REPORTAGEM BNB, 55 ANOS NOVO CICLO DE INVESTIMENTOS NO NORDESTE O Nordeste surge hoje como nova fronteira econômica no Brasil em função de sua enorme diferenciação interna. Por Ribamar Mesquita O Nordeste assiste à melhoria consistente na distribuição de renda, com redução da quantidade de famílias saindo da linha de pobreza. A taxa de consumo de energia quase dobrou nos últimos 12 meses em relação à do Brasil como um todo. Crescem os investimentos e a capacidade instalada da região. Aumenta a folha de salários, melhoram os níveis de emprego e o consumo popular registra taxas chinesas. A economia como um todo apresenta crescente integração à economia nacional, embora seja ainda raquítica sua participação no PIB do país (passou de 13%, em 2001, para 14,6%, em 2004). Além disso, a divisão regional do trabalho passa por mudanças, seja em função do aspecto demográfico, com crescimento vegetativo da população, seja pelo quadro de mobilidade interna das pessoas e do capital. O Nordeste, que sempre foi um foco tradicional de emigração, conseguiu inverter o fluxo. Pode até parecer um pouco de exagero de sua parte, admite o presidente do BNB, economista Roberto Smith, ao comentar a questão regional, durante a abertura do Fórum BNB de Desenvolvimento, em Fortaleza. Mas a retomada desenvolvimentista é uma realidade e a região entra numa fase de crescimento “sem a política de pires na mão” e com crescente integração à economia nacional, diz. Conforme explica, isso tem como base de partida o controle da inflação, os juros declinantes e uma visão plurissetorial que engloba a indústria, o agronegócio, as exportações, o comércio, a agricultura familiar, a prestação de serviços, os pequenos negócios e a economia informal – tudo isso com o suporte do avanço tecnológico e de ganhos de produtividade. Smith também ressalta a ação de parceiros como governos estaduais, Sebrae, Embrapa, universidades regionais e setor produtivo nesse novo ciclo em que o Nordeste ingressa, “fixando compromissos, buscando competência e exibindo resultados”. O BNB se integra a essa dinâmica estruturando novas fontes de recursos e programas que complementam a política econômica adotada pelo governo federal. A região tem se beneficiado não apenas dos programas sociais do governo como o Bolsa Família, o Pronaf, o Fundeb e o Crediamigo. Nos últimos quatro anos, o Banco do Nordeste aplicou cerca de R$ 20 bilhões no setor produtivo regional e prevê outros R$ 30 bilhões, até 2010, com destaque para um programa em negociação com o BID, no valor de R$ 1 bilhão, destinado a financiar o setor de infra-estrutura. O PAC, por sua vez, soma investimentos de cerca de R$ 81 bilhões, até 2010. De fato o Nordeste caminha para um “longo amanhecer de uma luta permanente pela construção do desenvolvimento, inclusão social e transformação da realidade”, opina o diretor de Gestão do Desenvolvimento do BNB, economista Pedro Lapa. Segundo ele, o esforço feito pelo banco nesse sentido pode ser dimensionado pela quantidade de operações realizadas, que evoluiu de 617 mil, em 2002, para 1,6 milhão no ano passado, e pelo volume de contratações no mesmo período que saiu de R$ 1,4 bilhão para R$ 7,2 bilhões. Para este ano, a perspectiva é atingir contratações no montante de R$ 8,5 bilhões. R$ 3,4 bi no semestre – De janeiro a junho deste ano, o BNB contratou R$ 3,4 bilhões em empréstimos e financiamentos e encerrou o semestre com demandas de R$ 2,7 bilhões somente no seu principal programa, o Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste (FNE), das quais R$ 800 milhões já em fase de contratação e R$ 600 milhões em análise. Além do FNE, o BNB iniciou este ano a operacionalização de novas fontes de recursos, a exemplo do Fundo da Marinha Mercante (FMM), cuja primeira operação foi feita recentemente na Bahia – R$ 55,3 milhões destinados à construção e modernização de em8 -RUMOS – Julho/Agosto 2007 Fotos: Divulgação BNB O Fórum BNB de Desenvolvimento e o XII Encontro Regional de Economia reuniram mais de 250 pessoas, entre participantes e funcionários do banco, que analisaram temas como infra-estrutura, financiamento público, energia, renda e pobreza, migração, emprego e renda, meio ambiente e desenvolvimento local, trabalho e educação, dentre outros. barcações. E também reforçou a prioridade a micro e pequenos negócios, cujas operações