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Blog do Desemprego Zero

Eles quase quebraram o país

Postado em 13 dEurope/London novembro dEurope/London 2009

Henrique Meirelles, Mário Torós e Mário Mesquita, do Banco Central.

Belíssima matéria de Cristiano Romero e Alex Ribeiro, no Valor de hoje, sobre a corrida bancária na crise do ano passado. Some-se a matéria de ontem da Raquel Ballarin sobre o ataque especulativo de que foi alvo o Unibanco, no mesmo período (Clique aqui para ler mais.)

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A iliquidez da política monetária

Postado em 5 dEurope/London novembro dEurope/London 2008

Por José Roberto Afonso e Geraldo Biasoto Junior

Fonte: Valor Econômico, 04/11/08.  

A crise tem sido avassaladora para as finanças e tudo indica que o setor produtivo atravessará tempos difíceis. Os paradigmas que balizavam a economia brasileira escondiam imensas inconsistências. 

Como a economia não é uma ciência exata, é normal que o mercado construa e crie suas verdades, chamadas por Keynes de “convenções”. Elas são compostas por um conjunto de variáveis articuladas, que permite um funcionamento estável do sistema. O mercado vai além, busca eternizar a convenção como verdade imutável: os “fundamentos”. Assim, políticas monetárias, fiscais e cambiais bem calibradas seriam fiadoras da estabilidade da economia. 

A crise é o momento em que este leque de conceitos e procedimentos, que antes garantia certa uniformidade na formação de expectativas, entra em colapso. As autoridades pelo mundo afora já compreenderam muito bem o que é esta crise. Preceitos solidamente estabelecidos foram abandonados com falência do banco Lehman Brothers. Governos tiveram que fornecer liquidez, endurecer a regulação e até mesmo estatizar instituições financeiras. 

No mundo, trilhões de dólares eram transacionados em mercados desregulados e em condições altamente especulativas. No Brasil, bilhões de reais só agora foram descobertos fora dos balanços, e uma parte sem supervisão estatal e custódia, apostados em derivativos cambiais e transações com carteiras de créditos. Enquanto nossas autoridades bravateavam a solidez de nosso sistema financeiro, uma súbita e radical desconfiança arrasou o crédito no país. Superamos os países ricos aonde a desconfiança imperava apenas entre os bancos; aqui, o contágio envolve diretamente o lado real da economia. O dinheiro sumiu a ponto do valor da empresa parece ter sido reduzido ao valor do seu caixa. Férias coletivas para trabalhadores é eufemismo para esconder que são os próprios empresários que estão parando de trabalhar, pois perderam o referencial futuro para decidir produzir.  Leia o resto do artigo »

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Posição difícil do Banco Central do Brasil: a marcha da insensatez?

Postado em 30 dEurope/London outubro dEurope/London 2008

Folha-online

Os efeitos da crise internacional de crédito no Brasil levaram o Copom (Comitê de Política Econômica do Banco Central) a manter a taxa básica de juros inalterada em 13,75% ao ano.

Diante do novo cenário, os economistas já começaram a avaliar que não faria sentido aumentar o dinheiro disponível para crédito por meio da liberação dos compulsórios e, na outra ponta, aumentar os juros para conter o consumo.

Outra mudança de cenário que deixou o BC em uma posição difícil para justificar um novo aumento dos juros é a decisão dos bancos centrais internacionais de intensificar o processo de redução da taxa básica nos países desenvolvidos.

A questão do dólar é outro complicador desse cenário. Uma alta dos juros, em tese, serve também para atrair mais dólares para o Brasil e segurar as cotações. Ao segurar a alta da moeda norte-americana, o BC combate também a inflação e ajuda a evitar um repasse dos preços dos importados para economia.

Os motivos para a decisão do Copom serão conhecidos na quinta-feira da próxima semana, quando será divulgada a ata da reunião. A Selic vinha subindo desde abril. Desde então, foram quatro altas seguidas que elevaram os juros de 11,25% ao ano para o patamar atual.

