Por Maria de Fátima de Oliveira*
Contam que certa vez, depois da Segunda Guerra, uma senhora italiana caminhava com o filho pelas ruas de sua cidade. Passando em frente a um montão de ruínas, o garoto perguntou: “Mãe, quem foi que causou tanta destruição em nossa terra?” A mulher replicou: “Foi a guerra, meu filho.” “O que é a guerra?” inquiriu o menino. E a resposta: “Meu amor, toda vez que você briga com sua irmãzinha, que é menor e mais frágil, e toma os brinquedos que pertencem a ela, embora tenha os seus, isto é a guerra!”
O garoto ficou pensativo, contemplando as ruínas com um olhar espantado. Depois exclamou, com voz decidida: “Mamãe, é verdade que, toda vez que eu bato em Laurinha, ela chora e fica triste. Será que estou sendo tão mau assim? Eu não quero destruir minha irmã. E prometo que, de hoje em diante, nunca mais vou bater nela para tomar seus brinquedos”.
Essa historieta dá o que pensar.
Quando a gente se debruça sobre a história da humanidade, percebe que a guerra é uma constante ao longo de seu percurso. Ao menos desde a invenção da escrita, quando o homem começou a registrar seus feitos em símbolos gráficos, as lutas entre grupos e tribos acompanham a epopéia humana. Em geral, tais embates são motivados pela cobiça e a prepotência. E ficamos a nos perguntar por que o ser humano, capaz de tantas conquistas artísticas, culturais e tecnológicas, ainda não encontrou um meio de eliminar a guerra da face do planeta. Pelo contrário: esmera-se em torná-la mais sofisticada e mortífera, destruindo vidas e criando barreiras entre nações e culturas.
Na verdade, o ser humano sofre de um desequilíbrio estrutural, do qual raramente tem consciência. Esse desequilíbrio, que as religiões denominam “pecado” e outras teorias consideram um resquício da ancestralidade animal da espécie, está na raiz de todas as nossas contradições. Temos uma tendência de absolutizar o relativo, transformando-o numa finalidade em si mesmo e lutando com todas as forças para defendê-lo.
Por exemplo: a natureza equipou os homens e as mulheres com tendências inatas, próprias ao crescimento e manutenção da vida. Seres corpóreos que somos, todos necessitamos de um mínimo de bens materiais, que nos assegurem alimentação, abrigo e bem-estar suficientes ao nosso desenvolvimento pessoal e grupal. Mas a grande maioria das pessoas sente a necessidade de acumular o máximo de bens, não só para evitar o perigo de que eles venham a faltar, mas também para impor-se aos demais como alguém rico, poderoso e importante. Alguns transformam isso no objetivo último de suas vidas, não hesitando em passar por cima dos outros e de seus direitos e até usando da força bruta com esse fim. Muitas guerras – talvez a maioria delas – têm sido travadas com tal objetivo, obrigando povos mais fracos a viver como escravos. Leia o resto do artigo »