expandiram-se 71%. Na análise dos técnicos do BNB, os números do semestre passado são uma resposta aos esforços de cada vez mais facilitar o acesso aos financiamentos na região. Ao focar nas MPEs, base da economia do Nordeste e onde efetivamente se gera mais emprego na região, “estamos atendendo a uma quantidade maior de clientes, o que resulta em maior democratização do crédito”, explica o diretor da Área de Negócios, Assis Arruda. Esse desempenho do banco não significa a derrocada de todos os obstáculos na área de crédito. Há gargalos a contornar, mas, como o próprio Smith afirma, muita coisa já melhorou eoutras caminham muito bem. “À medida que o banco cresce e começa a operar em áreas de maior risco, isso implica aperfeiçoamento de sua governança corporativa, da sua tecnologia e da objetivação de resultados”, afirma o dirigente do BNB. Crédito e conhecimento como ferramenta de mudanças – O Fórum BNB de Desenvolvimento e o XII Encontro Regional de Economia marcaram a passagem, no dia 19 de julho, dos 55 anos de criação do Banco do Nordeste. São eventos já incorporados ao calendário de economistas, empresários, pesquisadores e lideranças que apostam não apenas no crédito, mas, também, na força do conhecimento como ferramenta para alcançar mudanças. Principal parceira do BNB no evento, a Associação Nacional dos Centros de Pós-graduação em Economia (Anpec), através de seu diretor Paulo Hamilton, ressaltou o apoio da atual gestão aos cursos de pós-graduação do Nordeste, com a concessão de bolsas de estudo. “Isso terá um grande impacto na pesquisa nordestina e nacional”, frisou. Parceiro importante em projetos de impacto na economia nordestina, a exemplo do Prodetur, o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) considera que o Brasil e a região inauguram novo ciclo de investimentos, graças à apresentação de fundamentos econômicos positivos. Na opinião do diretor do BID no Brasil, José Luiz Lupo, essa nova fase da economia brasileira traz desafios e oportunidades para os quais não existe consenso na sociedade brasileira. É o caso, exemplificou, do PAC e de programas setoriais da área social, como o plano de desenvolvimento da educação e o plano nacional de segurança pública e cidadania. Para o dirigente do BID, a consolidação do desenvolvimento brasileiro depende da superação dos gargalos existentes em • O PAC prevê R$ 80 bilhões de investimentos em infra-estrutura e logística no Nordeste • O BNB inicia negociações com o BID para programa em investimentos em infra-estrutura de US$ 1 bilhão • O BNB aplicou R$ 20 bilhões no Nordeste entre 2003 e 2006. O Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste (FNE) disporá de recursos crescentes estimados em 7% ao ano sobre uma base de R$ 5,5 bilhões em 2007 • O Nordeste deve receber 74% dos investimentos no setor hoteleiro esperados para os próximos cinco anos no Brasil. No total, serão quase 5 bilhões de reais Fonte: Anuário de Turismo Exame • Expectativa firme da economia brasileira atingir investment Grade até início de 2009 Prospectivas e Perspectivas áreas como energia, saneamento, educação, transportes, capacitação, apoio ao empreendedorismo, microcrédito e ambiente de negócios, dentre outros. Lupo considera que formas inovadoras de relacionamento entre setores público e privado vão facilitar a viabilidade de novas iniciativas, caso das PPPs e de novos esquemas de financiamento do setor público. Contudo, chama a atenção de elementos como inovação e conhecimento para o processo de desenvolvimento sustentável. Também destacou o papel estratégico do BNB para o Nordeste e os obstáculos regionais para superar as desigualdades, em especial nas áreas de infra-estrutura e educação. Lupo, entretanto, acredita na renovação da sociedade nordestina nos próximos anos e anunciou apoios mais efetivos do BID aos desafios sociais e econômicos do Nordeste e do Brasil. Retorno da Sudene – Em nome dos representantes dos governos do Maranhão, Bahia, Piauí, Sergipe e Rio Grande do Norte, o governador cearense Cid Gomes parabenizou a família benebeana pelo aniversário. “Não teríamos conseguido atingir o atual estágio de desenvolvimento sem o apoio do Banco do Nordeste”, disse. Ele pediu mais mobilização para o rápido retorno da Sudene em condições efetivas de promover investimentos na infra-estrutura necessária para que o Nordeste cres