Realizou-se nessa semana a primeira viagem internacional de Antônio Patriota como Ministro das Relações Exteriores do Brasil. O destino foi a Argentina, que também será o primeiro país a receber a presidenta Dilma Roussef em viagem oficial.
Alguns temas tratados na viagem são de grande relevância para as relações bilaterais entre os dois países, mas também para a integração sul-americana e a inserção da região no globo.
O compartilhamento da logística brasileira de promoção das exportações com a Argentina, seja com missões, armazéns de distribuição, participação em feiras, divisão de escritórios no exterior deveria se estender para todos os países sul-americanos. Não tenho dados precisos quanto à expressividade do sistema brasileiro de promoção de exportações, mas me parece que representaria ganho real aos seus vizinhos sul-americanos.
Também vejo com bons olhos a demanda argentina em se estabelecer um acordo no âmbito do Mercosul para viabilizar a participação das empresas dos países vizinhos nas licitações com vistas à Copa do Mundo de 2014 e aos Jogos Olímpicos de 2016. Primeiro porque nossas empresas não devem temer uma forte concorrência das empresas dos países vizinhos e, ainda assim, seria uma forte sinalização política a favor da integração, numa demonstração concreta de como a projeção internacional do Brasil pode se dar a favor, e não contra, os seus vizinhos.
O artigo de Daniel Rittner no Valor do dia 11.10 ainda traz mais duas informações importantes. O fluxo de turismo do Brasil para a Argentina superou a entrada de argentinos no Brasil, e isso tem usado como argumento para arrefecer os ânimos dos hermanos quanto ao desequilíbrio da balança comercial, que lhes tem sido desfavorável.
Por fim, a demanda brasileira em ampliar a cota de vôos semanais para a Argentina. As empresas brasileiras já chegaram ao limite, enquanto a Aerolineas Argentinas, em processo de restruturação sob comando estatal, faz apenas cerca da metade dos voos a que tem direito. Patriota teria apenas levantado o tema, por certo entendendo que o tema deve ter grande apelo na sociedade argentina.
O projeto de integração sul-americano patrocinado pelo Brasil tem seus custos, como qualquer estratégia de inserção internacional teria. As expectativas de ganhos futuros, além dos lucros presentes com a integração, compensam os custos. O Brasil está tomando a decisão de arcar com eles?
Abaixo, a reportagem completa do Valor.
Brasil e Argentina discutem desequilíbrio comercial
Na primeira visita ao exterior do chanceler Antônio Patriota, que foi recebido em Buenos Aires por sete ministros do gabinete argentino, o governo brasileiro conseguiu esquivar-se das pressões pelo crescente desequilíbrio comercial entre os dois principais sócios do Mercosul.
Após reunião com a presidente Cristina Kirchner, na Casa Rosada, Patriota destacou que o superávit da Argentina com o resto do mundo é “muito significativo” e chamou a atenção para outro desequilíbrio: o do turismo – já que o fluxo de brasileiros no país vizinho supera o de argentinos no Brasil. “Uma das formas de contribuir para o intercâmbio é o turismo. Neste ano, pela primeira vez, houve mais turistas brasileiros na Argentina do que argentinos no Brasil. E queremos que continue aumentando o número de turistas por aqui”, disse Patriota.
No ano passado, a Argentina teve déficit de US$ 4,1 bilhões na balança comercial com o Brasil, um aumento de 172% sobre o saldo desfavorável que registrou em 2009. Para este ano, a previsão de analistas é que a diferença no comércio chegue a US$ 5,5 bilhões, superando o recorde histórico verificado em 2008.
Em tom bastante amistoso, marcado pelas boas relações pessoais entre os dois – ambos tiveram a embaixada em Washington de seus respectivos países como último posto no exterior antes de se tornarem ministros -, Patriota e o ministro das Relações Exteriores da Argentina, Héctor Timerman, driblaram as desavenças na área comercial e anunciaram a criação de um grupo para estudar missões conjuntas de promoção, em terceiros mercados, de produtos brasileiros e argentinos de “valor agregado”. Também se comprometeram a ter uma reunião bilateral a cada 90 dias.
“Consideramos que a solução para as dificuldades que possam surgir é mais integração, mais comércio, mais contatos entre nossos setores privados”, disse o chanceler brasileiro. “Temos que olhar o quadro grande e não nos deteremos em casos pontuais.”
Timerman reforçou o interesse da Argentina em ter um acordo, no âmbito do Mercosul, para dar às empresas argentinas o mesmo tratamento das brasileiras nas licitações públicas. Ele ressaltou que a intenção é participar da construção de arenas esportivas e obras de infraestrutura que atendam à Copa do Mundo de 2014 e às Olimpíada de 2016. “Falamos sobre a importância de que mais empresas argentinas possam participar das compras governamentais.”
Patriota também levantou, sem tom de cobrança, um tema de enorme interesse das companhias aéreas brasileiras: a ampliação do acordo bilateral que limita, em 133 frequências semanais, a quantidade de voos comerciais que as empresas de um país podem fazer ao outro país. Do lado brasileiro, a cota já foi inteiramente preenchida. Como a Aerolíneas Argentinas, sob comando estatal há pouco mais de dois anos, faz apenas cerca de metade dos voos a que tem direito, o governo argentino tem se recusado a mexer no acordo, como forma de transferir a demanda para sua companhia.
Patriota e Timerman acertaram detalhes da visita que a presidente Dilma Rousseff fará à Argentina, dia 31. De Buenos Aires, ela seguirá para o Uruguai, onde jantará com o presidente José “Pepe” Mujica.
Caro Leandro,
Concordo com o posicionamento retórico acerca da necessidade de sinalizar que o desenvolvimento brasileiro não significa apequenamento dos nossos parceiros. Contudo, gostaria de expor algumas preocupações, sobretudo, em relação ao fato que os custos da integração proposta pelo Brasil aparentemente não tem sido seguidos de atos de boa vontade do outro lado do rio da prata. Podemos enumerar os casos em que empresas brasileiras sofreram constrangimentos no desenvolvimento de suas ações na Argentina. E até o presente momento o governo Kirchner não tem dado mostras concretas de que deseja enfrentar problemas graves de seu país. Tais como, a ineficiência na administração pública e o quadro decadente da economia.
Gostaria, portanto, se possível que você expusesse um panorama para o futuro das relações brasil-argentina a partir da presidência Roussef. Quais serão nossos maiores problemas? E quais os principais pontos de cooperação?
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