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Blog do Desemprego Zero

Le Monde Diplomatique Brasil: A dinâmica da grande queda

Postado em 22 dEurope/London setembro dEurope/London 2008

A dinâmica da grande queda

O declínio da capacidade produtiva dos EUA, em contradição com o aumento impressionante do consumo e do crédito, está na origem da crise. Mas ela foi ampliada pela recusa das autoridades a rever dois dogmas do neoliberalismo: o “livre” comércio e a “livre” circulação de capitais.

Por Gérard Duménil e Dominique Lévy

Chama a atenção o caráter adocicado da nota publicada no último dia 14 de junho, ao término da reunião dos ministros da economia do G8: “A inovação financeira tem contribuído consideravelmente para o crescimento e para o desenvolvimento mundiais; mas, diante dos riscos à estabilidade financeira, é imperativo o aumento da transparência e da consciência dos riscos”. As palavras-chave são: “desenvolvimento” e “inovação financeira”, de um lado; e “transparência”, de outro. Outros termos estão ausentes, como “regulamentação”, por exemplo. E não se faz menção aos fatores subjacentes à crise: os desequilíbrios crescentes da economia norte-americana.

No cerne dos mecanismos que culminaram na crise atual, encontra-se, além da ausência de regulamentação dos processos financeiros, algo que se pode denominar de “a trajetória neoliberal” da economia dos Estados Unidos, um itinerário iniciado nos primeiros anos da década de 1980, após três décadas de keynesianismo. Cinco grandes tendências estavam presentes. Em primeiro lugar, a redução do investimento produtivo. Com isto, nos referimos ao crescimento de todos os elementos “físicos” necessários à produção: edifícios, máquinas etc. Esse recuo veio acompanhado de uma fortíssima expansão relativa do consumo. Jamais se observou algo parecido no passado. A super-expansão do consumo esteve na origem do aumento do déficit do comércio exterior. Enfim, ecoando tais tendências, é preciso mencionar o duplo aumento da dívida interna (essencialmente a das famílias e a das finanças) e do financiamento da dívida externa pelo resto do mundo [1].

Uma trajetória bem estranha, impulsionada pelo consumo em detrimento do investimento produtivo, e alimentando-se das importações – demanda sustentada graças ao crédito concedido pelas instituições financeiras norte-americanas, cientes de que nada seria possível sem o financiamento pelo resto do mundo. Isso deveria causar inquietação, mas, ao contrário, a propaganda neoliberal tratou de divulgar a imagem lisonjeira de os Estados Unidos serem a “locomotiva” do crescimento mundial.

O aumento dos desequilíbrios e a crise financeira nasceram nos próprios Estados Unidos, e não seriam possíveis sem o domínio exercido por esse país sobre o resto do mundo. Mas o neoliberalismo também tem uma parcela de responsabilidade, pois os lucros das empresas, dos quais uma grande parte era anteriormente retida para investimento, foram transferidos aos credores, na forma de juros, e aos acionistas, na forma de dividendos. Logo, as empresas passaram a reservar cada vez menos para investir. Além disso, as fronteiras comerciais se escancararam – principalmente para os países da periferia, nos quais o custo de mão-de-obra era baixo (China, México, Vietnã etc.). Uma fração crescente da demanda dirigiu-se para as importações, a tal ponto que, nos Estados Unidos, se pode falar em “desterritorialização” da produção.

A produção diminuiu, e os EUA passaram a depender cada vez mais da generosidade dos estrangeiros. Estranha combinação entre enriquecimento de uma minoria, aumento do consumo dos mais favorecidos e o agravamento dos desequilíbrios da economia nacional. Leia o resto do artigo »

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“Ninguém sabe de onde virá a próxima crise”, afirma Jagdish Bhagwati

Postado em 22 dEurope/London setembro dEurope/London 2008

Para Jagdish Bhagwati, ações anticrise devem considerar efeitos negativos

Folha de S.Paulo (22/09/2008)

Para o professor de economia da Universidade de Columbia (EUA) Jagdish Bhagwati, ninguém pode prever de onde virá a próxima crise. Ele ressalta, porém, que as medidas geralmente usadas para enfrentar as turbulências, tanto no caso atual como nas crises anteriores, costumam ser tomadas sem “estudo” e “reflexão” sobre suas conseqüências. Segundo ele, em “nenhum dos casos se conseguiu administrar o lado negativo [dessas ações].” Bhagwati diz que a inovação na política financeira não deve ultrapassar o “entendimento dos possíveis “downsides’”. Leia a seguir trechos da entrevista concedida à Folha.

