamento deve ser revisto, e o trabalho apresentado demonstra que temos as condições para fazer isso.

VISÃO DE FUTURO
“Um país democrático e coeso, no qual a iniquidade foi superada,  todas as brasileiras e  todos os brasileiros  têm plena capacidade de exercer  sua  cidadania,  a  paz  social  e  a  segurança  pública  foram  alcançadas,  o desenvolvimento  sustentado  e  sustentável  encontrou o  seu  curso,  a  diversidade, em  particular  a  cultural,  é  valorizada.  Uma  nação  respeitada  e  que  se  insere soberanamente  no  cenário  internacional,  comprometida  com  a  paz  mundial  e  a união entre os povos”.

A Agenda para o Novo Ciclo do Desenvolvimento pode ser baixada aqui:

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Cuidados com a herança

Durante a vida, a gente cansa de ouvir um ditado que vale mais que todo o direito de família: Pai rico, filho nobre e neto pobre. Todo o esforço de uma geração para construir um patrimônio, muitas vezes, é anulado pelo descuido com os herdeiros no gerenciamento do seu legado.

Pois um grande legado que a política externa do Governo Lula deixa ao país é a Unasul e o seu Conselho Sul-americano de Defesa, em particular. Na última reunião da Unasul, que ocorreu semana passada, na Guiana, foi inclusive lançada uma iniciativa para patrulhamento conjunto das fronteiras, na onda do enfrentamento que as forças de segurança faziam ao tráfico nos morros cariocas.

O que foi construído em um governo, em política externa, pode muito bem representar apenas um soluço frente a um processo histórico de relações preferenciais com os EUA e potências europeias, no qual se dava as costas para a vizinhança. Mesmo o pendor universalista da política externa brasileira, sem a confiança e estabilidade do seu entorno regional, poderia ser comprometido.

E não é que o vazamento da Wikileaks pegou Nelson Jobim, ou JohnBin, não apenas revelando posições de seu ‘amigo’ e colega de ministério, Samuel Pinheiro Guimarães, mas também quebrando a confiança das nossas relações com a Bolívia.

Se for verdade, com que moral fica Jobim para conduzir os trabalhos do Brasil no Conselho de Defesa Sul-americano? Qual o grau de unidade que o Brasil conseguirá na Unasul depois das revelações de seu Ministro da Defesa?

Ainda há espaço para dúvidas e, principalmente, para esclarecimentos. Continuo achando que deve haver outros nomes mais apropriados para a pasta da Defesa, de pessoas que prezam pelo papel autônomo do Brasil no mundo, que reconhecem a importância estratégica da integração sul-americana para a o desenvolvimento nacional e veem com clareza as possibilidades de cooperação na área de defesa na América do Sul.

Tenho certeza que a presidente Dilma conhece alguns deles, e espero que tenha esse zelo especial ao legado do Governo Lula para a integração do nosso continente.

Abaixo, artigo do Sérgio Leo no Valor Econômico com o Jobim falando muito mais do que devia.

Relatos de Jobim à diplomacia americana irritam Itamaraty

Alvo dos mais recentes vazamentos de documentos da diplomacia dos Estados Unidos, pelo site Wikileaks, o ministro da Defesa, Nélson Jobim, irritou a diplomacia brasileira devido à informação de que teria confirmado ao governo americano o diagnóstico de câncer no presidente da Bolívia, Evo Morales. Segundo telegrama de 2009 a Washington, do embaixador Clifford Sobel, Jobim, após um encontro em La Paz entre Morales e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, teria informado aos EUA que o governo brasileiro até ofereceu tratamento em São Paulo para o presidente boliviano.

A transmissão, a outro governo, de um suposto segredo de Estado de um aliado do Brasil é uma falta “grave”, na avaliação de um graduado diplomata. No Palácio do Planalto, porém, o caso foi minimizado. Segundo um assessor de Lula com trânsito na equipe da presidente eleita Dilma Rousseff, o governo está decidido a não dar atenção a “telegramas de embaixador”, e eventuais comentários de Jobim sobre Morales não teriam poder de afetar a relação com o governo da Bolívia. O governo boliviano negou ontem que Morales tenha tido câncer e informou que ele foi operado por médicos cubanos de um “desvio de septo”.