Na pesquisa semanal feita pelo BC com o mercado financeiro, os economistas previam uma alta dos juros para 14% ao ano hoje e outra alta para 14,25% ao ano em dezembro (o Copom se reúne a cada 45 dias aproximadamente). Os bancos com maior número de acertos na pesquisa, no entanto, prevêem que a Selic vá ficar inalterada pelo menos pelos próximos 12 meses.

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Expectativas inflacionárias

Postado em 19 dEurope/London agosto dEurope/London 2008

 

Antonio Delfim Netto

Valor Econômico – 19/08/2008

Depois de termos mencionado num artigo publicado neste mesmo espaço o discurso de Ben Bernanke, o atual chairman do Federal Reserve dos EUA (o famoso Fed), que abriu a 53ª Conferência Anual do Federal Reserve Bank of Boston, no dia 9 de junho último, recebemos pedidos de atentos leitores solicitando mais informações sobre ele. É o que fazemos agora, traduzindo (livremente) a parte pertinente às suas considerações sobre as expectativas inflacionárias. Depois de breve introdução, Bernanke afirma: “Concentrando-me nos principais tópicos do meu discurso, abordarei, brevemente, quatro problemas que interessam à formulação da política monetária: os preços das commodities e a inflação; o papel do custo do trabalho na precificação; as dificuldades de fazer política econômica em tempo real e os determinantes e efeitos das mudanças das expectativas inflacionárias”. Aqui só nos interessa a última questão: expectativas inflacionárias.

“Finalmente” – prossegue Bernanke após explorar os outros assuntos – “direi algumas palavras sobre as expectativas inflacionárias, que muitos economistas vêm como fundamental para a dinâmica da inflação. Há, entretanto, muito que não entendemos sobre elas, sua determinação e suas implicações. Vou dividir minha análise em três tópicos. 

Primeiro necessitamos entender melhor quais os fatores que determinam as expectativas inflacionárias da sociedade, tal como discuti com mais detalhes em uma conversa no National Bureau of Economic Research, transcorrida no último verão (10/07/2007). Ainda que existam muitas evidências que as expectativas têm se tornado mais bem ancoradas do que há algumas décadas, elas permanecem imperfeitamente ancoradas. Seria de bastante proveito para os próprios formuladores da política monetária que conhecessem mais acerca de como as expectativas inflacionárias são influenciadas por ela mesma, pela sua comunicação e por outros fatores econômicos, tais como os choques nos preços de petróleo. 

A crescente literatura sobre o aprendizado em modelos macroeconômicos parece ser um veículo útil para abordar muitos desses tópicos. No modelo tradicional, com expectativas racionais, estrutura econômica fixa e objetivos políticos estáveis, não há papel para aquele aprendizado por parte da sociedade. Nele existe normalmente uma única taxa de inflação de equilíbrio no longo prazo, que é perfeitamente antecipada: a sociedade não realiza inferências a partir das comunicações ou das ações dos banqueiros centrais. O fato, porém, é que a sociedade tem apenas informações incompletas tanto acerca da economia quanto dos objetivos dos formuladores da política, fatores que podem, aliás, mudar ao longo do tempo. Considerar a possibilidade de aprendizado por parte da sociedade é mais realista e, ademais, tende a gerar conclusões mais razoáveis a respeito de como as expectativas inflacionárias mudam e, em particular, de como elas podem ser influenciadas pela ação e pronunciamentos da política monetária. 

Humildade faz falta para o nosso Banco Central 

A segunda categoria de questões envolve os canais por meio dos quais as expectativas inflacionárias afetam a inflação presente. A via fundamental é a das expectativas para as negociações salariais, ou há outros mecanismos relevantes? Um achado algo perturbador sobre este problema foi revelado por uma pesquisa entre empresários acerca de decisões de como eles formam seus preços, conduzida por Blinder e outros (Asking about Prices, N.Y., 1998). Apenas uma pequena parcela dos entrevistados afirmou que a inflação agregada esperada afetava seus preços. Como podemos conciliar esse resultado com nosso forte pressuposto de que as expectativas são centrais para explicar a inflação? Talvez as expectativas afetem a inflação presente por meio de algum canal que seja relativamente indireto. A crescente literatura sobre fixação desagregada de preços talvez possa lançar alguma luz nessa questão. 