FOLHA – Qual é a sua opinião sobre a crise vivida nos Estados Unidos?

JAGDISH BHAGWATI – A crise é realmente grande porque leva ao pânico uma imensa parcela de pessoas que possuem qualquer tipo de aplicação nos bancos ou em fundos, ou aquelas que pagam hipotecas de suas casas, o que inclui uma parcela significativa da população dos Estados Unidos. Leva também ao pânico os bancos, tanto comerciais quanto de investimentos, que correm o risco de falir. Meu contador, um homem esperto, me disse que eu deveria retirar meu dinheiro dos fundos e abrir diversas contas, cada uma com depósitos de US$ 100 [o limite de valor coberto pelo Seguro de Deposito Federal]. Independente da pessoa com quem você conversar, o sentimento generalizado é de que a crise atual lembra a grande crise de 1929. Entretanto, não há paralelo real. A situação atual é complexa, mas está sendo contida. No inicio, a crise de 1929 resultou em terríveis conseqüências, em desemprego maciço e depressão econômica. Até o momento, as demissões têm acontecido apenas nos bancos. A taxa de desemprego não foi afetada de maneira significativa. Segundo, a situação de 1929 testemunhou uma politica monetária restritiva o que acentuou a depressão. Terceiro, as políticas comerciais enlouqueceram em 1930 com a instituição da tarifa “Smoot-Hawley” [que elevou as tarifas sobre produtos importados] por parte dos Estados Unidos, o que provocou retaliações de outros países. Quarto, os responsáveis pela elaboração das politicas econômicas, liderados pelo presidente do Fed (Federal Reserve, o banco central dos EUA), Ben Bernanke, e o Secretario do Tesouro, Henry Paulson, são totalmente pragmáticos e determinados a fazer o que for necessário para encerrar a crise imediatamente.

FOLHA – O que podemos aprender com a crise atual para ajudar na prevenção de crises futuras?

BHAGWATI – Ninguém sabe de onde virá a próxima crise. Nos últimos tempos, tivemos quatro grandes turbulências: a chamada “segunda-feira negra”, em outubro de 1997, quando os mercados despencaram e todos acharam que o próprio capitalismo tinha desmoronado junto. Mas não foi daquela vez. Depois veio a crise do fundo LTCM [Long Term Capital Management], hedge fund que super alavancou seus investimentos e gerou um grande temor de que a crise atingisse todo o sistema, por conta do altíssimo envolvimento de bancos e fundos de pensão. Tivemos também a crise do leste asiático, que começou em julho de 1997 e durou ate 1998. Finalmente chegamos à crise atual. Qual e o tema recorrente? Em cada situação, nos entregamos sem pensar à euforia que surge com cada inovação da política financeira. Em resumo, em quase todos os casos, o problema foi que novos instrumentos e politicas financeiras foram implementados sem suficiente estudo e reflexão sobre seus efeitos e conseqüências. Em nenhum dos casos, se conseguiu administrar o lado negativo. O que eu considero ser a maior lição disso tudo é que a inovação não ultrapasse o entendimento dos possíveis “downsides”.

FOLHA – As medidas atuais são adequadas para resolver a crise?

BHAGWATI – Acho que Bernanke e Paulson estão agindo corretamente. Intervieram com firmeza, tomando todas as medidas possíveis. Se eu fosse um cartunista, desenharia uma charge colocando a crise do subprime como o bebê de Rosemary, dentro de uma banheira. Bernanke e Paulson, estariam ao lado da banheira segurando mangueiras com os dizeres: política monetária, política fiscal, nacionalização de Freddie Mac and Fanny Mae, e por último, RTC. Evidentemente, Bernanke e Paulson tem uma tarefa gigantesca e ninguém sabe a real dimensão da crise, nem agora nem depois que as medidas adotadas começarem a surtir efeito, revertendo a falta de confiança que abala seriamente o sistema.

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O sistema financeiro paralelo se desfaz

Postado em 22 dEurope/London setembro dEurope/London 2008

NOURIEL ROUBINI

Folha de S.Paulo (22/09/2008)

A semana que passou determinou o fim do sistema bancário paralelo criado nos últimos 20 anos. Por causa de uma regulação maior dos bancos, a maior parte da intermediação financeira nas últimas duas décadas cresceu dentro de um sistema paralelo cujos membros são corretoras-operadores do mercado, “hedge funds”, grupos de “private equity” (fundos privados de participação em empresas), títulos complexos e obscuros, fundos mútuos e empresas de créditos hipotecários não-bancárias.

