Não aceito a argumentação de que o Governo Lula trata-se de continuação das políticas do governo FHC como foi sugerido no início da discussão. Acho que esse discurso só interessa à oposição. Num gradiente entre neoliberalismo e keynesianismo/desenvolvimentismo, acho que a distância percorrida pelo governo Lula em direção ao segundo é suficiente para marcar uma inflexão entre os projetos que se apresentam no embate eleitoral. É óbvio que poderia ter avançado mais, mas essa é, na minha opinião, a crítica mais rasa que se pode fazer a um governo. Sempre será possível dizer que dava pra ter feito mais. Mas o que foi feito, em várias áreas, infra-estrutura, com o PAC, saneamento, minha casa minha vida, PRONAF, FUNDEB, Prouni, expansão das universidades federais e recuperação dos salários dos professores, recuperação do salário mínimo, bolsa-família, expansão do crédito, etc, são suficientes para que se faça uma clara distinção entre o que representa o projeto Lula/Dilma do projeto Serra/FHC.
Todavia, isso não esgota o debate. Inclusive, acho importantíssimo para a esquerda brasileira que se construa uma alternativa partidária ao PT. O PT hegemoneizando e limitando a discussão de projetos alternativos asfixia a esquerda. É o caminho mais fácil para o retrocesso, ainda mais com a radicalização da mídia que se avizinha. Até porque, não considero o projeto neoliberal enterrado. Num lampejo, ele pode voltar. Algumas conquistas do governo Lula não foram institucionalizadas e podem ser facilmente desconstruídas. E tem muita gente interessada nisso. Temos que ficar atentos.
E é por isso mesmo que considero que as singularidades pessoais não deveriam estar acima dos projetos. Tudo nessa vida tem custos e benefícios, não só a escolha entre políticas mais liberais ou desenvolvimentistas, mas também a nossa escolha entre os projetos viáveis que se apresentam. Não ajudei a construir esses projetos, sou a favor que haja outros projetos, mas, entre os que estão em debate, eu escolho um, ainda que seja porque apenas o considere menos pior ou, numa visão menos pessimista, que é o meu caso, um bom projeto. Não definir um lado tem, do meu ponto de vista, dois aspectos cruciais: O primeiro é que o outro lado não tem pudores. Não vão ficar reclamando que o Serra não é tão liberal quanto gostariam, e vão votar nulo ou no Levi Fidelix, Eymael… Um voto nulo na esquerda, hoje, com as opções que se construiram, é um voto pra direita. Ainda que Dilma provavelmente ganhe no primeiro turno, e de lavada. O outro aspecto é de justamente não querer arcar com os custos dessa escolha. Por mais brilhantes que sejam suas ideias, um projeto político é algo coletivo. As individualidades não podem se sobrepor ao projeto, mas ajudá-lo ao construir. Eu, no auge de meus 31 anos, ainda acho possível. Até lembrei do Dunga falando da seleção, nenhum jogador é mais importante que a “amarelinha”.
Também discordo com o argumento de que a crise “salvou” o governo Lula ou algo assim. Parte das políticas que foram determinantes para que o país saísse rápido da crise foram gestadas antes, mesmo o PAC, o minha casa minha vida… O governo não se constrói a partir da crise. Obviamente, que a essas, somaram-se outras, mas a tendência era de aumento dos investimentos, ou de mobilização do estado em favor do desenvolvimento. E acredito que essa tendência continuará no governo Dilma.