Jobim também divulgou nota negando ter acusado o ex-secretário-geral do Itamaraty Samuel Pinheiro Guimarães de ter “ódio aos EUA”, como consta em outro telegrama vazado no Wikileaks. Mas nada falou sobre Morales – que, recentemente, em uma cerimônia em La Paz, com Jobim, acusou os EUA de apoiarem conspirações contra o governo boliviano.

A rivalidade entre o Itamaraty e Jobim, cotado para permanecer ministro no governo Dilma Rousseff, é evidente na leitura dos telegramas confidenciais vazados na internet pelo Wikileaks. Os textos escritos em 2008 e 2009, pelo então embaixador Clifford Sobel, mostram que os americanos viam Jobim como seu maior aliado contra o Ministério de Relações Exteriores, no esforço para firmar acordos na área de Defesa com os EUA.

O acordo, alvo de repetidos contatos e viagens de autoridades dos dois governos, foi firmado apenas em abril de 2010, mas incluiu, discretamente, até permissão para missões de fiscalização em instalações militares e civis dos dois países.

O ministro Jobim é descrito, pelo embaixador, como “talvez um dos mais confiáveis líderes no Brasil”. Sobel lembra que o ministro pertenceu ao Supremo Tribunal Federal e afirma que “ele mantém uma forte reputação de integridade que é rara entre os líderes brasileiros”. Notando que o Itamaraty procurava encurtar e esvaziar a visita de Jobim aos EUA, onde o ministro queria tratar do acordo de Defesa, Sobel descreveu o ministro da Defesa como um homem decidido a “desafiar a supremacia histórica do Itamaraty em todas as áreas de política externa”.

Numa avaliação do que significava ter Jobim no ministério, na época, Sobel prevê que Lula teria de dar a última palavra na disputa “entre um ministro da Defesa invulgarmente ativo e interessado em desenvolver laços mais firmes com os EUA e um Ministério de Relações Exteriores que está firmemente comprometido em manter controle sobre todos aspectos da política externa e manter uma distancia calculada entre o Brasil e os Estados Unidos”.

Pelo relato de Sobel, Jobim se mostra um ministro afinado com algumas linhas gerais do governo Lula, como a reivindicação de transferência tecnológica no campo militar, a defesa de uma política de contenção, sem hostilidades, do governo de Hugo Chávez na Venezuela, a relutância em aceitar acusações de apoio às Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia por parte de governos vizinhos e a crítica aos EUA pelos obstáculos colocados no passado à venda de aviões da Embraer aos venezuelanos.

Mas, enquanto os diplomatas são descritos como um “problema” no esforço por um acordo de Defesa, Jobim foi descrito como um aliado que permitiria uma aliança com o Brasil nesse campo passando por cima do Itamaraty. O acordo assinado somente em 2010, de fato, colocou o ministério da Defesa como único responsável pelas medidas necessárias para por em prática a cooperação entre Brasil e EUA.

O comportamento de Jobim descrito por Sobel nos telegramas confidenciais vazados ontem mostra que, na tentativa de assegurar a confiança dos americanos, o ministro chegou a entrar em detalhes sobre o delicado tema da doença de Evo Morales, tratado com Lula durante visita do brasileiro a La Paz, em janeiro de 2009. Jobim, diz Sobel, teria dito que Lula ofereceu a Morales exames e tratamento em um hospital de São Paulo.

Embora houvesse relatos públicos de que Morales sofria de “sinusite aguda”, Jobim, segundo Sobel, teria dito que os problemas sentidos pelo boliviano eram “na verdade, causados por um sério tumor e a cirurgia seria uma tentativa de removê-lo”. Jobim teria dito, inclusive, que o tumor poderia explicar por que Morales parecia extraordinariamente distraído nos encontros da época. O tratamento teria sido adiado, porém, segundo o ministro, até o referendo constitucional previsto para o fim daquele mês, na Bolívia. O Ministério da Defesa não quis se pronunciar sobre o relato de Sobel a respeito de Jobim e Morales.

