O debate programático, o voto moderno e a nova bala de prata.

A ausência de um debate programático, e o conseqüente baixo envolvimento dos intelectuais, da militância de esquerda, de setores organizados da sociedade civil marcou a disputa eleitoral no primeiro turno.

Lula, o PT, Dilma e a esquerda não radical acreditaram que era suficiente apresentar a candidatura governista como representante da continuidade. Para quem não entendeu, esse foi o principal projeto apresentado no primeiro turno.

Serra, por ironia, também se apresentou como o candidato da continuidade. Todavia, o discurso não colou na sua imagem, por ser contraditório com o seu currículo e com o que realmente acredita. Não forçou o debate porque não lhe interessava, para não perder votos.

Marina, e não Plínio, foi a franca atiradora. Alcançou incríveis 20% dos votos válidos, ou quase 20 milhões de votos. Suas propostas, no entanto, eram fluidas. Apostando no pós-Lula, na superação da dicotomia entre PT e PSDB, montou uma boa estratégia de se apresentar como o moderno, mas de conteúdo fortemente conservador. Esse conservadorismo se expressou em temas tratados abertamente no debate político, como política externa e política econômica, (na qual defendeu a trajetória de alta dos juros, por exemplo) como em temas polêmicos nos quais preferiu não ser explícita.

Quanto às primeiras questões, os eleitores modernos, efêmera e pretensamente politizados, não atentaram ao seu conteúdo. Naquilo que preferiu se esconder, em temas como a descriminalização da maconha, união civil de homosexuais, aborto ou a relação entre religão e estado (defesa do ensino religioso criacionista obrigatório nas escolas), nos quais tem posição conservadora, garantiu alguns votos que, tivesse sido mais explícita, não teriam embarcado na sua candidatura.

No segundo turno, como Serra e Dlima têm posições próximas com relação aos temas polêmicos, tendo tempo e estratégia clara de combate aos boatos, o debate deve sair dessa praia fundamentalista e realmente partir para o campo programático. É preciso marcar as diferenças entre o projeto governista e o da oposição. Elas existem e são claras em várias áreas.

O voto verde, moderno, efêmera e pretensamente politizado, tem três caminhos. O primeiro, mais fácil, pois o que exige menor esforço, é o voto nulo. Esse favorece Dilma, que sai de 14,5 milhões de votos em vantagem. O debate programático é que pode decidir se os demais vão para Serra ou Dilma, mas ele ainda será contaminado pela radicalização e boataria que floresceram na reta final do primeiro turno.

Minhas apostas para os votos verdes, em condições normais: 20% branco/nulo. (3,8 milhões de votos), 45% Serra (  9 milhões), 35% Dilma (6,8 milhões).

Insuficiente, portanto, para uma virada de Serra. E eles sabem disso. Isso lhes impõem que continuem na busca de uma nova bala de prata. Pela baixaria que tentaram transformar a eleição, pode-se esperar chumbo grosso, e a continuidade desse denuncismo apócrifo que foi, até aqui, a marca da eleição. Ainda assim, esse esforço precisará tirar uma diferença de cerca de 10 milhões de votos, já contando a migração do voto verde. O radicalismo que isso pode levar não favorece à democracia, não esclarece à sociedade as questões efetivamente  em jogo.

Ao contrário do que querem apresentar, há direita conservadora sim, e ela conhece muito bem o jogo que faz.

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3 Responses to O debate programático, o voto moderno e a nova bala de prata.

  1. Góes says:

    É verdade.

    Mas só falta uma autocrítica. O denuncismo do “ela é abortista” é tão baixo e fútil como o “ele vai privatizar tudo”. Ambas são táticas de terrorismo eleitoral.

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  3. Elaine says:

    Devo discordar de você, Leandro, em pelo menos 3 pontos:
    (1) As diferenças entre Dilma e Serra não são assim tão claras. Aliás, é bom que se diga, que uma das características destas eleições é justamente a superficialidade do debate e a condição de penúria das propostas de governo apresentadas pelos presidenciáveis para o país nos próximos quatro anos. Nesse sentido, tanto a afirmação de Serra de que vai levar ao restante do Brasil aquilo que vinha sendo feito por ele à frente do governo de São Paulo ou a declaração de Dilma de que vai dar continuidade àquilo que o Presidente Lula fez ao longo de seus oito anos de mandato é absolutamente insuficiente para pautar uma discussão séria sobre os rumos que um país como o Brasil deve seguir daqui por diante.

    (2) Não acho que a Marina Silva tenha se furtado ao debates de assuntos polêmicos como aborto, casamento homossexual ou descriminalização do consumo da maconha. Ao contrário. Penso que ela foi muito honesta ao dizer que não cabe a ela, na condição de presidenciável, se posicionar com relação a essas matérias, devendo a questão ser levada à consideração dos candidatos a deputado federal e a senador da república. Afinal, a competência para se pronunciar com relação a esses assuntos é de competência do Congresso Nacional.
    (3) Não é verdade que o caminho mais fácil para o “voto verde” seja anular o voto (ou votar em branco) no segundo turno. Abstercer-se de escolher entre um e outro candidato e deixar que os outros eleitores façam isso por você é uma decisão bastante difícil e só se justifica pela crença do eleitor de que nenhum dos candidatos apresenta uma plataforma de governo com o qual ele se identifique.

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