Digo isso também pra enfatizar outro aspecto. Faço referência ao paradigma de Estado Logístico, criado por Amado Cervo, um dos maiores intérpretes da nossa política externa. Considero adequado para entender a forma de atuação do estado brasileiro em Lula, e não vejo maiores problemas, por essa lógica, nas parcerias, necessárias, diga-se de passagem, tanto do ponto de vista político quanto econômico, com a iniciativa privada. O Estado é indutor, orientador, promotor, e deve tomar seu espaço, com planejamento, nos setores estratégicos ou onde o setor privado não tem interesse. Onde os interesses são coincidentes, ainda mais se for nacional, por que não cooperar? Por que não nos preocuparmos, como defende Márcio Pochmann, com a formação de grandes empresas multinacionais brasileiras? Portanto, essa coisa de apoiar projetos privados com recursos públicos não tem, em princípio, um lado negativo, embora episódios negativos possam ter ocorrido…
Ademais, sendo a construção de um projeto de longo prazo, como deve ser um projeto de país, é necessário firmar alianças. Inclusive com políticos tradicionais que, ainda que premidos pela circunstância, demonstrem apoio ao projeto, porque estarão na base da importante articulação federativa. Todavia, o projeto de país também implica em, no médio prazo, de forma gradativa, propor ou construir alternativas viáveis a esses coronéis nos estados. Volto, nesse ponto, a importância de construirmos isso, essa alternativa de esquerda, no Brasil. A exemplo, o Maranhão, onde parte do PT apoia Roseana Sarney, e outra parte apoia Flavio Dino, do PCdoB.
Mas, talvez mais importante, e outra matéria em que o governo precisa avançar, é na institucionalização de canais de articulação direta com a sociedade. Embora o governo defenda, com propriedade, a realização de inúmeras conferências nacionais que mobilizaram milhões de pessoas durante os oito anos, não é suficiente.
Ainda, é preciso reconhecer que Lula é um fenômeno político ímpar no Brasil. Foi capaz de forjar um governo que tem apenas, SOMENTE, ínfimos 4% de rejeição. Essa aliança que beneficia os ricos e pobres, na lógica exposta de bolsa-família mais juros altos, ajuda a explicar, mas não explica tudo. Tanto que Dilma está na frente nas pesquisas em todos as faixas de renda, com exceção da última faixa mais abastada (corrijam-me se estiver enganado).
Pra finalizar, ainda que considere que o projeto atual, representado nessas eleições pela Dilma, é um bom projeto, esses desenvolvimentistas poderão aprimorá-lo, forjar novas alianças e construir um novo país. Critiquemos as falhas e construamos a diferença. A crítica sem a construção diminui nosso espaço de ação.
Não aceito a argumentação de que o Governo Lula trata-se de continuação das políticas do governo FHC como foi sugerido no início da discussão. Acho que esse discurso só interessa à oposição. Num gradiente entre neoliberalismo e keynesianismo/desenvolvimentismo, acho que a distância percorrida pelo governo Lula em direção ao segundo é suficiente para marcar uma inflexão entre os projetos que se apresentam no embate eleitoral. É óbvio que poderia ter avançado mais, mas essa é, na minha opinião, a crítica mais rasa que se pode fazer a um governo. Sempre será possível dizer que dava pra ter feito mais. Mas o que foi feito, em várias áreas, infra-estrutura, com o PAC, saneamento, minha casa minha vida, PRONAF, FUNDEB, Prouni, expansão das universidades federais e recuperação dos salários dos professores, recuperação do salário mínimo, bolsa-família, expansão do crédito, etc, são suficientes para que se faça uma clara distinção entre o que representa o projeto Lula/Dilma do projeto Serra/FHC.Também discordo com o argumento de que a crise “salvou” o governo Lula ou algo assim. Parte das políticas que foram determinantes para que o país saísse rápido da crise foram gestadas antes, mesmo o PAC, o minha casa minha vida… O governo não se constrói a partir da crise. Obviamente, que a essas, somaram-se outras, mas a tendência era de aumento dos investimentos, ou de mobilização do estado em favor do desenvolvimento. E acredito que essa tendência continuará no governo Dilma.Mas, talvez mais importante, e outra matéria em que o governo precisa avançar, é na institucionalização de canais de articulação direta com a sociedade. Embora o governo defenda, com propriedade, a realização de inúmeras conferências nacionais que mobilizaram milhões de pessoas durante os oito anos, não é suficiente.