A Chancela da integração monitorada

A integração sul-americana é, e deve continuar sendo, projeto prioritário não só da política externa brasileira, mas um objetivo transversal a toda ação do governo. Deve despertar atenção, no entanto, quando essa integração passa a ser monitorada e a sofrer interferência de atores de fora da região.

Em matéria do Valor de hoje, o repórter Sérgio Leo versa sobre estudo apresentado pelo BID que defende que o Brasil acabe com todas as suas tarifas para importação de produtos colombianos. O que mais chama a atenção não é o fato de o presidente do BID ser colombiano, mas a Colômbia ter assinado um acordo de livre-comércio com os EUA  - que ainda aguarda aprovação do congresso norte-americano, além de o próprio BID ser controlado pelos Estados Unidos.

Estaria querendo criar uma porta de entrada para a produção norte-americana no Brasil, via Colômbia, em tempos que o horizonte nos trás ventos de forte recessão econômica no gigante do norte? Se não, por que não sugerir ao Brasil uma derrubada unilateral das tarifas de importação de produtos advindos das economias menores da América do Sul? Afinal, como mostra o mesmo artigo, a Colômbia pode ser, em alguns anos, a segunda maior economia da América do Sul. A lógica das assimetrias, da redução das desigualdades, ainda não teria entrado na perspectiva do BID?

Hoje começa um grande seminário bilateral entre Colômbia e Brasil, que contará com a presença do ex-presidente Lula, e mais alguns dos ministros do atual governo, como Miriam Belchior  e Paulo Bernardo. Certamente, não se deixarão encantar pelo canto da sereia do Norte. (assim espero)

Abaixo, a matéria do Valor.

BID pede para Brasil acabar com tarifas de importação de produtos colombianos

Sergio Leo | De Bogotá
04/08/2011
Decidida a evitar o exemplo do México, que vem sofrendo com a desaceleração econômica de seu principal parceiro comercial, os Estados Unidos, a Colômbia procura diversificar seu leque de parceiros comerciais, agora com apoio decidido do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) para ampliar o comércio com o Brasil. “Não existe justificativa para que o Brasil não elimine imediatamente todas as tarifas de importação às exportações colombianas”, defende estudo do BID, ao apontar as vantagens da indústria brasileira com a maior abertura entre os dois países. 

O presidente do BID, Luis Alberto Moreno, que é colombiano, afirma que a forte concentração em produtos manufaturados no comércio entre os dois países justifica um maior esforço de abertura entre Brasil e Colômbia – país que em breve será a segunda economia sul-americana, ultrapassando a Argentina, prevê o economista.

O BID defende a assinatura de um acordo de “céus abertos” para o mercado de transporte aéreo nos dois países, entre outras medidas para reduzir o custo do frete de mercadorias entre Brasil e Colômbia, hoje o maior obstáculo à ampliação das trocas comerciais bilaterais. Recentemente, o Brasil assinou um acordo do gênero com os Estados Unidos, abrindo o mercado sem restrições às companhias americanas.

Um estudo do BID com manufaturados selecionados mostrou que o frete pode chegar a 33,5% do preço dos produtos enviados pela Colômbia ao Brasil, enquanto os mesmos produtos enviados do Canadá têm aumento menor, de 32%.

Moreno argumenta que os países emergentes representarão 68% do mercado mundial em 15 anos, o que justifica maior esforço pelas relações comerciais Sul-Sul. O estudo do BID lembra que a Colômbia prometeu eliminar 80% das tarifas de importação de mercadorias, no acordo assinado com os Estados Unidos, que ainda aguarda aprovação do Congresso americano. No acordo firmado com o Brasil, 50% da redução de tarifas foi adiada para depois de 2015, e alguns “picos tarifários”, barreiras altas a produtos manufaturados “sensíveis”, permanecerão mesmo depois de 2019.

Com mercados menores que os dos países desenvolvidos, os acordos Sul-Sul como o do Brasil e Colômbia “não podem se dar ao luxo de não eliminar completamente as barreiras tarifárias, sob risco de se tornarem irrelevantes”, afirma o estudo do BID. Manufaturados, principalmente plásticos, pneus, aço e aviões compõem 60% das vendas da Colômbia ao Brasil, que vende carros, alimentos, aviões, autopeças e aço, entre os principais manufaturados que exporta.

O BID elogia o aumento de investimentos entre os dois países, que acredita ser importante para evitar pressões protecionistas. Nos últimos cinco anos, os investimentos brasileiros na Colômbia aumentaram mais de oito vezes e somaram cerca de US$ 755 milhões. Esse valor pode crescer exponencialmente, se concretizado o anúncio do empresário Eike Batista, que informou ao governo colombiano a intenção de investir US$ 4 bilhões em logística e mineração nos próximos anos.

A Colômbia, que teve com o Brasil um déficit comercial de US$ 1,1 bilhão em 2010, também vem investindo no país, US$ 605 milhões entre 2005 e 2009, especialmente nas áreas e petróleo, energia, serviços financeiros e petroquímica.

Sinal do interesse na aproximação dos dois países, o presidente Juan Manuel Santos abrirá hoje o seminário, que terá quatro de seus ministros em painéis sobre comércio, transportes, comunicações, finanças, mineração e agricultura.

Na abertura, com ele, estarão o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que chegou ontem a Bogotá, com a ministra do Planejamento, Miriam Belchior, e o ministro das Comunicações, Paulo Bernardo. Entre os empresários brasileiros, estarão André Esteves, do BTG Pactual, José Sérgio Gabrielli, da Petrobras, e Albano Vieira, da Votorantim Energia.

O repórter viajou a convite do Banco Interamericano de Desenvolvimento

 

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2 Responses to A Chancela da integração monitorada

  1. Bruno5 says:

    Oi Ijuí! Resolvi visitar seu site e vou acompanhá-lo. :) []s

    • freitascouto says:

      Quem é vivo sempre aparece, ainda que esteja longe..
      Por onde anda você, meu caro?!
      Não atualizo com tanta frequência assim, mas pode ser sempre um ponto de encontro.
      Abração

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