As mil caras de Jobim

Nelson Jobim está, ou estava, quase no ponto de ser confirmado como Ministro da Defesa no Governo Dilma. Filiado ao PMDB do Rio Grande do Sul, mas sem uma vida orgânica forte no partido, não será o fiador de uma adesão dos pemedebistas gaúchos, independentes (como Simom), ou oposicionistas (como Darcísio Perondi, deputado federal eleito para a quinta legislatura).  O Presidente do PMDB e Vice-Presidente eleito, Michel Temer, expressou sua preocupação em enquadrar os revoltados dentro da sua legenda, e o PMDB gaúcho está na lista.  O Valor de hoje trás ainda a informação de que Mendes Ribeiro, também do PMDB Gaúcho, teria sido indica pelo partido para ocupar o primeiro escalão do Governo Dilma. Há ainda que se lembrar do nome do pemedebista Germano Rigotto, ex-governador do RS, candidato derrotado ao Senado, mas membro do CDES de Lula.

Jobim, no entanto, parece ter vindo com a chancela de Lula. Seria mais um nome que o presidente emplaca no governo de sua sucessora. Aproveita o sucesso das ações das forças de segurança no Rio de Janeiro para consolidar seu nome e ganhar espaço na mídia, embora algumas fontes revelem que foram justamente as resistências de Jobim a empregar as Forças Armadas nessas operações um dos motivos para que elas não tivessem acontecido antes.

Todos sabem, no entanto, da proximidade de Jobim com o tucano José Serra, seu amigo de longa data. Esse fato teria o levado a declarar que poderia ser ministro tanto num eventual governo Serra como num governo Dilma, sem mencionar que, em geral, as concepções para as forças armadas de um ou outro modelo espelhado pelas forças que se aglutinavam ao redor dos candidatos são substancialmente diferentes.

Em seguida, Jobim saiu com declarações enfáticas condenando a presença da Quarta Frota norte-americana no Atlântico Sul, numa assertividade que me impressionou. “A defesa da América do Sul só quem faz é a América do Sul” declarou na abertura da 7° Conferência do Forte de Copacabana, no início de novembro, na qual fez várias críticas abertas aos EUA.

E não é que agora, entre o vazamento dos documentos da diplomacia americana, Jobim é listado com um importante aliado dos EUA, que faria oposição à visão do MRE e de Samuel Pinheiro Guimarães, que o próprio Jobim acusa de ser anti-americanista e querer criar problemas com Washington. Abaixo, segue a reportagem completa, extraída do site www.operamundi.uol.com.br

Obviamente, várias teses poderiam ser levantadas. Também não sei se isso bastará para que Jobim não seja confirmado dentro os próximos ministros, mas as reações na internet ganham força. Será que Dilma tem outro nome na manga? Será que Jobim é um daqueles casos que é melhor manter por perto, sob vigilância? Será que Lula volta atrás nessa mediação? Ou será que Dilma, além de confirmar Jobim, também confirma Samuel Pinheiro Guimarães e mantém esse desconforto entre os colegas de ministério?

Parece que Nelson Jobim estaria mais confortável num ministério serrista.

Wikileaks: documentos revelam que Itamaraty é considerado inimigo da política dos EUA

Mensagens confidenciais reveladas pelo grupo ativista Wikileaks, mostram que o governo norte-americano considera o MRE (Ministério das Relações Exteriores) do Brasil um adversário que adota uma “inclinação antinorte-americana”. Os telegramas foram divulgados no Brasil pelo jornal Folha de S.Paulo nesta terça-feira (30/11).

Os telegramas também mostram que, para os EUA, o ministro da Defesa, Nelson Jobim, é um aliado, em contraposição ao Itamaraty. Jobim, que continuará no cargo durante o governo da presidente eleita, Dilma Rousseff, é elogiado e descrito como “talvez um dos mais confiáveis líderes no Brasil”.

Reprodução

Trecho de um dos memorandos elaborados pelo ex-embaixador dos EUA no Brasil, Clifford Sobel

Em documento enviado no dia 25 de janeiro de 2008, o então embaixador norte-americano em Brasília, Clifford Sobel, relata aos seus superiores como havia sido um almoço com Jobim dias antes. No encontro, o ministro brasileiro teria contribuido para reforçar a imagem negativa do MRE  frente aos norte-americanos.

Indagado sobre acordos bilaterais entre os dois países, Jobim mencionou o então secretário-geral do Ministério das Relações Exteriores, Samuel Pinheiro Guimarães. Segundo o relato de Sobel, “Jobim disse que Guimarães ‘odeia os EUA’ e trabalha para criar problemas na relação [entre os dois países]“.