Finalmente, um grande conjunto de questões gira em torno de como o banco central pode monitorar da melhor maneira possível as expectativas inflacionárias do público. Existem muitas medidas de inflação esperada, incluindo expectativas colhidas junto a pesquisas em domicílios, previsões de economistas profissionais e informação extraída de mercados de ativos indexados à inflação. Infelizmente, as informações sobre as expectativas dos próprios formadores de preço são muito limitadas, especialmente a dos empresários. Qual das expectativas desses agentes é a mais importante para a dinâmica inflacionária, e como os banqueiros centrais podem extrair melhor a informação relevante a partir das várias medidas disponíveis?” 

Que falta fez essa humildade esclarecida para moderar a precipitada política monetária “tempestiva” do nosso Banco Central, tão a gosto dos “cientistas” do sistema financeiro nacional. Estes, obviamente, supõem “saber” muito mais do que Bernanke sobre como se “controla” as expectativas inflacionárias… 

Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento.

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Falta um pouco de humildade

Postado em 11 dEurope/London agosto dEurope/London 2008

Delfim Netto

Fonte: DCI

O Banco Central brasileiro é provavelmente o único dentre os bancos centrais do mundo que “sabe” como se formam as expectativas inflacionárias e como essas expectativas afetam a taxa de inflação.

Porque tem essa “sabedoria” que falta ao restante do universo, a nossa autoridade monetária está sugerindo que só um novo e dramático aumento na taxa de juro real (em seguida à absurda elevação de 0,75 da última sessão do Copom) será capaz de reconduzir “tempestivamente” as expectativas do mercado para 4,5%, o centro da meta inflacionária, já no início de 2009.

Seria interessante que, antes de insistir na overdose de juros que está impondo aos brasileiros, o Banco Central demonstrasse que sabe aferir o quanto as expectativas influenciam a formação dos preços no setor produtivo de bens. Um pouco de humildade não faria mal ao nosso pessoal, reconhecendo pelo menos que existem sérias dúvidas nesse processo, como recentemente confessou o presidente do Federal Reserve dos EUA, Ben Bernanke.

Discursando na abertura da 53ª Conferência Econômica Anual do Federal Reserve Bank of Boston, em 9 de junho último, ele disse que nem ele, nem o Fed, nem os demais bancos centrais sabem como se formam as tais “expectativas de inflação”.

A verdade é que estamos todos no meio de um nevoeiro, tentando entender uma inflação planetária que, não importa sua origem, se manifesta num aumento enorme dos preços da energia, dos alimentos, dos produtos minerais.

Bernanke concedeu humildemente que não sabe como conciliar a idéia dos aumentos com este negócio de “expectativas inflacionárias” e deixou no ar uma pergunta: “como a expectativa inflacionária pode afetar a taxa de inflação se grande maioria dos empresários afirma não levá-la em conta no processo de decisão sobre o preço de seu produto?”

Isso foi demonstrado empiricamente numa enorme pesquisa junto aos empresários norte-americanos para tentar entender até que ponto eles se deixavam influenciar pelas tais “expectativas inflacionárias” para a precificação de seus produtos. A esmagadora maioria respondeu que não levava isso em consideração na formação de seus preços e nem sabia bem o que significa.

Uma questão da maior importância, levantada pelo presidente do Fed na ocasião, é que seria muito útil saber como a formação das expectativas é influenciada pela comunicação da política monetária.

Hoje, no Brasil, a alta interna dos preços depende dos preços externos, mais do que de qualquer outro fator, o que mostra o caráter ilusório da argumentação da autoridade monetária sobre a formação das expectativas inflacionárias.

Diante disso, é absolutamente insensata a insistência na política de elevação da taxa de juros para reverter as expectativas da inflação. Vai contribuir, isto sim, para desacelerar o crescimento e cortar empregos de brasileiros. Trata-se da repetição da política monetária oportunística que usa o câmbio para controlar a inflação. É preciso interromper tal processo, pois já pagamos muito caro por esse tipo de aventura.