Julho/Agosto 2007 – RUMOS - 9 BNB, 55 ANOS REPORTAGEM ça e reduza as diferenças frente às demais regiões. “Não compreendo um Nordeste sem um instrumento que opere o crédito, como faz o BNB com brilhantismo, e outro que planeje e pense o desenvolvimento da região”, defendeu Cid Gomes. Homenagens – Na celebração de seus 55 anos, o Banco do Nordeste concedeu a Comenda Mérito BNB a dois ex-colaboradores que contribuíram para o desenvolvimento social e econômico da região: o funcionário aposentado Raimundo Bezerra Falcão e o deputado federal Mauro Benevides. Falcão é advogado e ex-superintendente Jurídico do BNB, tendo contribuído na implantação legal do Fundo de Investimentos do Nordeste (Finor). Mauro Benevides atuou como presidente do BNB entre 1985 e 1986 e foi um dos principais articuladores da cria ção do FNE, como presidente do Senado Federal e vicepresidente da Assembléia Nacional Constituinte. Também foram homenageados os funcionários Maria de Jesus Tomaz, 15 anos de BNB, Maria Clara Gurgel (20 anos), Máximo Antônio Sales (25 anos), Itérbio de Souza Gomes e Celso Antônio Filho (30 anos), que receberam, das mãos dos diretores, os Escudos de Ouro, representando todo o corpo funcional da instituição. Roberto Smith entrega a Comenda Mérito BNB a Mauro Benevides. 10 -RUMOS – Julho/Agosto 2007 Saudades do mestre Celso Furtado foi muito lembrado pelos anfitriões e participantes do encontro, em Fortaleza, onde esteve pela última vez, em julho de 2003, no ato da recriação da Sudene. Na ocasião, dizia o mestre, dirigindo-se ao presidente Lula da Silva: “Os desafios são de natureza política e não propriamente econômica. Ao contrário do que querem sugerir vozes críticas, parece- me claro que estamos no caminho certo. Ainda que obstáculos sejam múltiplos e crescentes, o que importa é privilegiar, como vem sendo feito, os objetivos sociais e liberar o Estado da obsessão economicista que o marcou nos anos recentes. Nosso país se singulariza por dispor de considerável potencial de solos aráveis não utilizados, fontes de energia hidrelétrica sem par e abundante massa de mão-de-obra, muitas vezes deixada à margem por carência de profissionalização. Contudo, algo mais nos singulariza: a dimensão incalculável dos problemas de cunho social”. Renan Cepeda Financiamento do setor público – Como equacionar o fluxo de recursos para a continuidade e aceleração do crescimento do Nordeste? Através da reforma tributária e das participações público-privadas? Fortalecendo o papel das agências de fomento e dos fundos setoriais? Viabilizando projects finances e a recriação da Sudene? Enfim, como viabilizar novas formas de financiamento ao setor público de forma a assegurar a expansão já registrada? Não há unanimidade quanto às saídas, que variam conforme os interlocutores. As respostas estão sendo buscadas dentro e fora da região em eventos como o realizado em Fortaleza, dia 20 de julho, dentro das comemorações dos 55 anos de criação do BNB. De saída, entretanto, uma constatação comum entre os participantes do Fórum BNB de Desenvolvimento: a presença do Estado ainda é muito importante no processo de crescimento regional, seja no financiamento, seja no planejamento estratégico e adoção de políticas adequadas que influenciem a redução das desigualdades, integrando a região à dinâmica nacional. O deputado e economista Pedro Eugênio Cabral (PT-PE), vice-presidente da Comissão de Finanças da Câmara Federal, tem em conta que o Nordeste deve aproveitar o novo momentoda economia do país: “É uma janela de oportunidades para a região reduzir a distância que a separa das áreas mais desenvolvidas”. Com cerca de 14% de participação no PIB (2004) e uma população em torno de 30%, o Nordeste deve lutar para que os investimentos se aproximem de seu peso demográfico e não do econômico. “Temos de crescer muito mais do que o Brasil, do contrário, manter-se-á o ‘gap’ hoje observado”, sustenta. Outro deputado federal, Zezéu Ribeiro (PT-BA), coordenador da bancada nordestina no Congresso Nacional, prefereconcentrar suas atenções no âmbito da reforma tributária. É uma proposta muito ruim para a região, pois apresenta como novidade “aquilo que já é nosso”, como é caso da fusão dos fundos constitucionais com outras fontes. A propósito, o representante baiano lembrou que Brasília já lança mão desse tipo de expediente quando, por