A maioria dos integrantes desse sistema faz operações de crédito de curto prazo, é muito mais alavancada que os bancos e investe em instrumentos financeiros de pouca liquidez.

Como os bancos, carregam o risco de sofrerem uma corrida contra suas obrigações. Mas, ao contrário dos bancos, protegidos desse risco por seguros e apoio emergencial de bancos centrais, a maioria dos integrantes do sistema paralelo não tinha acesso a essas proteções.

Uma corrida geral a esses bancos paralelos começou quando a desalavancagem pós-estouro da bolha dos ativos gerou incertezas sobre quais instituições estavam solventes. O primeiro estágio foi o colapso de todo o sistema de SIVs (fundos de instrumentos financeiros complexos e obscuros), quando os investidores perceberam a sua toxicidade.

O próximo passo foi a corrida aos grandes corretores-operadores do mercado americano: primeiro o Bear Stearns perdeu sua liquidez em dias. O Federal Reserve (BC dos EUA) então estendeu seu apoio como fonte de crédito emergencial para corretores-operadores sistemicamente importantes. Mas mesmo isso não impediu uma corrida aos outros corretores-operadores dada a preocupação com a solvência: foi a vez de o Lehman Brothers quebrar. O Merrill Lynch enfrentaria o mesmo destino se não tivesse sido vendido. A pressão se deslocou para o Morgan Stanley e o Goldman Sachs.

O terceiro estágio foi o colapso de outras instituições alavancadas sem liquidez e provavelmente insolventes graças à sua irresponsável concessão de crédito: Fannie Mae e Freddie Mac, AIG e mais de 300 instituições de crédito hipotecário. Leia o resto do artigo »

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¿Tienen los bancos centrales una estrategia de salida?

Postado em 10 dEurope/London setembro dEurope/London 2008

by Kenneth Rogoff

Texto em inglês

Un año después de que comenzara la crisis financiera mundial, varios bancos centrales fundamentales siguen extraordinariamente expuestos con los precarios sectores financieros privados de sus países. Hasta ahora, la estrategia de mantener los sistemas bancarios intubados con el crédito a corto plazo garantizado con cargo a  los contribuyentes ha sido lógico, pero tarde o temprano los bancos centrales deben desconectarlos. De lo contrario, acabarán, a su vez, en el servicio de cuidados intensivos, cuando las pérdidas por créditos fallidos inunden sus balances.

La idea de que las grandes economías del mundo afrontan simplemente un pánico a corto plazo parece cada vez menos sostenible. En cambio, está resultando patente que, después de un período de beneficios y crecimiento apoteósicos, el sector financiero debe pasar ahora por un período de consolidación y recortes. Hay que permitir que los bancos débiles quiebren o se fusionen con otros (y se pague a los depositantes corrientes con fondos estatales de seguros) para que surjan bancos fuertes con un nuevo vigor.

Si ése es el diagnóstico correcto de la “crisis financiera”, los intentos de bloquear una dinámica normal y sana sólo servirán en última instancia para prolongar y exacerbar el problema. No permitir la necesaria consolidación equivale a debilitar los mercados de crédito, no a fortalecerlos.

La Reserva Federal de los Estados Unidos, el Banco Central Europeo y el Banco de Inglaterra están particularmente expuestos. Colectivamente, han concedido centenares de  miles de millones de dólares en préstamos a corto plazo tanto a bancos tradicionales como a “bancos de inversión” complejos y no regulados. Muchos otros bancos centrales están observando, nerviosos, la situación, muy conscientes de que pronto podrían encontrarse en la misma posición, a medida que la economía mundial sigue debilitándose y las tasas de morosidad correspondientes a toda clase de deudas siguen aumentando.

Si los bancos centrales afrontan un golpe en gran escala a sus balances, no necesariamente será el fin del mundo. Ya ha ocurrido en ocasiones anteriores -por ejemplo, durante las crisis financieras del decenio de 1990-, pero la historia indica que la reparación del balance de un banco central nunca es agradable. Al haber de afrontar pérdidas de créditos, un banco central puede conseguir su escapatoria mediante la inflación o esperar a la recapitalización por los contribuyentes. Las dos soluciones son extraordinariamente traumáticas.