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As mil caras de Jobim

Nelson Jobim está, ou estava, quase no ponto de ser confirmado como Ministro da Defesa no Governo Dilma. Filiado ao PMDB do Rio Grande do Sul, mas sem uma vida orgânica forte no partido, não será o fiador de uma adesão dos pemedebistas gaúchos, independentes (como Simom), ou oposicionistas (como Darcísio Perondi, deputado federal eleito para a quinta legislatura).  O Presidente do PMDB e Vice-Presidente eleito, Michel Temer, expressou sua preocupação em enquadrar os revoltados dentro da sua legenda, e o PMDB gaúcho está na lista.  O Valor de hoje trás ainda a informação de que Mendes Ribeiro, também do PMDB Gaúcho, teria sido indica pelo partido para ocupar o primeiro escalão do Governo Dilma. Há ainda que se lembrar do nome do pemedebista Germano Rigotto, ex-governador do RS, candidato derrotado ao Senado, mas membro do CDES de Lula.

Jobim, no entanto, parece ter vindo com a chancela de Lula. Seria mais um nome que o presidente emplaca no governo de sua sucessora. Aproveita o sucesso das ações das forças de segurança no Rio de Janeiro para consolidar seu nome e ganhar espaço na mídia, embora algumas fontes revelem que foram justamente as resistências de Jobim a empregar as Forças Armadas nessas operações um dos motivos para que elas não tivessem acontecido antes.

Todos sabem, no entanto, da proximidade de Jobim com o tucano José Serra, seu amigo de longa data. Esse fato teria o levado a declarar que poderia ser ministro tanto num eventual governo Serra como num governo Dilma, sem mencionar que, em geral, as concepções para as forças armadas de um ou outro modelo espelhado pelas forças que se aglutinavam ao redor dos candidatos são substancialmente diferentes.

Em seguida, Jobim saiu com declarações enfáticas condenando a presença da Quarta Frota norte-americana no Atlântico Sul, numa assertividade que me impressionou. “A defesa da América do Sul só quem faz é a América do Sul” declarou na abertura da 7° Conferência do Forte de Copacabana, no início de novembro, na qual fez várias críticas abertas aos EUA.

E não é que agora, entre o vazamento dos documentos da diplomacia americana, Jobim é listado com um importante aliado dos EUA, que faria oposição à visão do MRE e de Samuel Pinheiro Guimarães, que o próprio Jobim acusa de ser anti-americanista e querer criar problemas com Washington. Abaixo, segue a reportagem completa, extraída do site www.operamundi.uol.com.br

Obviamente, várias teses poderiam ser levantadas. Também não sei se isso bastará para que Jobim não seja confirmado dentro os próximos ministros, mas as reações na internet ganham força. Será que Dilma tem outro nome na manga? Será que Jobim é um daqueles casos que é melhor manter por perto, sob vigilância? Será que Lula volta atrás nessa mediação? Ou será que Dilma, além de confirmar Jobim, também confirma Samuel Pinheiro Guimarães e mantém esse desconforto entre os colegas de ministério?

Parece que Nelson Jobim estaria mais confortável num ministério serrista.

Wikileaks: documentos revelam que Itamaraty é considerado inimigo da política dos EUA

Mensagens confidenciais reveladas pelo grupo ativista Wikileaks, mostram que o governo norte-americano considera o MRE (Ministério das Relações Exteriores) do Brasil um adversário que adota uma “inclinação antinorte-americana”. Os telegramas foram divulgados no Brasil pelo jornal Folha de S.Paulo nesta terça-feira (30/11).

