Publicado em: Monitor Mercantil
Por: Rogério Lessa
Entrevista – Amir Khair / Especialista em finanças públicas
De acordo com o especialista em finanças públicas Amir Khair, ex-secretário de Fazenda do Município de São Paulo, o Banco Central (BC) pratica há mais de uma década uma política antidesenvolvimentista. Khair frisa que, além da redução das despesas com juros, o caminho para o desenvolvimento sustentado e inclusivo passa por uma alteração radical no sistema tributário, que é altamente regressivo no Brasil.
“Segundo o Global Stability Report, do FMI, a riqueza mundial atingiu em agosto de 2007 US$ 190 trilhões e o PIB, US$ 48 trilhões, ou seja, a riqueza é de quatro vezes o PIB. Como o Brasil apresenta há décadas uma das piores distribuições de renda do mundo, é provável que essa relação seja superior. Assim, uma alíquota média de 1% aplicada sobre o valor dos bens poderá permitir uma arrecadação superior a 4% do PIB. Esse valor supera o conjunto de tributos indiretos: IPI, PIS, ISS, Cide e Imposto de Importação e equivale à Cofins”, compara o economista, neste entrevista exclusiva ao MONITOR MERCANTIL.
Juro alto controla a inflação?
Com o avanço da globalização, os preços são definidos mais por fatores externos do que internos a um país. Até um ano atrás a China, contribuía para a redução da inflação mundial. Com a crise do petróleo, alimentos e minérios, a inflação passou a atingir todos os países, evidenciando a maior importância do comércio internacional e da especulação financeira para a fixação dos preços do que as variações das taxas de juros conduzidas pelos bancos centrais.
O crescimento econômico é capaz de gerar automaticamente o desenvolvimento?
Não. É necessário enfrentar as profundas desigualdades que caracterizam historicamente este país, que tem vantagens estratégicas importantes, como o potencial para produzir alimentos, minérios e energia, que serão escassos durante algumas décadas. O desenvolvimento deve considerar as dimensões sociais, políticas e ambientais. No que tange à macroeconomia, é preciso dar ênfase à vertente fiscal e no que pode estar nela contido de solidariedade social.
O senhor avalia que o país deve objetivar um crescimento a taxas superiores a 5% para recuperar o atraso e desfrutar do potencial humano e material que o país possui. Como garantir um crescimento sustentado nessa faixa?
É necessário estimular a produção, os investimentos e o consumo, que deve ser o carro-chefe, pois atrai a produção e os investimentos e aumenta a arrecadação pública, que permite ampliar os investimentos em políticas sociais e de infra-estrutura. Tal expansão se faz ao incorporar a população de baixa renda no mercado de consumo e ampliar o poder aquisitivo da classe média. A inflação baixa é um dos condicionantes para isso, mas também contribuem as políticas de ampliação da oferta de crédito a juros mais baixos, redistribuição de renda via aumentos reais de salário mínimo, programas de complementação de renda familiar, a redução da regressividade tributária e da sua carga.
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