Una inflación desbocada causa toda clase de distorsiones e ineficiencias. (Y no se debe pensar que los bancos centrales hayan descartado el impuesto de la inflación. De hecho, la inflación se disparó durante el año pasado, con lo que facilitó oportunamente una necesaria corrección del precio real de las casas.) Por otra parte, los rescates con cargo a los contribuyentes raras veces son suaves y comprometen inevitablemente la independencia de los bancos centrales.

También se plantea una cuestión de equidad. El sector financiero ha producido beneficios extraordinarios, en particular en los países anglófonos, y, si bien el cálculo de las dimensiones del sector financiero resulta extraordinariamente difícil por su opacidad y complejidad, las estadísticas oficiales de los EE.UU. indican que las empresas financieras representaron una tercera parte, aproximadamente, de los beneficios empresariales americanos en 2006. Las gratificaciones multimillonarias en Wall Street y en la City de Londres han llegado a ser cosa corriente y las empresas financieras han predominado en las listas de donantes a todos los más importantes candidatos políticos a las elecciones presidenciales de los Estados Unidos que se celebrarán en 2008. Así, pues, ¿por qué han de ser los contribuyentes corrientes quienes paguen la cuenta del rescate del sector financiero? ¿Y por qué no el de las industrias automovilística y metalúrgica o cualquiera de las demás industrias que han sufrido recesiones en los últimos años? Este argumento resulta tanto más poderoso, si los bancos centrales recurren al “impuesto de la inflación”, que recae desproporcionadamente sobre los pobres, quienes tienen menos medios para protegerse de los aumentos de precios que socavan el valor de sus ahorros.

El economista británico Willem Buiter ha acusado sin rodeos a los bancos centrales y a los funcionarios de la Hacienda Pública de parcialidad del regulador a favor del sector financiero, en particular en los Estados Unidos. Se trata de una acusación grave, sobre todo en vista de las enormes incertidumbres que han afrontado los bancos centrales y los funcionarios de la Hacienda Pública, pero, si los funcionarios no hacen el ajuste a medida que avance la crisis, la acusación de Buiter puede parecer menos exagerada.

Así, pues, ¿cómo pueden los bancos centrales salir de ese profundo agujero? La clave es extremar la distinción entre empresas financieras cuyas dificultades se deben de verdad al pánico (y, por tanto, son temporales) y las que tienen problemas más estructurales.

Después de un período de expansión en gran escala durante el cual las dimensiones del sector de los servicios casi se duplicaron, cierta reducción es natural y normal. El problema de las hipotecas de alto riesgo desencadenó una reducción en las actividades principales de algunas entidades financieras, en particular sus negocios derivados y extraordinariamente beneficiosos. Cierta reducción del sector es inevitable. Los bancos centrales deben comenzar a fomentar la consolidación, en lugar de conceder crédito indiscriminadamente.

En principio, el sector financiero puede reducirse mediante la contracción proporcional de cada una de las entidades en un 15 por ciento, pongamos por caso, pero ésa no es la tónica típica de sector alguno. Si hay fondos soberanos que quieren entrar y mantener a flote empresas muy necesitadas de capital con la esperanza de una gran recuperación, se les debe permitir hacerlo, pero deben comprender que los grandes accionistas extranjeros pueden ser mucho menos eficaces que los locales con vistas a persuadir a los bancos centrales para que concedan líneas de crédito en gran escala y sin compromiso.

Ya es hora de hacer balance de la crisis y reconocer que el sector financiero está experimentando transformaciones fundamentales y no es simplemente la víctima del pánico especulativo contra los préstamos hipotecarios. Desde luego, una reglamentación mejor es parte de la respuesta a largo plazo, pero no es una panacea. Los actuales titulares de acciones de empresas y de bonos deben cargar con el costo principal o, si no, habrá pocas esperanzas de que actúen de forma más responsable en el futuro.

Kenneth Rogoff es profesor de Economía y Política Pública de la Universidad de Harvard y antes fue economista jefe del FMI.