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O guardião da imprevisibilidade

Postado em 8 dEurope/London agosto dEurope/London 2008

Luís Nassif

Fonte: Projeto Brasil

Não se trata de engenharia de obras feitas, porque escrevi várias vezes no Blog: havia uma tendência óbvia de queda do ritmo da inflação no segundo semestre. Primeiro, pela queda da renda, motivada pela inflação de alimentos. Segundo, pelo fim da própria inflação de alimentos.

Ora, as commodities internacionais estavam no preço mais alto da história. No primeiro semestre houve um “overshooting” expressivo. Qualquer especialista consultado tinha dois cenários para o segundo semestre: o pessimista, no qual considerava que os preços permaneceriam nesse patamar; e o otimista, considerando que haveria uma queda nas cotações. Tinha-se claro o quadro de desaquecimento mundial. Tinha-se a possibilidade, não de todo clara, do dólar voltar a se apreciar – atraindo recursos aplicados em commodities.

No cenário pessimista, não haveria inflação de alimentos (já que inflação é variação); no otimista, haveria deflação.

Porque, então, o mercado inteiro apostando em inflação mais alta, em dificuldade para se atingir a meta, espalhando um terrorismo amplo? Porque, na Pesquisa Focus, o objetivo final do analista não é acertar individualmente a inflação: é chegar o mais perto possível da inflação que ele julga estar na cabeça do Banco Central.

Ele ganha quando adivinha a inflação que o BC imagina. E a Pesquisa Focus trata de uniformizar essas expectativas e colocá-las sob controle das expectativas do BC.

Tudo muito bem se houvesse um BC competente. Mas o que se tem, objetivamente, é um BC interessado em estimular expectativas inflacionárias, como álibi para manter taxas de juros elevados. Assim, todo o mercado foi induzido a acreditar em uma inflação que, agora, está refluindo – demonstrando cabalmente a inutilidade da alta de 0,75 pontos na taxa Selic.

Ontem, o presidente do BC Henrique Meirelles sustentou que o que garante investimento é a previsibilidade; e o BC garante a previsibilidade perseguindo a meta de inflação. Só que, nesse afã, tornou imprevisíveis dois preços fundamentais: juros e câmbio. Dizer que é previsível um cenário em que se sai de um superávit de US$ 7 bi para um déficit de US$ 30 bi nas transações correntes é forçar a barra.

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Extravagâncias monetárias

Postado em 7 dEurope/London agosto dEurope/London 2008

Paulo Nogueira Batista Jr.

Fonte: Folha de S. Paulo (7/8/2008)

“O Brasil abusa dos juros altos e da valorização cambial como instrumentos de combate à inflação”.

A ÚLTIMA ata do Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) declara que a estratégia é trazer a inflação de volta para a meta central de 4,5% “tempestivamente, isto é, já em 2009″.

Talvez o Copom não tenha sido totalmente sincero (espero que não), mas vamos supor que sim. Faz sentido essa estratégia? Depende. Se os preços do petróleo e dos alimentos continuarem cedendo, a meta central pode ser viável em 2009. Caso contrário, o custo pode ser alto.

Alto e desnecessário. Não seria mais razoável adotar um horizonte mais longo e fazer a taxa de inflação convergir gradualmente para o centro da meta? Buscar, por exemplo, algo como 5% a 5,5% em 2009 e 4,5% só em 2010? Para isso é que existe o intervalo de confiança de dois pontos percentuais acima e abaixo da meta central. Quando a economia sofre um choque de preços violento, como o que ocorreu em 2008 com petróleo, alimentos e outras commodities, a existência de um intervalo de confiança proporciona tempo e flexibilidade à política monetária.

Ao mirar o centro da meta com açodamento, o Copom poderá ser levado a praticar juros extravagantes -com conseqüências em termos de baixo crescimento da economia, aumento do desemprego, pressão sobre as finanças públicas e valorização adicional do real em relação a moedas estrangeiras.