Os telegramas também mostram que, para os EUA, o ministro da Defesa, Nelson Jobim, é um aliado, em contraposição ao Itamaraty. Jobim, que continuará no cargo durante o governo da presidente eleita, Dilma Rousseff, é elogiado e descrito como “talvez um dos mais confiáveis líderes no Brasil”.

Reprodução

Trecho de um dos memorandos elaborados pelo ex-embaixador dos EUA no Brasil, Clifford Sobel

Em documento enviado no dia 25 de janeiro de 2008, o então embaixador norte-americano em Brasília, Clifford Sobel, relata aos seus superiores como havia sido um almoço com Jobim dias antes. No encontro, o ministro brasileiro teria contribuido para reforçar a imagem negativa do MRE  frente aos norte-americanos.

Indagado sobre acordos bilaterais entre os dois países, Jobim mencionou o então secretário-geral do Ministério das Relações Exteriores, Samuel Pinheiro Guimarães. Segundo o relato de Sobel, “Jobim disse que Guimarães ‘odeia os EUA’ e trabalha para criar problemas na relação [entre os dois países]“.

Já em memorando datado de 13 de março de 2008, Sobel afirma que o Itamaraty trabalhou ativamente para limitar a agenda de uma viagem de Jobim aos EUA. Ao tratar sobre essa visita, realizada entre 18 e 21 de março de 2008, os EUA afirmaram que “embora existam boas perspectivas para melhorar nossa relação na área de defesa com o Brasil, a obstrução do Itamaraty continuará um problema”.

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Combate ao terrorismo

Outros telegramas enviados pela embaixada dos EUA em Brasília para Washington revelam que, embora o governo brasileiro sempre tenha negado a existência de atividades terroristas no país, a polícia federal e a ABIN (Agência Brasileira de Inteligência) seguem recomendações do serviço de inteligência norte-americano para realizar operações de combate ao terrorismo no país desde 2005.

“A Polícia Federal frequentemente prende indivíduos ligados ao terrorismo, mas os acusa de uma variedade de crimes não relacionados a terrorismo para não chamar a atenção da imprensa e dos altos escalões do governo”, segundo mensagem enviada por Sobel em janeiro de 2008.

De acordo com o relatório enviado a Washington, o general Armando Félix diz ser importante que as operações de anti-terrorismo sejam “maquiadas” para não afetar negativamente a “orgulhosa” e “bem-sucedida” comunidade árabe no Brasil, presente principalmente na Tríplice Fronteira entre Paraguai, Brasil e Argentina.

“A sensibilidade ao assunto resulta em parte do medo da estigmatização da grande comunidade islâmica no Brasil ou de que haja prejuízo para a imagem da região como destino turístico. Também é uma postura pública que visa evitar associação à guerra ao terror dos EUA, vista como demasiado agressiva”, afirmou Sobel, que ocupou o cargo de embaixador entre 2006 e 2010.

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Pouco antes, o ministro do Gabinete de Segurança Institucional havia agradecido o apoio dos EUA por meio do RMAS (Regional Movement Alert System), sistema que detecta passaportes inválidos, perdidos ou falsificados. A partir de informações do RMAS, a ABIN e a PF estariam monitorando “indivíduos de interesse” no país.

“Além das operações conjuntas, o governo brasileiro também está pedindo que filhos de árabes, muitos deles empresários de sucesso, vigiem árabes que possam ser influenciados por extremistas ou grupos terroristas”, diz o relato. Para Félix, é de total interesse da comunidade “manter potenciais extremistas na linha”, evitando assim chamar a atenção mundial para os árabes brasileiros.

Segundo o telegrama enviado pelo ex-embaixador Sobel em 8 de janeiro de 2008, a preocupação em não admitir atividades suspeitas de terrorismo seria maior ainda dentro do MRE que, assim como o governo brasileiro, considera o partido libanês Hezbollah e o palestino Hamas partidos legítimos, e não terroristas. Por isso, disse ele, o Brasil participa “relutantemente” das reuniões anuais sobre segurança que reúne diplomatas, oficiais de segurança e inteligência da Argentina, Paraguai e Brasil com os EUA para discutir segurança na fronteira.