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Flexibiliade no mercado de câmbio

Postado em 25 dEurope/London agosto dEurope/London 2008

*Heldo Siqueira

Quando falamos em rigidez de preços, estamos falando em duas perspectivas diversas: 1) a rapidez com o qual o sistema de preços responde a choques de oferta ou demanda; e 2) o grau de distorção que o escalonamento de preços relativos permite como resposta a escassez relativa dos bens. Em um sistema econômico estacionário, não precisamos nos preocupar com distorções no escalonamento dos preços, afinal, os preços sempre tendem à sua escassez relativa. Assim, a questão é apenas descobrir a velocidade com a qual os preços tenderão aos “preços naturais”. Entretanto, em mercados não estacionários a rapidez dos ajustes pode amplificar a distorção dos preços relativos.

Na verdade, os movimentos repentinos nos preços provocam uma mobilização acentuada de recursos. Dessa forma, é impossível prever, com base nas informações anteriores a um choque, a perfeita alocação dos recursos. Mais que isso, o choque, dependendo de quanto mobiliza recursos, modifica o ponto de equilíbrio de longo prazo. Esse é o conceito de “path dependence” segundo o qual, o ponto de equilíbrio do sistema depende do caminho que foi trilhado.

Esse parece ser o caso do mercado de dólares. Vários dos novos países industrializados utilizam a política monetária para manter suas moedas desvalorizadas. Assim, tornam suas exportações mais competitivas e, dessa forma, sustentam seu desenvolvimento. Chegamos a um momento no mercado internacional, dada a crise dos sub-prime, no qual a manutenção do endividamento das famílias americanas era insustentável. Houve, então, um movimento de desvalorização do dólar que tornou a dívida americana relativamente menor. Ou seja, os americanos ficaram relativamente mais pobres, mas menos endividados, podendo-se endividar novamente. Como contrapartida, provocou esse movimento provocou o aumento da maior parte dos preços das “commoditties” cotados no mercado internacional. Dessa forma, a maioria dos países passou a importar inflação dos americanos, sem que nada pudessem fazer para deter esse movimento.

Por outro lado, há nesse momento, uma nova tendência para a valorização do dólar e, conseqüentemente, para deflação nos preços cotados no mercado internacional. Ou seja, o movimento que aumentou os índices de inflação das principais economias do mundo deve regredir e devemos ter o dólar voltando à estabilidade. Por essa perspectiva, a diminuição nos principais índices mensais de inflação – e principalmente os IGP´s, que são mais sensíveis ao câmbio – está completamente descolada da política de juros do Banco Central.

Na verdade, é provável que o aperto monetário tenha sido maior que o necessário e tenhamos que pagar a conta em menos postos de trabalho criados. Tudo por precipitação dos nossos gestores de política monetária.

* Heldo Siqueira: gremista, economista graduado na Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Trabalho na Assessoria de Planejamento do IDAF-ES (Instituto de Defesa Agropecuária e Florestal do Espírito Santo). Meus Artigos

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E se o resto do mundo for incompetente?

Postado em 12 dEurope/London agosto dEurope/London 2008

Heldo Siqueira*

Parece plenamente justificável a atitude do BC brasileiro do aperto monetário para conter a inflação. Segundo essa perspectiva, se as expectativas inflacionárias estão acima da meta do BC, trata-se de um desvio da demanda, provocado por uma oferta monetária “frouxa”. Assim, os agentes formam expectativas quanto aos preços, dado que o volume real ofertado é “escasso” e previsível. Nesse caso, a inflação desajustaria os preços relativos, diminuindo a eficiência do mercado em alocar os recursos escassos.

O problema dessa perspectiva está em esquecer que no resto do mundo também há política monetária. Além disso, o resto do mundo pode estar com a política monetária frouxa. Entretanto, um aperto monetário da autoridade brasileira não influencia a demanda no resto do mundo. Assim, a expectativa de inflação brasileira poderia estar influenciada por essa política frouxa e o BC não pode fazer nada em relação a isso. A única alternativa que o BC tem para combater expectativas inflacionárias “importadas” é apreciar o câmbio. Além disso, a apreciação do câmbio deve ser de tal magnitude que compense a inflação importada e ainda provoque uma apreciação real.

Entretanto, diminuindo a absorção interna, o BC está na verdade, diminuindo a perspectiva de demanda real. Em resposta a essa nova demanda real, haveria um ajuste da oferta real, modificando completamente a estrutura produtiva. Assim, quando o câmbio voltar, através do aumento das importações e diminuição das exportações, ao nível de equilíbrio, deveria haver outro ajuste nos preços relativos. Ou seja, o efeito da inflação menor será igualmente diminuir a eficiência do mercado em alocar os recursos escassos. Dessa forma, uma inflação menor que a inflação internacional, conseguida através da apreciação do câmbio, trás os mesmos efeitos de uma deflação.

