A diplomacia do etanol

(reprodução do meu artigo publicado primeiramente em mundorama.net)

No apagar das luzes do Governo Lula, um tema em particular vem confirmando seu espaço de ponta na agenda externa brasileira: os biocombustíveis. Anunciado no plano plurianual 2008/2011, era apontado em artigo no qual colaborou este autor[i], como a maior novidade da estratégia definida naquele instrumento para a inserção internacional do país. Os últimos acontecimentos das relações internacionais do Brasil confirmam que a ação executada está em consonância com as prioridades planejadas.

Na recente visita do presidente Lula a seis países africanos (Cabo Verde, Guiné Equatorial, Quênia, Tanzânia e África do Sul) os biocombustíveis, o etanol mais especificamente, tiveram destaque na agenda. A Embrapa já está presente naquele continente prestando cooperação técnica e realizando pesquisas para o desenvolvimento da agricultura. O paralelo possível entre a savana africana e o cerrado brasileiro amplia as possibilidades de transferência tecnológica para a produção da cana-de-açucar com vistas a produção do combustível verde.

No primeiro estágio da visita, em Cabo Verde, onde participou da primeira Cúpula entre o Brasil e a Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental, que envolve 15 países, o presidente disse que o Brasil deve continuar incentivando o desenvolvimento da agricultura nas savanas africanas, tanto para a produção de alimentos quanto para o plantio de cana-de-açúcar voltado à produção de biocombustíveis[ii].

No Quênia, Lula retomou o tema dos biocombustíveis. A perspectiva de os países ricos adicionarem 10% de etanol na gasolina consumida foi lembrada por Lula para apontar as possibilidades do escoamento da produção que seria fruto dessa nova parceira. E essa possibilidade vem sendo construída em moldes tripartites.

O acordo entre Brasil – União Européia e Moçambique relativo à parceria para o desenvolvimento sustentável de bioenergeia vai justamente nessa linha. Embora não tenha se concretizado o projeto para o Quênia, como era desejo brasileiro, por conta de ressalvas européias ao regime político daquele país, o acordo assinado estabelece que esse é “o primeiro passo em direção a ação mais “abrangente na área de energia como parte da cooperação triangular entre Brasil, União Europeia e países em desenvolvimento, aberta à inclusão de outros países africanos interessados[iii](grifo do autor).

Mais ainda, o acordo sublinha a consideração do desenvolvimento dos biocombustíveis como mais uma ação para a redução da pobreza no Moçambique, indicando também a produção de bioenergia como forma de conceder acesso à formas modernas de energia para parcela significativa da população que ainda se vê subatendida por esse serviço.

A realização da cúpula Brasil-União Europeia, realizada nessa semana, em Brasília, serviu também para revelar outros interesses europeus com relação ao nosso etanol. Autoridades do Ministério de transportes, Construção e Desenvolvimento Urbano da Alemanha estiveram no Brasil para avaliar o uso do etanol brasileiro para reduzir as emissões e dependência do combustíveis fósseis, enquanto preparam uma sólida transição para a utilização da eletromobilidade. Uma das alternativas é usar o etanol no transporte público alemão.

O Brasil também já dispõe de um acordo com os Estados Unidos sobre o tema, assinado ainda durante o governo de Bush Jr. Prevê ações de cooperação triangulares, nos moldes do acordo agora assinado com a União Européia e Moçambique, mas também estabelece cooperação para o desenvolvimento e difusão dos bicombustíveis em esfera bilateral e global, no qual se discute o processo de discussão da regulamentação do etanol no mercado internacional.

A produção e utilização do etanol na matriz energética brasileira, e as possibilidades de expansão da sua produção mundial, principalmente com países da África e América Central, estão presentes na argumentação da atenção brasileiras às questões climáticas. Parte dos recursos prometidos pelo Brasil na COP-15, realizada no final do ano passado em Copenhagen, na Dinamarca, contabilizava esses esforços para ampliação da produção e utilização de biocombustíveis.

A diplomacia do etanol, portanto, vem se consolidando nos últimos movimentos da gestão da política externa do presidente Lula. A substituição paulatina, mas inexorável, dos combustíveis fósseis e a atenção crescente às questões climáticas tendem a fortalecer ainda mais essa agenda no futuro, o que ajudará a fortalecer a presença do Brasil no cenário mundial. É também mais um elemento que robustece às ações no palco prioritário da atuação internacional, a América do Sul, onde desenvolve parcerias e se apresenta como referência para os programas nacionais de seus vizinhos.[iv] Com esse cenário, a despeito dos resultados eleitorais de outubro desse ano, a continuidade dessa linha de ação da política externa brasileira está garantida para os próximos anos.


[i] COUTO, LESSA & Farias, Leandro Freitas, Antonio Carlos e Rogério de Souza. Política externa planejada: os planos plurianuais e a ação internacional do Brasil (1995-2008) (2009). In. Revista Brasileira de Política Internacional. Vol. 52, n. 1, 2009.

[ii] Lula quer Petrobras em Cabo Verde – Jornal Valor Econômico, 05.07.2010

[iii] Declaração Conjunta Brasil – União Europeia – Moçambique relativa à Parceria para o Desenvolvimento Sustentável de Bioenergia. 14.07.2010.

[iv] MASIERO & LOPES, Gilmar e Heloisa (2008). Etanol e biodiesel como recursos energéticos alternativos: perspectivas da América Latina e da Ásia In Revista Brasileira de Política Internacional. Vol 51, n. 2, pp 60-79, 2008.

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3 Responses to A diplomacia do etanol

  1. Primeiro, bela foto!! Parabéns!!

    Sobre o tema em si. Há uma questão que sempre passa ao largo de toda a discussão sobre a ampliação dos países produtores de etanol: as questões operacionais da transferência da nossa tecnologia para países em desenvolvimento. é necessário haver comitês permanentes para facilitarem o processo burocrátco, que hoje emperra que as parceria evoluam com mais velocidade. Há muitos passos intermediários…

  2. Ola Leandro,

    Interessante o seu artigo. Acredito que o etanol faz parte da estratégia de inserçao internacional do Brasil, mas para ir mais longe, este programa depende da formaçao de um mercado mundial de etanol.
    Portanto, se o Brasil quiser continuar a ser o lider neste processo, essas parcerias com os paises africanos e americanos sao indispensaveis.

    • freitascouto says:

      Sim, Bruna, concordo com você.
      E acredito que essas parcerias serão continuadas. Trata-se de uma forte aposta brasileira para sua inserção internacional. É difícil pensar no abandono desse política no curto prazo.
      Saudações

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