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Os herdeiros do Lulismo

Interessante entrevista do André Singer para a Terra Magazine.

Afirma que as eleições presidenciais de 2010 confirmam sua tese sobre o Lulismo. As classes de renda mais baixa, menos informadas politicamente, aderem a Lula e são a base da candidatura governista. A sua relativa volatilidade vai sendo trocada por uma estabilidade em torno da agenda que favorece às políticas sociais. Para Singer, mesmo a oposição teria que aderir a agenda lulista para poder ser competitiva eleitoralmente.
De um lado, a tese de Singer consolida Lula como um dos grandes personagens políticos da história do Brasil, dado que, mais do que sair com altos índices de popularidade e eleger o sucessor, alterou o perfil da distribuição dos votos no país.
Todavia, ainda permanece aberta a discussão dos herdeiros do Lulismo. Será o Lulismo um monopólio petista?
Algumas questões são pertinentes:
Se as classes de renda mais baixas se concentram no Nordeste, quem são e qual partido integram as grandes forçar políticas nordestinas?
A maior entrada do PSDB nas classes médias, principalmente no sul e sudeste, tem relação com um anti-petismo conservador dessas regiões?
Juntando todas as pontas, acredito que o Lulismo terá força por muito tempo ainda. O Grande herdeiro é, sem dúvida, o próprio Lula. Continuará dando as cartas da política nacional por um bom tempo. Todavia, os personagens ainda são mais fortes que os partidos políticos, e, caso a reforma política que se avizinha não consiga alterar isso, o PT não terá, pelos elementos que temos ao tentar responder essas perguntas que se colocam, exclusividade sobre o Lulismo. Aliás, é nisso que sonha a oposição, mas é aí que se assenta também a possibilidade de nascimento de uma via alternativa ao PT-PSDB.

Abaixo, a entrevista de André Singer no terra magazine:
Singer:Para vencer, oposição precisa aderir à agenda lulista
Dayanne Sousa

Eleitores de baixíssima renda são hoje uma maioria de peso eleitoral, não mais divididos e indecisos, aponta André Singer, cientista político e ex-porta-voz da Presidência no governo Lula. Por conta desse fenômeno que se comprovou na última eleição, tanto o governo Dilma como a oposição terão de aderir a uma agenda de favorecimento dos programas sociais se quiserem espaço nas próximas eleições, defende. O professor acaba de concluir uma análise do resultado das eleições e diz que ela reforça sua tese sobre o chamado lulismo, que diz respeito ao peso eleitoral das classes mais baixas.

- O lulismo passou pelo seu primeiro teste – reforça.

Ele avalia que Dilma teve mais votos entre os eleitores de baixíssima renda, exatamente como aconteceu com Lula em 2006, o que para ele configura um novo movimento político. “Houve um realinhamento que começa em 2002 e se completa em 2006″, explica. Assim, diz, o voto dos mais pobres passa a ser decisivo nas eleições. “Não é que o partido de oposição não possa ganhar, mas ele provavelmente ganha tendo que aderir à nova agenda”.

O cientista destaca ainda que a base política dos dois principais partidos – PT e PSDB – está se consolidando em classes sociais diferentes. O PT perdeu apoio na classe média e ganhou entre os mais pobres. Já o PSDB se estabelece como a principal força da classe média mais tradicional e ainda consegue espaço na chamada “nova classe C”. Para Singer, o PT está abandonando um discurso mais radical e sua antiga base eleitoral para incorporar aquilo que foi construído por Lula.

Leia a entrevista na íntegra.

Terra Magazine – Se concretizou a hipótese de que os mais pobres viraram a base eleitoral de Dilma, assim como de Lula?
André Singer – Sim, a distribuição de voto pela faixa de renda tanto no primeiro quanto no segundo turno confirma que a votação da Dilma crescia conforme caia a renda. De tal forma que a gente poderia dizer que a sustentação principal da candidatura dela se deu exatamente na mesma faixa de renda que caracterizou a reeleição do presidente Lula e que me levou a sugerir a hipótese do lulismo.