De fato, a meta de inflação brasileira não parece levar em conta a inflação internacional, caso contrário, deveria ser revista para os anos de 2009 e 2010, quando foram mantidas em 4,5%, mesmo com a inflação internacional em ascensão. Dessa forma, tanto o Conselho Monetário Nacional, por ignorar a complexidade da economia internacional na definição das metas para inflação, quanto o Banco Central, por mesmo percebendo (se é que percebe) o erro do CMN persegue cegamente uma meta de inflação inconsistente com a realidade internacional, estariam sendo incompetentes.

* Heldo Siqueira: Gremista, economista graduado na Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Trabalho na Assessoria de Planejamento do IDAF-ES (Instituto de Defesa Agropecuária e Florestal do Espírito Santo). (Meus artigos)

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A geopolítica e o pensamento econômico

Postado em 6 dEurope/London agosto dEurope/London 2008

Por Heldo Siqueira*

A nova engenharia do mundo industrializado incita algumas discussões que haviam ficado ultrapassadas. A antes imparável e inevitável globalização parece agora ultrapassada e os países ganham novo fôlego para tomar atitudes protecionistas. Nesse ambiente, o papel das políticas estatais no desenvolvimento econômico volta a ser tema de debate e a liberdade dos mercados é posta em cheque.

Os anos 70 marcaram a economia mundial pelas crises no preço do petróleo. Os aumentos repentinos e drásticos no preço da commodity desviaram volumes dramáticos de divisas em direção aos países exportadores de petróleo (os petrodólares). Em geral, a exportação de petróleo ocorre dos países que consomem pouco combustível (em geral os mais pobres) em direção aos países ricos, que consomem mais combustível. Ou seja, o combustível ia dos países pobres em direção aos ricos, enquanto as divisas iam dos países ricos em direção aos pobres. O que permitia aos países pobres exportar petróleo era sua pouca industrialização. Afinal, caso houvesse políticas que oportunizassem inversões de recursos nos próprios países, é provável que a riqueza permanecesse nesses países e esses passassem a consumir mais petróleo. Por outro lado, era preciso criar mecanismos que permitissem a rápida mobilização das divisas de volta às matrizes localizadas nos países desenvolvidos.

Concomitantemente a esses problemas, há o ressurgimento da discussão acerca do liberalismo nos fóruns de debate econômico. Para os neoliberais (como foram chamados) as políticas de desenvolvimento estatais atrapalhavam o crescimento econômico pois geravam ineficiência e, em última instância, inflação ao invés de prosperidade. A solução era “desaparelhar” os Estados nacionais e permitir ao mercado alocar os recursos. Por outro lado, a liberalização financeira garantiria a mobilidade de divisas necessária para financiar as dívidas públicas.

A nova teoria econômica encaixava-se perfeitamente à necessidade dos países desenvolvidos, e talvez por isso tenha sido tão bem aceita nos principais círculos de debate econômico. Na prática, o neoliberalismo foi muito eficiente em uniformizar o ideal de bem-estar social no mundo. Afinal, com a abertura comercial todos os consumidores podiam adquirir mercadorias de qualquer lugar do mundo e podiam, finalmente, ambicionar ter os bens de consumo que antes eram proibidos de ter. Entretanto, a abertura financeira não conseguiu, em momento algum, uniformizar os meios de financiamento dos bens de consumo. Além disso, a remuneração do trabalhador comum nos países “em desenvolvimento”, diminuiu em relação aos ricos durante toda a fase de neo-liberalismo. Ou seja, enquanto os trabalhadores de países ricos podiam financiar seus luxos em condições extremamente favoráveis (o que, afinal de contas, gerou a crise dos sub-prime), os trabalhadores de países “em desenvolvimento” podiam apenas sonhar com os novos produtos de tecnologia de ponta.