exemplo, utiliza recursos do FNE para operações do Pronaf no Nordeste quando em outras regiões usa verba do Tesouro Nacional. Sua frente de luta imediata, conforme resumiu, inclui as seguintes questões: ajustar o projeto da reforma tributária aos interesses regionais; rever os vetos impostos à lei de recriação da Sudene; acabar ou minimizar a sangria de recursos da região para o resto do país, em especial através do sistema financeiro; fortalecer as agências regionais de fomento; evitar a estrangulação dos empréstimos do BNB ao setor produtivo via aumento de seu capital. Agências de fomento – No caso dos bancos estaduais e das agências de fomento em funcionamento no Nordeste, sua ação esbarra em várias dificuldades. Um dos limites aponta para o trinômio risco/garantia/rigidez institucional. Tanto o presidente do banco estadual de Sergipe, João Andrade Vieira da Silva, como seu colega do BDMG, ex-ministro Paulo Paiva, estão de acordo. Entendem que o obstáculo maior de se financiar o setor público se concentra na constituição de garantias e nos critérios de minimização do risco das operações de longo prazo. Como é elevado o risco, o financiamento torna-se difícil para o setor privado, o que leva o Estado a ser chamado. “Os recebíveis gerados pelo fluxo do projeto não são suficientes para gerar confi Deputado Pedro Eugênio, à direita, e o economista Sydrião Alencar, superintendente do BNB: aproximação dos políticos e da academia nos debates do Fórum de Desenvolvimento. ança e fazer o investidor aportar recursos”, explica Paulo Paiva. Já o presidente da Agência de Fomento do Estado da Bahia (Desenbahia), Luiz Alberto Petitinga, chama a atenção, em particular, para o problema do financiamento da infra-estrutura. São operações problemáticas em função dos riscos que oferecem, do longuíssimo prazo que exigem e da absorção de grandes somas. “Isso dificulta a entrada do sistema financeiro privado e dos fundos de previdência”, pondera. Petitinga lembra também outras saídas, ainda incipientes no país, é o caso das PPPs, dos projects finances, das sociedades de propósitos especiais e dos fundos rastreados em recebíveis de empresas prestadoras de serviços públicos. Os três são unânimes em defender as agências estaduais de fomento. Elas ainda têm espaço garantido no Estado nacional, afirma Paulo Paiva. Suas dificuldades atuais estão associadas à rigidez da legislação que as impede de realizar uma série de operações, daí por que o dirigente da Desenbahia sugere o reexame da resolução 2.828 do Banco Central para conferir maior flexibilidade operacional às entidades. Rumo à mudança da matriz energética – Às voltas com um novo ciclo de investimentos, o Nordeste começa a se preocupar também com a mudança de sua matriz energética hoje centrada na hidreletricidade. O desafio é garantir o suprimento de energia depois de praticamente exaurida a capacidade de produção da CHESF. Mantida a taxa média de crescimento do PIB regional em 4,2%, esse sistema teria dificuldades em atender à demanda. Para os especialistas, a solução passa pela exploração do gás natural e de fontes alternativas como a eólica e a biomassa. O assunto foi motivo de um dos painéis do Fórum BNB de Desenvolvimento e do XII Encontro da Anpec, em Fortaleza. Aparentemente, a perspectiva de um apagão nos moldes do registrado no governo FHC está fora das cogitações da maioria dos nordestinos. O economista pernambucano Pedro Rafael Lapa, atual diretor de Gestão de Desenvolvimento do BNB, mostra-se tranqüilo. Diz que, pelo conjunto das providências no âmbito do governo federal e da maioria dos estados nordestinos, em especial os de economia mais representativa, caso da Bahia, Pernambuco e Ceará, o Nordeste está a caminho de mudar sua matriz energética. Segundo ele, nos últimos três anos, aumentou de forma significativa o volume dos investimentos na área por parte do banco. Foram cerca de R$ 1,4 bilhão em projetos de exploração e distribuição de gás, energia hidrelétrica, parques eólicos e produção de bioenergia a partir da mamona, em conjunto com os governos estaduais e Petrobras, e da ampliação da cultura da cana-de-açúcar para fabricar etanol. Energia eólica – Dois especialistas manifestam grande otimismo em relação ao potencial da força dos ventos nordestinos para geração de energia: o professor João Nildo de Souza Vianna, da