CDES e a nova agenda para o planejamento nacional

A dinâmica do planejamento no Governo Lula resultou num processo contraditório.

Sem dúvida, fortaleceu-se o planejamento setorial, vide as áreas de energia, transportes, educação, por exemplo. Ainda, criaram-se instituições que executaram funções importantes do que deveria ser o planejamento nacional, como a SAE e a SRI, esta particularmente no que tange os trabalhos do CDES. Numa sociedade cada vez mais complexa como a brasileira, e num Estado premido constantemente pelas questões de curto prazo, é essencial se pensar no longo prazo, em se propor as bases para um projeto nacional de desenvolvimento,  e fazer isso de forma articulada com a sociedade, demais entes federativos e com os demais poderes da república.

Minha crítica é quanto à articulação dessas partes, que, a meu ver, foi frágil. Os planejamentos setoriais não eram oriundas de uma visão sistêmica do país, multisetorial por essência.

Creio que esse seja o grande desafio do Governo Dilma quanto ao planejamento. Articular as poderosas ferramentas e instituições que foram fortalecidas no Governo Lula, quando o próprio Ministério do Planejamento perde espaço para a Casa Civil, até mesmo por conta da condução do PAC.  Sabe-se que o PAC é fruto muito mais de gestão do que planejamento, o que levou à Miriam Belchior falar “em fortalecimento dessa importante ferramenta de gestão, que é o planejamento”, quando deveria ser justamente o contrário – a gestão é uma importante ferramenta do planejamento. Este pode ser intensivo em gestão, mas essa não pode substituir o primeiro.

Hoje ocorreu a última reunião do CDES de 2010, a despedida do presidente Lula. O órgão fez um louvável trabalho na construção da Agenda Nacional de Desenvolvimento, de 2005, e agora da Agenda para o Novo Ciclo de Desenvolvimento. As desigualdades sociais e regionais do Brasil são o centro da preocupação dos Conselheiros, que apostam na diversidade brasileira como sua grande potencialidade e na educação como “elemento  transformador  de  longo  prazo  e  de  perenização  dessa transformação de longo prazo e de perenização dessa transformação”. Abrem duas linhas estratégicas para o desenvolvimento nacional nos próximos anos: consolidar  o  processo  de  expansão  equânime  do  emprego  e  da  renda,  fortalecendo  o mercado  interno  ancorado  em  um  modo  de  produção,  de  consumo  de  massa  e  de distribuição sustentáveis; ampliar os  investimentos  inovativos e se  inserir de  forma ativa na  economia  internacional.

Essa estratégia deve ser explicitada. Não há nada mais legítimo que o trabalho feito pelo CDES como base para o projeto de desenvolvimento do Brasil, como tradução do interesse nacional. Ela deve estar na base do processo de articulação do planejamento de longo e médio prazo. Nos oferece, replicada abaixo, uma visão de futuro do Brasil que se quer construir. O trabalho do CDES deve ser louvado, mas reconhecido como apenas o início de um processo que precisa ser fortalecido. O Sistema de Planejamento deve ser revisto, e o trabalho apresentado demonstra que temos as condições para fazer isso.

VISÃO DE FUTURO
“Um país democrático e coeso, no qual a iniquidade foi superada,  todas as brasileiras e  todos os brasileiros  têm plena capacidade de exercer  sua  cidadania,  a  paz  social  e  a  segurança  pública  foram  alcançadas,  o desenvolvimento  sustentado  e  sustentável  encontrou o  seu  curso,  a  diversidade, em  particular  a  cultural,  é  valorizada.  Uma  nação  respeitada  e  que  se  insere soberanamente  no  cenário  internacional,  comprometida  com  a  paz  mundial  e  a união entre os povos”.

A Agenda para o Novo Ciclo do Desenvolvimento pode ser baixada aqui:

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4 Responses to CDES e a nova agenda para o planejamento nacional

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  2. Uirá says:

    Leandro, os textos estão excelentes. Mais do que nunca é necessário colocar as cabeças do governo para integrar as iniciativas das pastas. Pelo que me parece o esforço de planejamento existe há muito, mas a agenda das diferentes pastas – dominadas circunstancialmente por agendas de momento – tem se integrado somente em momentos de crise. Um planejamento mais transversal como tem pregado a Marina corrigiria até atrasos eventuais em infra-estrutura, pois permitiria adiantar as exigências ambientais e sociais. Achei interessante a ideia de Marcos Lisboa em palestra da Empíricus, focada principalmente na necessidade de marcos legais claros, ele sugeriu uma agência para regular projetos e iniciativas em infra-estrutura.
    Abraço para todos. É sempre legal ver amigos felizes!
    Uirá

    • freitascouto says:

      Que bom te ver por aqui, Uirá.
      Onde está e o que anda fazendo?
      Não conheço muito bem as propostas da Marina para a área, mas confesso que sua posição conservadora não me encantou. No meio de tanta coisa relacionada à gestão – inclusive o seu exemplo de infra-estrutura – falta uma discussão de longo prazo, de país que se quer construir. Infra-estrutura pra quê? Pra exportar commodities? Beleza, e o que mais? Começa a haver uma preocupação maior com esses temas, mas não são tratados de forma sistêmica ou articulada. Estamos tentando introduzir esse debate, o momento é propício.
      Abs, volte sempre e mande notícias.

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