Na verdade, os juros brasileiros já são extravagantes. A UpTrend Consultoria Econômica faz um levantamento periódico das taxas de juro praticadas em 39 países e em Hong Kong. De acordo com o último levantamento, o Brasil lidera com folga o ranking de juros reais. A taxa básica brasileira, descontada a inflação projetada para os próximos 12 meses, alcança 7,2%. A média geral é negativa em 0,2%. Nada menos que 19 países praticam taxas reais negativas -inclusive Estados Unidos, Japão, Israel, Coréia do Sul e Chile. Leia o resto do artigo »

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Por que no te callas, Meirelles?

Postado em 7 dEurope/London agosto dEurope/London 2008

Elio Gaspari

Fonte: FSP (06/08/2008)

“O presidente do Banco Central só deveria falar ao Congresso ou durante as reuniões da diretoria da instituição”.

A PANCADA de 0,75% do Banco Central no aumento na taxa de juros ainda não esfriou e seu presidente, doutor Henrique Meirelles, já está no circuito insinuando uma nova punição para a economia nacional. Comprou seu forno de microondas? Sua mulher não precisa mais voltar para o fogão para servir a janta? Visigodo ignóbil, você está aquecendo o consumo. Conseguiu um trabalho com a queda da taxa de desemprego? Ostrogodo inconseqüente, você ofende a racionalidade econômica, abrindo o caminho para um surto inflacionário. Contra esses bárbaros só há um remédio, subir a taxa de juros brasileira que é, há tempos, a maior do mundo.

Quando o doutor Meirelles retoma o circuito da quiromancia financeira para dizer que a queda do IPCA não é bem uma queda do Índice de Preços aos Consumidor, não está praticando um exercício didático. Se há um aumento de casos de febre amarela, e o ministro José Gomes Temporão determina o aumento da produção de vacinas, a decisão é neutra. Quem quer vai ao posto de saúde. Quem não precisa não vai. Ninguém ganha dinheiro com isso. No caso dos juros, Meirelles ameaça com a propagação de uma epidemia que faz a felicidade da turma do papelório que se remunera com a expansão da moléstia.

Admita-se que a alta dos juros seja uma necessidade. Ainda assim, ela é uma decisão de Estado. Compete ao presidente da República, não a um funcionário demissível ad nutum. (Ele e todos os çábios do Copom.) Admita-se ainda que Nosso Guia, emparedado pelo terrorismo financeiro, tenha terceirizado essa atribuição. Ainda assim, o delegado do papelório não se pode investir no papel de ombudsman da administração pública, punindo a economia por conta de certezas e de dúvidas que são suas, mas que não são dos seus colegas de ministério.

O doutor Meirelles (como seus antecessores) investiu-se de um papel supraconstitucional, como se houvesse dois países, um governado pelos eleitos, outro sob regime de ocupação, disciplinado pelos sábios, com ele no papel de xamã. O presidente do Banco Central estimula essa bagunça saindo por aí a propagar platitudes. Por exemplo: “Achamos um pouco prematuro ainda fazer uma previsão da evolução dos preços das commodities nos próximos meses”. Segundo seu horóscopo (ele é de Libra), nesta semana deve evitar mortadela e guaraná.

Assim como se deve desejar que os ministros do Supremo Tribunal só falem durante as sessões da corte, coisa que está em desuso desde que surgiram os juristas-celebridade, seria melhor para todo mundo se o presidente do Banco Central só falasse ao Congresso ou durante as sessões do Copom.

Em abril passado, ao conferir a posição dos parafusos de sua cadeira, Meirelles viu que alguns deles estavam frouxos. Coisa da vida para quem ocupa um cargo da confiança do presidente da República. Sua postura recente é a de quem acredita ter pista própria, sem combinar com a federação de atletismo. Ou, talvez, a de quem quer aproveitar o fim da pista para sair do estádio debaixo dos aplausos da turma do cercadinho VIP. Nos dois casos, prejudica o bom andamento dos negócios do Estado.

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