Já em memorando datado de 13 de março de 2008, Sobel afirma que o Itamaraty trabalhou ativamente para limitar a agenda de uma viagem de Jobim aos EUA. Ao tratar sobre essa visita, realizada entre 18 e 21 de março de 2008, os EUA afirmaram que “embora existam boas perspectivas para melhorar nossa relação na área de defesa com o Brasil, a obstrução do Itamaraty continuará um problema”.

Leia mais:
EUA condenam vazamento de documentos pelo Wikileaks
Wikileaks: embaixador dos EUA diz que golpe em Honduras ‘foi ilegal’
Países árabes e Israel pediram aos EUA que atacassem Irã, diz Wikileaks
Wikileaks: em troca de abrigo a presos de Guantánamo, EUA ofereceram visita de Obama e dinheiro

Combate ao terrorismo

Outros telegramas enviados pela embaixada dos EUA em Brasília para Washington revelam que, embora o governo brasileiro sempre tenha negado a existência de atividades terroristas no país, a polícia federal e a ABIN (Agência Brasileira de Inteligência) seguem recomendações do serviço de inteligência norte-americano para realizar operações de combate ao terrorismo no país desde 2005.

“A Polícia Federal frequentemente prende indivíduos ligados ao terrorismo, mas os acusa de uma variedade de crimes não relacionados a terrorismo para não chamar a atenção da imprensa e dos altos escalões do governo”, segundo mensagem enviada por Sobel em janeiro de 2008.

De acordo com o relatório enviado a Washington, o general Armando Félix diz ser importante que as operações de anti-terrorismo sejam “maquiadas” para não afetar negativamente a “orgulhosa” e “bem-sucedida” comunidade árabe no Brasil, presente principalmente na Tríplice Fronteira entre Paraguai, Brasil e Argentina.

“A sensibilidade ao assunto resulta em parte do medo da estigmatização da grande comunidade islâmica no Brasil ou de que haja prejuízo para a imagem da região como destino turístico. Também é uma postura pública que visa evitar associação à guerra ao terror dos EUA, vista como demasiado agressiva”, afirmou Sobel, que ocupou o cargo de embaixador entre 2006 e 2010.

Leia mais:
Análise: Uma guerra ao Wikileaks?
Justiça sueca retira ordem de prisão contra fundador do Wikileaks
Escândalo do Wikileaks reativa debate sobre a guerra no Iraque
Documentos dos EUA revelam mortes de civis e missões secretas no Afeganistão
Wikileaks: Militares dos EUA mataram 680 civis iraquianos em postos de controle

Pouco antes, o ministro do Gabinete de Segurança Institucional havia agradecido o apoio dos EUA por meio do RMAS (Regional Movement Alert System), sistema que detecta passaportes inválidos, perdidos ou falsificados. A partir de informações do RMAS, a ABIN e a PF estariam monitorando “indivíduos de interesse” no país.

“Além das operações conjuntas, o governo brasileiro também está pedindo que filhos de árabes, muitos deles empresários de sucesso, vigiem árabes que possam ser influenciados por extremistas ou grupos terroristas”, diz o relato. Para Félix, é de total interesse da comunidade “manter potenciais extremistas na linha”, evitando assim chamar a atenção mundial para os árabes brasileiros.

Segundo o telegrama enviado pelo ex-embaixador Sobel em 8 de janeiro de 2008, a preocupação em não admitir atividades suspeitas de terrorismo seria maior ainda dentro do MRE que, assim como o governo brasileiro, considera o partido libanês Hezbollah e o palestino Hamas partidos legítimos, e não terroristas. Por isso, disse ele, o Brasil participa “relutantemente” das reuniões anuais sobre segurança que reúne diplomatas, oficiais de segurança e inteligência da Argentina, Paraguai e Brasil com os EUA para discutir segurança na fronteira.

This entry was posted in manchete, Política, Sem categoria. Bookmark the permalink.

4 Responses to As mil caras de Jobim

  1. Pingback: Tweets that mention As mil caras de Jobim | Minha Circunstância -- Topsy.com

  2. Pingback: As mil caras de Jobim | Minha Circunstância | Veja, Brasil

  3. Pingback: As mil caras de Jobim | Minha Circunstância | Veja, Brasil

  4. Pingback: As mil caras de Jobim | Minha Circunstância | Veja, Brasil

Deixe um Comentário

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

*

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>