Discurso feito por Roberto Mangabeira Unger, Ministro-chefe da Secretaria de Planejamento de Longo Prazo da Presidência da República (SPLP-PR). Senhores e senhoras, ministros, parlamentares e demais autoridades. Meus senhores e minhas senhoras, o erro mais comum em política, observou André Gide, é confundir o urgente com o importante. Cuidem outros do urgente. No Ipea e na Secretaria de Planejamento de Longo Prazo cuidaremos do importante. Aqui, proponho-me a dizer algo sobre o trabalho da Secretaria e do Ipea, antes de referir-me ao doutor Luiz Henrique Proença Soares e ao doutor Marcio Pochmann. A Secretaria de Planejamento de Longo Prazo existe há muito tempo – chamava-se Ipea. O Ipea foi criado para ser o sustentáculo do pensamento de longo prazo no País. Concebo a tarefa para a qual fui convocado como tendo três elementos. O primeiro elemento é ajudar coletivamente a demarcar o rumo, uma trajetória, uma estratégia para o País. O pensamento programático é seqüência; não é planilha. É música; não é arquitetura. Quando alguém propõe algo distante do que existe, dizem “é interessante, mas é utópico”. Quando propõem algo próximo ao que existe, dizem “é viável, mas é trivial”. Num ambiente intelectual em que vivemos no mundo contemporâneo, tudo que se possa propor parece utópico ou trivial. Falso dilema, que nasce de um mal entendido a respeito do pensamento programático, que é a imaginação de transformações cumulativas. Transformações que podem ser descritas em pontos próximos do que existe ou distantes do que existe. O que importa é rumo. E qual o rumo que o País exige hoje? O Leitmotiv da política brasileira nessas décadas tem sido a humanização do inevitável, pelos pequenos ganhos de eficiência e pelas políticas sociais compensatórias. O que o País quer hoje é um novo modelo de desenvolvimento, apoiado sobre a democratização decisiva e irreversível de oportunidades econômicas e educativas. Democratização 1 que, por sua vez, passa por inovações institucionais na organização da economia e do Estado. Não é a humanização do inevitável, mas a reconstrução do existente o que quer o País hoje. O segundo componente da minha tarefa é ajudar a traduzir este contraste, esta opção, esta alternativa que a nação busca num elenco prático de políticas públicas em todos os setores. E neste trabalho enfrentamos todos nós dois perigos opostos: há o perigo de descambar para uma futurologia inconseqüente, e há o perigo de parecer uma intromissão indevida nas políticas setoriais de todos os Ministérios. O antídoto para esses dois perigos é fixar-se no rumo e desdobrar pouco a pouco suas implicações para as políticas do presente. O terceiro elemento da tarefa é ajudar a provocar dentro do governo e da sociedade brasileiros um processo de discussão que tenha pelo menos o potencia l de ter uma vida mais longa do que a vida do governo, e, portanto, de lastrear um projeto não apenas de governo, mas também de Estado. O Ipea sempre foi um tesouro da nação. Agora, há condições para levar o Ipea ao centro do debate nacional. Ao enfrentar essa tarefa de encontrar o rumo que a nação quer, temos que ver as coisas como são. O Estado brasileiro, apesar de aparentemente grande, é frágil, porque a obra do século 19 em matéria de administração pública, a organização de um aparato burocrático profissional não se completou entre nós. Por isso teve o Ipea tarefa de fornecer ao Estado brasileiro alguns dos quadros que lhe faltavam. E o processo decisório para introduzir idéias novas e avaliar o acerto ou equívoco das idéias que comandam a agenda também é precário entre nós. Por isso, foi o Ipea sempre um celeiro de idéias. Agora o Ipea precisa ir ao encontro do País, preparar-se para mobilizar a inteligência brasileira 2 em todas as regiões do Brasil e ajudar a fornecer ao Estado brasileiro os quadros necessários para essa obra transformadora. Para realizar esse trabalho, o Ipea precisa enfrentar dois problemas subjacentes: o primeiro problema é o do pluralismo. Precisa ser aprofundado. Não se trata de ameaçá-lo, mas de fortalecê-lo, de torná-lo mais real pela multiplicação das competências e dos pontos de vista. Pelo aguçamento da dialética entre nós, jamais permitindo que o discurso do pluralismo sirva como instrumento para suprimir o pluralismo. E o segundo problema subjacente é o problema da vocação desta instituição. O Ipea é, e precisa continuar a ser, muito mais do que uma assessoria do governo que está no poder. Será mais útil ao governo se for mais do que o seu instrumento técnico. Mas ao mesmo tempo, nas condições de nossa vida nacional, não é nem viável nem conveniente imaginar o Ipea como uma tecnocracia com uma agenda interna que se sobreponha às forças políticas e às correntes da vida nacional. Entre esses dois limites inaceitáveis, temos, portanto, de encontrar uma maneira de definir uma vocação republicana. Não de servir a um consenso, mas de organizar o dissenso de que precisa o País. O doutor Luiz Henrique Proença Soares desenvolveu nesta instituição um trabalho que é a base para essa próxima etapa. Ele valorizou os dois temas cruciais: da inovação, e da redistribuição da renda e da riqueza. Ele estabeleceu o projeto do Estado de uma Nação, que nos permite ver a vida brasileira no seu conjunto, e ele abriu o caminho das parcerias com organizações estrangeiras, sobretudo de outros países grandes em desenvolvimento, que nós agora temos de aprofundar. Mas a sua maior realização e a base principal de nossa gratidão para com ele está no plano de sua superioridade moral. É raro ver combinadas numa personalidade as qualidades de dedicação a um sentimento de tarefa, de um lado, e de comedimento, respeito, delicadeza no trato com os indivíduos, de outro lado. É a esta combinação que o 3 doutor Luiz Henrique deve sua soberania moral, que é a verdadeira base da fecundidade de seu trabalho. Ao convidar para ser seu sucessor o doutor Marcio Pochmann, convidei uma das mais altas expressões da inteligência brasileira. Ele domina o aparato analítico da economia sem desconhecer-lhe os limites. Ele está livre do fatalismo que tem dominado a vida intelectual brasileira. Ele confia no poder transformador da aliança entre a esperança e a imaginação. E compreende a necessidade de submeter essa aliança à disciplina do rigor intelectual. Ele é um realista visionário. É fácil ser realista quando se aceita tudo. É fácil ser visionário quando se enfrenta nada. Aceitar pouco e enfrentar muito são o caminho e a solução. E nessa disposição está a maior promessa do alcance do trabalho que Marcio Pochmann desenvolverá aqui. Meus senhores e minhas senhoras, nosso País está predestinado a engrandecer-se sem imperar. Para isso, não basta nos rebelarmos contra a falta de justiça; é preciso que nos rebelemos contra a falta de imaginação. Que o Brasil desbrave o caminho de um novo conflito ideológico, centrado no contraste entre formas alternativas da economia de mercado, da democracia política e da sociedade civil livre. Que o Brasil se inquiete, que se rebele, que quebre as correntes que o amarram, e que mostre à Humanidade como a pujança e a ternura podem andar juntas. E que, por atos sucessivos de desassombro e de despojamento, cada um de nós consiga ver o coração tocado por um pouco do ardor inesperado e esperançoso de que a nação precisa para ser grande. 4