“João Sicsú faz um alerta para a deterioração das contas externas, porém considera que o governo irá intervir no cenário econômico para evitar uma crise cambial. Aponta que um regime de taxas de juros elevadas e câmbio valorizado levam a economia para uma direção oposta de uma economia de pleno emprego, avançada tecnologicamente, com uma justa distribuição da renda e da riqueza e com um sistema de seguridade social de qualidade e universal.
Segundo Sicsú a “fórmula monetária brasileira” é que juros devem ser elevados quando existe alguma crise à vista. Não há crise no front, o maior reconhecimento disto é o recebimento do chamado grau de investimento. Reconheceu-se, portanto, a solidez do crescimento brasileiro. A crise americana é moderada e não atingirá o Brasil, é esse um outro significado do rótulo de grau de investimento que recebemos. Não há motivos, portanto, para a elevação da taxa de juros no Brasil.”
*Por Luciana Sergeiro
Publicado em: Carta Capital
Por: Márcia Pinheiro
O diretor de Estudos Macroeconômicos do Ipea, João Sicsú, alerta para a deterioração das contas externas, mas considera que o governo vai agir para evitar uma crise cambial. Ele critica a elevada taxa de juro doméstica, que tende a reduzir o ritmo do crescimento do País.
CartaCapital: O resultado das transações correntes em março surpreendeu até o Banco Central. Atribuiu-se o resultado à maior remessa de lucros e dividendos, principalmente pelo câmbio valorizado. Até quando será possível sustentar a política de juro alto?
João Sicsú: O Ipea está fundamentalmente preocupado em pensar uma estratégia de desenvolvimento nacional, isto é, um caminho para construirmos um país muito diferente do atual. Queremos construir um país democrático, com uma economia de pleno emprego, avançado tecnologicamente, ambientalmente planejado, com uma justa distribuição da renda e da riqueza e com um sistema de seguridade social de qualidade e universal. As políticas macroeconômicas de curto prazo monetária e cambial deveriam ser adequadas à construção de um País com essas características. Definitivamente, um regime de elevadas taxas de juros e de câmbio valorizado está levando a economia para outra direção. A solidez macro econômica do setor externo se reduz e caminhamos no sentido de fazer do Brasil um país que será apenas grande produtor de produtos básicos e de manufaturados de baixo valor agregado.
CC: O comprometimento das contas do setor externo é evidente, em função do câmbio valorizado pela alta taxa de juro. Há saída para essa armadilha?
JS: Em verdade, não existe armadilha. Muito pelo contrário. O Brasil vive uma situação excepcional em termos de capacidade de crescimento e investimento. A taxa de crescimento do investimento tem sido duas vezes maior que a taxa de crescimento do PIB. Nessas condições, o Governo arrecada mais, se torna financeiramente mais sólido. Não só o governo, mas as empresas também crescem, se tornam mais lucrativas. O desemprego se reduz e a formalização do trabalho aumenta. A arrecadação da previdência cresce. A “fórmula monetária brasileira” é que juros devem ser elevados quando existe alguma crise à vista. Não há crise no front, o maior reconhecimento disto é o recebimento do chamado grau de investimento. Essas agências de rating não se antecipam a nada, elas apenas reconhecem o que já foi conquistado. Reconheceu-se, portanto, a solidez do crescimento brasileiro. Os Estados Unidos reduziram o juro mais uma vez essa semana. A crise americana é moderada e não atingirá o Brasil, é esse um outro significado do rótulo de grau de investimento que recebemos. Não há motivos, portanto, para a elevação da taxa de juros no Brasil. Leia o resto do artigo »