Foi uma transferência de votos como se levantava no início da disputa?
Foi sem dúvida uma transferência de voto, mas eu acho que foi mais que isso. Eu diria que o lulismo passou pelo seu primeiro teste. Se a distribuição de votos tivesse sido outra, você poderia dizer que teria havido uma alteração importante com relação ao que aconteceu em 2006, mas os resultados acabam confirmando que essa base eleitoral parece ter uma estabilidade. Esses eleitores de baixíssima renda são os de menor informação e isso explica porque demorou para que essa situação se consolidasse. A candidata era nova e essa informação demorou a chegar a esses eleitores. O raciocínio que eu queria fazer era outro. Justamente por serem eleitores de baixa informação política você poderia esperar muita volatividade, que eles ficassem mudando de voto. A minha hipótese é de que isso não ia acontecer e não ocorreu.

E por que não?
Aí vem toda a minha discussão sobre o que seria o lulismo. Eu acho que o segundo mandato do presidente Lula. No primeiro mandato eu já havia demonstrado que o presidente Lula construiu um programa político de distribuição de renda por meio de ação estatal, sem ameaça à ordem estabelecida. Esse programa atende muito diretamente a esses eleitores de baixíssima renda. Eu acho que o segundo mandato confirmou esse programa, eu diria até que ele deu alguns passos no sentido de aprofundá-lo. Aumentou gasto público e investimento em infraestrutura. Com isso houve mais geração de empregos. Isso foi uma novidade do segundo mandato. Eu acho também que o governo teve uma ação muito rápida no que diz respeito ao enfrentamento da crise financeira internacional e o que poderia ter sido um abalo profundo acabou sendo superado.

O senhor falou que o lulismo passou no seu primeiro teste. Com isso ele se consolida como uma força política para ficar?
Eu acho que sim. Houve um realinhamento que começa em 2002 e se completa em 2006. Isso lembra o que aconteceu nos Estados Unidos entre 1932 e 1936 (com o presidente Franklin D. Roosevelt). Esse ciclo político durou até meados dos anos 60. Isso não quer dizer que um mesmo partido vai ganhar as eleições durante mais de 30 anos. Nesses ciclos de realinhamento do eleitorado, sempre a oposição ganhou algumas eleições. Mas significa que se constituiu uma nova maioria em torno de uma nova agenda. Não é que o partido de oposição não possa ganhar, mas ele provavelmente ganha tendo que aderir à nova agenda. Eu acho que isso já aconteceu na eleição de 2010. A campanha do PSDB teve propostas (como elevar o salário mínimo a R$ 600) típicas dessa nova agenda de combate à pobreza e à desigualdade. O partido de oposição tem que aderir a essa agenda se ele quiser disputar a maioria.

Muita gente começou a ler isso – os programas de combate à pobreza – como uma forma de “compra de votos” e na campanha se falou em ditadura diante da dificuldade de vencer Lula nas urnas. Como você lê isso?
Eu acho que falar em ditadura é completamente descabido. Eu penso exatamente o contrário. Nós estamos vivendo um momento de consolidação da democracia, no sentido de alternância do poder e de manutenção das regras do jogo. Nós temos um sistema partidário que está em consolidação. Temos dois partidos políticos – o PT e o PSDB – bastante estruturados e com bastante representatividade.
Uma outra coisa a ser discutida é o quanto a política de transferência de renda tem aspectos clientelistas. Eu acho que não. Os dados disponíveis indicam que o Bolsa Família, por ser um benefício dado por meio de um cartão dado normalmente às mulheres, ele parece ter um caráter impessoal. Isso não está sendo dado em troca do voto. A Bolsa Família caminha para ser um direito. Ela começou sendo um programa governamental, mas tende a ser um direito. A presidente Dilma deverá enviar para o Congresso a Consolidação das Leis Sociais, com um item que seria a transformação do Bolsa Família em renda básica para a cidadania.