Ignorando a teoria econômica e adaptando-se de maneira formidável à nova economia, o gigante chinês fez exatamente o que fizera o Japão anos antes para reconstruir-se depois da IIª Guerra: usar uma moeda desvalorizada (controlada através da compra de títulos da dívida americana) para dar competitividade à sua indústria, e, de quebra, influenciar a política da economia hegemônica. Alguns outros países na Ásia seguiram o mesmo caminho e, como no Japão, a estratégia deu certo. Assim, o centro dinâmico da economia mundial passou, talvez definitivamente, para a Ásia. É a trajetória da China, ou o famoso descolamento, que os analistas utilizam para fazer suas previsões e não mais a dos países europeus ou da América do Norte. Por outro lado, as reuniões da OMC têm sido exemplares para demonstrar a capacidade de pressão dos países em desenvolvimento.

Os próximos anos vão dar a verdadeira dimensão de quão profundas serão as mudanças nas tomadas de decisões internacionais, pois os EUA continuam a ser a maior potência bélica e o maior pólo de desenvolvimento tecnológico. Entretanto já é inconcebível aos americanos tomar decisões, pelo menos no campo econômico, sem levar em conta os interesses de seus parceiros comerciais. Será interessante também, ver como ficarão as discussões acadêmicas acerca da liberalização econômico-financeira e seus benefícios.

* Heldo Siqueira: Gremista, economista graduado na Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Trabalho na Assessoria de Planejamento do IDAF-ES (Instituto de Defesa Agropecuária e Florestal do Espírito Santo).

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Os limites do câmbio

Postado em 6 dEurope/London agosto dEurope/London 2008

Por Luís Nassif

Fonte: Projeto Brasil

Mensalmente, a Agência Dinheiro Vivo realiza um encontro de economistas de diversas áreas de especialização e tendências – o “Tornos e Planilhas” – tentando encontrar um denominador comum sobre as perspectivas da economia global e brasileira.

Há uma conclusão quase majoritária: a de que se está próximo do fim da trajetória de apreciação do real. Em algum momento haverá a reversão do câmbio.

Segundo Paulo Tenani, do UBS-Pactual, há duas forças puxando o dólar para baixo. Uma delas, a política de juros do Banco Central. A segunda, a constituição de reservas cambiais, que dá uma sobrevida ao processo de apreciação cambial -

Na outra ponta, há um fantasma cada vez mais presente, puxando o dólar para cima: a deterioração das contas externas brasileiras, que desde dezembro assumiu uma dinâmica explosiva.

Aí se esbarram em fatores extra-econômicos. Professor da PUC-SP, Antonio Correa de Lacerda vê a política monetária-cambial atrelada ao calendário eleitoral. A exemplo do primeiro governo FHC, o que se pretende é segurar a inflação, via câmbio até as eleições presidenciais de 2010.

Há um fato adicional, que poderá acelerar o desfecho: a queda nas cotações de commodities agrícolas, que começou a ficar mais nítida na última semana. José Vicente Ferraz, da Agra FNP vê como inevitável as cotações despencarem ante a perspectiva de um desaquecimento da economia global.

Ocorre que – conforme já escrevi várias vezes aqui – os mercados de commodities estão fundamentalmente alavancados por fundos hedge. Quando se sente que o caminho é a alta, os fundos entram pesados tornando mais agudo o movimento – o chamado “overshooting”. O mesmo ocorre no sentido inverso. E isso aparentemente começou.

Na economia global, as mudanças não se restringirão ao comportamento das commodities. Os grandes fundos estão com a mão no gatilho aguardando o início da reversão da desvalorização do dólar frente ao euro e às moedas asiáticas.

Até agora o ajuste do dólar foi feito em cima de países com câmbio flexível – Europa e América Latina, particularmente o Brasil.

No segundo tempo do jogo, prevê Tenani, o ajuste será bancado pelos países que até agora mantiveram suas moedas protegidas, especialmente a China, que será obrigada a permitir a valorização da sua moeda.

Esse movimento está sujeito a fricções variadas. A China tem uma necessidade enorme de manter altas taxas de crescimento. Nos próximos anos enfrentará desafios econômicos e sociais dos mais intensos. No campo industrial, a necessidade de continuar gerando empregos. Na agricultura, o fantasma apavorante da escassez de água. Hoje em dia, lembra Ferraz, a agricultura chinesa tem produtividade das mais altas devido à irrigação. Mas precisará dobrar a capacidade de sua agricultura e em breve se deparará com a escassez de água.

Todo esse quadro sugere que o Brasil deveria se preparar rapidamente para a hipótese de reversão do quadro de euforia que marcou a economia global nos últimos anos.

Mas as mudanças, por aqui, só ocorrem em períodos de crise. É a sina histórica do Brasil.

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