Universidade de Brasília, e o engenheiro Francisco Diniz Bezerra, mestre em Engenharia de Produção e pesquisador do BNB/Etene. O potencial nordestino de geração de energia eólica situa-se em torno de 100 GW numa área de 50 mil qui 2 lômetros (2 MW/ km ), gerada a um preço entre US$ 1.000 e 2.000/KW. A Alemanha toda gera hoje 20 GW e tem capacidade total de 25 GW. Para Diniz, considerado apenas o potencial em áreas onde o vento sopra à velocidade média acima de 7 m/s, a geração estimada, 75.000 MW, seria mais do que suficiente para atender às necessidades regionais nos próximos anos. A viabilidade econômica desse novo tipo de energia, concordam ambos os especialistas, esbarra ainda na questão do alto custo em relação a outras fontes. Outro problema é que ela não pode ser armazenada, embora combinada com a energia hidráulica possa servir como reserva técnica para utilização a qualquer momento. Ao relacionar a vazão do São Francisco com a velocidade dos ventos no Ceará, o professor Nildo descobriu que, em agosto, quando o rio atinge a mais baixa vazão, a ventania aumenta e propiciaria a combinação da energia eólica com a hidráulica. A energia solar é outra fonte cujo uso é limitado pelo custo elevado. O mapa de energia solar do Nordeste é extremamente favorável tanto para geração através de placas fotovoltaicas como para aquecimento doméstico. Para o engenheiro Diniz, ao nível da tecnologia atual os projetos de energia solar são inviáveis, ao contrário dos de aquecimento. O coletor solar pode muito bem substituir o chuveiro elétrico com economia substancial de energia, sugere o professor Nildo, acrescentando que “a energia solar combinada com a energia eólica pode ser uma solução para a exaustão da capacidade de fornecimento da Chesf”. Nova civilização – O Nordeste apresenta também condições favoráveis para a implantação de termelétricas movidas com biomassa, em especial do bagaço de cana, e o aproveitamento de outras culturas para a produção de biodiesel (palma, pinhãomanso, mamona, algodão, dendê, babaçu). A opinião do professor Nildo Vianna é que opção pela biomassa abre perspectivas para novo tipo de civilização e representa uma abordagem inovadora diante das preocupações mundiais pelo aquecimento global. Mas, ressalva: “Para ser eficaz precisa ser apoiada nos processos de inclusão social, de libertação do país da geopolítica do petróleo e de redução de gás de efeito estufa, tudo isso tendo em vista o consorciamento da produção de energia com a de alimentos”. Luiz Alberto Petitinga, da Desenbahia: mais flexibilidade às agências de fomento. Julho/Agosto 2007 – RUMOS - 11 BNB, 55 ANOS REPORTAGEM Francisco Diniz e Nildo Vianna também chamaram a atenção para as dimensões da sustentabilidade do biodiesel, com destaque para os aspectos sociais, por meio da geração de emprego e renda; para a independência energética, pela substituição de importações; para o ganho econômico, com a incorporação de áreas de pouco valor agrícola; e para o aspecto ambiental, pela redução de emissões de CO . A pro 2 dução atual do Nordeste de biodiesel é de 285.000 3 m /ano, mas deve atingir 1 milhão de m3 com as fábricas em construção e projetadas. Mercado para essa produção não chega a preo cupar. Segundo João Augusto de Araújo Paiva, outro expositor do painel sobre energia no Fórum BNB de Desenvolvimento, o Brasil importa, hoje, 2,07 milhões de metros cúbicos de óleo diesel, o que representa considerável mercado potencial para a produção de biocombustíveis. Outra opção importante para suprir as necessidades de energia elétrica do Nordeste é a construção de usinas termelétricas movidas a gás natural. As reservas de gás da região começam a decrescer com o aumento do consumo provocado pelo uso industrial e automotivo, e estão longe de garantir o suprimento das usinas já instaladas e as previstas no PAC. No cálculo dos 12 -RUMOS – Julho/Agosto 2007 A programação cultural dos 55 anos de criação do BNB incluiu o lançamento de uma série de publicações sobre temas relacionados com o Nordeste e seu desenvolvimento. A Questão Regional na Constituição Brasileira, por exemplo, analisa os dispositivos constitucionais voltados para corrigir as desigualdades no país e mostra que projetos como a integração de bacias hidrográficas em regiões de baixa renda tem apoio no texto da Carta Magna. Outros lançamentos, que podem