A presidente eleita ganha uma responsabilidade de atender às expectativas dessa classe?
Sem dúvida. Eu acho que esse é um compromisso, principalmente porque ela insistiu no final do segundo turno que a prioridade do governo dela seria a erradicação da miséria. Por isso que eu digo que há chances de que isso se consolide. Porque há um vínculo político forte entre bases sociais e atores políticos. Esses vínculos são explícitos.

O presidente Lula chegou a fazer uma brincadeira antes do resultado final da eleição em que ele dizia que eleger um sucessor era uma grande responsabilidade, já que nem Juscelino Kubitschek conseguiu. Ao mesmo tempo essa Consolidação das Leis Sociais lembra Getúlio Vargas. Lula entra para essa lista histórica de presidentes?
O fato de ele estar deixando o governo com uma aprovação de mais de 80% é absolutamente inédita. De fato, JK primeiro se elegeu com menos de 40% dos votos porque na época não havia segundo turno. E ele não elegeu seu sucessor. Isso é um indicador da situação política daquele momento, do final dos anos 50. Isto posto, acho que Lula deixa o governo numa situação de popularidade inédita. Acho que ele já escreveu seu nome nesse rol que você cita.

Teríamos, como na argentina, o peronismo virando um partido?
Acho que aí há diferenças importantes. O PT dá sinais de estar sendo o desaguador do lulismo. Houve uma mudança da base social do PT na mesma direção do lulismo. Um certo afastamento de apoio na classe média e um aumento muito significativo de apoio entre os eleitores de baixa renda. Eu tenho a impressão de que o Lulismo está indo na direção do PT. Aí tem uma diferença histórica muito importante. Nós estamos consolidando o sistema partidário e isso é um dado muito positivo. E digo com relação ao PT, mas também ao PSDB. Não acredito que o PSDB tenha saído muito enfraquecido da eleição. Acho que ele saiu como um partido de oposição que não ganhou, mas fez uma boa campanha. É um partido que tem hoje uma representação forte na classe média tradicional e parece que abriu um diálogo importante com a chamada nova classe C.

Classe C também?
Como um todo, não. A classe C está dividida, mas é nessa divisão que o PSDB estabeleceu um diálogo.

Quando você diz que o PT dá sinais de estar se alinhando com o lulismo, o que isso quer dizer? O PT se reconfigurou, então?
É, o PT está passando por um período de transição. Não há dúvida de que há um novo PT sendo gestado. Não é um processo tão recente, ele já existe há alguns anos. Mas não há dúvidas de que há um novo PT, menos radical, com características diferentes daquele que existiu até 2002.

Com menos apoio de intelectuais também, não?
Também. Sobretudo menos apoio na classe média, tal como foi essa conversão que eu chamei de lulismo, da base eleitoral do presidente Lula.

Não é curioso que a nossa política tenha tanto reflexo nas classes sociais? Nos Estados Unidos, por exemplo, a base dos partidos se divide mais por questões étnicas, ligadas à migração e não às classes sociais…
De fato o Brasil tem uma característica importante. É um, país grande, mas tem poucas divisões regionais e étnicas. Isso eu até diria que é uma coisa muito positiva, porque essas divisões normalmente não levam para bons caminhos. De fato, há uma diferença importante em relação aos Estados Unidos, em que, sobretudo questões religiosas e étnicas, sempre tiveram muito mais peso que no Brasil. O que talvez seja um elemento novo no caso brasileiro a ser avaliado seria essa influência da religião no primeiro turno desse ano. Isso é um fato completamente novo, nunca tinha acontecido dessa maneira e pode indicar um fator inédito. Sele ele vai se consolidar, só o tempo vai poder dizer. Mas esse elemento de classe se explica porque o grande fator de diferenciação no Brasil é a renda. O Brasil tem essa desvantagem de ser um país com uma desigualdade de renda enorme, mas não temos essas outras divisões.

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