Protagonismo brasileiro no plano internacional faz aumentar pressão

Protagonismo brasileiro no plano internacional faz aumentar pressão

Brasil tem enfrentado constrangimentos ao se abster, ou manter-se neutro, em temas de grande repercussão no mundo

Divulgação

Desde os tempos da Política Externa Independente (PEI) dos governos Jânio Quadros/João Goulart até o fim da década de 1980, a política externa brasileira, no contexto da Guerra Fria, pautou-se pela autonomia e pragmatismo em suas relações internacionais. Dessa forma, o país distanciava-se dos grandes debates “ideológicos” e concentrava-se naqueles que tangenciavam suaestratégia de desenvolvimento nacional. Com o passar dos anos, essa atitude parece ter se consolidado como uma característica da P.E brasileira.
A partir dos princípios de não-intervenção, autodeterminação dos povos, cooperação internacional e solução pacífica de controvérsias, o Brasil disponibiliza seus bons ofícios e lança mão da negociação bilateral e multilateral via organizações internacionais (ONU, FMI, OMC, etc.) na busca de soluções para as mais variadas situações na política internacional. Assim, o Brasil consolidou-se como um país “amigo de todos”. O bom relacionamento com o Irã, Cuba, Rússia, China, e demais países orientais, não comprometeu suas tradicionais parcerias que mantém com os países ocidentais.
No entanto, dada a crescente interdependência política e econômica na esfera global, as alianças entre os países tornam-se mais sensíveis à medida que os conflitos internacionais trazem à tona interesses divergentes. Nesse sentido, o Brasil – país que desponta no cenário externo como potência regional e provavelmente mundial em algumas décadas – tem enfrentado constrangimentos ao se abster ou manter-se neutro em temas de grande repercussão internacional como os Direitos Humanos (Cuba, Irã), sanções econômicas e intervenções militares (Síria e Líbia).
Leandro Freitas Couto, doutorando em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília, diz que “a diplomacia brasileira é sólida na defesa de princípios. O que não significa dizer que esses princípios são imutáveis ou tenham a mesma intensidade ao longo do tempo”. Leandro Couto ressalta que a aplicabilidade dos princípios precisa ser universal para que tenham garantia de força. “E essa universalidade incomoda os que agem por interesses geopolíticos, mas tentam camuflá-los no discurso de direitos humanos e meio-ambiente”, diz o especialista.
Para o internacionalista e pesquisador do Programa Pós-Graduação em Relações Internacionais Santiago Dantas, Lincoln Andrade, nossas relações são pragmáticas, visam negócios e cooperação, “não necessariamente amizade”. No entanto, segundo o pesquisador, é possível exercer uma política externa pautada pela cordialidade mesmo havendo divergências entre os países nas mais variadas questões. Ainda, segundo Lincoln Andrade, mesmo as chamadas Parcerias Estratégicas “não eliminam a ocorrência de divergências entre os parceiros”.
De qual lado estamos?
Na edição do dia 8 de fevereiro, o colunista do Financial Times, Joe Leahy, afirmou que “na medida em que o Brasil se posiciona como potência global, os diplomatas do país terão que ser mais assertivos sobre o que apoiam”. Dentro dessa perspectiva, Lincoln Andrade lembra que muitas vezes a “opinião da comunidade internacional refere-se às opiniões de EUA, União Européia e Japão, que colocam em pauta seus interesses como se fossem a opinião mundial”.
Leandro Couto ressalta que “o que eles estão querendo dizer é que não podemos estar ao lado deles nas mais importantes mesas internacionais se não defendermos as suas posições em casos como o do Irã, ou Cuba. O doutorando argumenta que pautar as discussões internacionais sob a ótica dos Direitos Humanos e meio-ambiente “é diminuir a relevância dos temas geopolíticos e econômicos”.
Para Leandro Couto, o discurso humanitário tem sido usado para camuflar os reais interesses dos países diretamente envolvidos nessas questões. “O Brasil não quer desconhecer esses interesses, por isso não pode simplesmente assinar embaixo de seus discursos e aplaudir suas posturas”, pondera o especialista.
China e Rússia, membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, são constantemente questionados por seus vetos e abstenções em temas como Direitos Humanos, meio-ambiente e intervenções militares. Nesse caso, pode-se interpretar a atitude contestatória desses países a partir de sua força econômica, poderio militar e do poder de veto que possuem dentro do Conselho de Segurança da ONU.  Leandro Couto diz que “ainda que, aí sim, nós apontemos as ambigüidades das suas políticas externas, não levamos essa postura ao extremo porque não temos condições e, portanto, também não temos interesse”.
Ao que tudo indica, o Brasil busca maior equidade no sistema internacional atuando de forma sólida e soberana na defesa dos princípios e interesses de sua política externa, sem deixar de reconhecer os interesses geopolíticos e econômicos que estão latentes nos grandes temas internacionais. Para sintetizar o ambiente de igualdade soberana entre as nações que pauta as relações do Brasil com seus parceiros, Lincoln Andrade lembra a famosa frase de Chico Buarque: “O Brasil não fala fino com Washington, nem fala grosso com Bolívia e Paraguai”.

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