ser solicitados pelo fax (85) 3299.3530 ou pelo fone 0800783030: Competitividade e Potencial de Expansão dos Setores Exportadores dos Estados Nordestinos; Democracia Econômica: um passeio pelas teorias; Feiras do Jequitinhonha: mercados, cultura e trabalho de famílias rurais no semi-árido de Minas Gerais; A Aventura da Sobrevivência: migrações cearenses na década de 1990; A Gestão Ambiental e o Pólo Turístico Cabo Branco: uma abordagem sobre desenvolvimento e meio ambiente; O Sertanejo e o Caminho das Águas: políticas públicas, modernidade e sustentabilidade no semi-árido; As Relações Geopolíticas da Agricultura Brasileira no Contexto Mundial; Fruticultura Nordestina: desempenho recente e possibilidades de políticas; Floricultura: caracterização e mercado; Floricultura: perfil da atividade no Nordeste brasileiro; Setor Sucroalcooleiro Nordestino: desempenho recente e possibilidades de políticas; e Plantas Medicinais e Aromáticas Cultivadas no Ceará: tecnologia de produção e óleos essenciais. Estudos regionais especialistas, estas reservas se exaurem até 2014, obrigando a região a importar gás do Sudeste e de outros países. Para tanto, estão previstas no PAC a conclusão do gasoduto Sudeste/ Nordeste (gasene) e a implantação de um terminal de regaseificação no porto do Pecém, Ceará. PAC e prêmios na agenda final – Os organizadores do Fórum BNB de Desenvolvimento e do XII Encontro Regional de Economia reservaram para o último dia dos debates um painel específico para tratar do Plano de Aceleração do Crescimento do Governo (PAC). Para o representante do Ministério da Fazenda, economista Nelson Barbosa, da Secretaria de Acompanhamento Econômico, o PAC vai bem, obrigado. O governo trabalha para aumentar a capacidade de produção da economia, fomentando tanto o capital físico, via investimentos públicos e privados, quanto o capital humano, disse. Só em infra-estrutura, o PAC prevê investimentos de R$ 504 bilhões, entre 2007 e 2010. Desse total, os setores de logística, energia e infra-estrutura social receberão R$ 58,3 bilhões, R$ 274,8 bilhões e 170,8 bilhões, respectivamente. O professor Flávio Ataliba Barreto, da Universidade Federal do Ceará, concorda com a relevância do PAC para a retomada do crescimento. “Não é solução para tudo e sim uma agenda bastante direcionada”, diz. Nem por isso, deixa de elencar dificuldades para sua execução. Por exemplo: questões macroeconômicas (previdenciária, tributária) não focadas efetivamente; dívida pública e juros elevados e um déficit nominal em volta de 3,4% do PIB que inibem investimentos. Ou dificuldades na concepção do plano ligadas à participação do setor privado, ao uso do FGTS como fonte de financiamento para infraestrutura, ao ajuste do salário mínimo e dos servidores, “uma indexação desnecessária para a economia brasileira”. O PAC pode agravar as disparidades de renda registradas entre as regiões do país. A disposição de recursos do PAC não privilegia o Nordeste. Pelo contrário. Os investimentos considerados nacionais representam 36%, exclusivamente para a região Sudeste, 26%, e exclusivamente para o Nordeste, 16%. Para o economista Ataliba Barreto, se era para o PAC minimizar os desequilíbrios regionais, teria de levar em conta o nível de renda per capita do Norte/Nordeste vis-à-vis a Sudeste/Sul/Centro- Oeste. No período 1995/2005, estas últimas regiões tinham renda equivalente a quase o dobro de Norte e Nordeste. Integração e conhecimento –Na sessão de encerramento do Fórum BNB de Desenvolvimento e do XII Encontro Regional de Economia, o Banco do Nordeste homenageou pesquisadores e estudantes vencedores dos prêmios BNB de Economia Regional e de Talentos Universitários. Também divulgou as 18 teses de mestrado e doutorado que receberam bolsas do Fundo de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Fundeci). O resultado pode ser acessado no portal www.bnb.gov.br. Segundo o superintendente do Etene, Sydrião Alencar, esses prêmios, outorgados anualmente, são uma forma de promover a integração do banco com a comunidade acadêmica, trazendo resultados reais para a sociedade nordestina e para a difusão do conhecimento, ferramenta vital para o desenvolvimento. Concorreram artigos, dissertações e monografias de pesquisadores, mestrandos e graduandos que discorreram sobre temas inéditos e relevantes para a economia da região. •