Postado em 6 dEurope/London outubro dEurope/London 2008
Rodrigo L. Medeiros
“O futuro de alguns países já pode ser o presente em outros, enquanto alguns ainda podem incorporar o passado dos demais. Mas o resultado é comum a todos eles: o sistema de mercado não será mais auto-regulável, mesmo em princípio, uma vez que ele não incluirá o trabalho, a terra e o dinheiro” (Karl Polanyi).
Pertence ao último capítulo do clássico livro A grande transformação (Campus, 2000), de Karl Polanyi, o título desta reflexão. Publicado em 1944, o respectivo livro tornou-se um clássico do pensamento econômico do Século XX. Sua tese central baseia-se na insustentabilidade sócio-ambiental do princípio do mercado auto-regulável.
Conforme afirma Polanyi, “uma tal instituição não poderia existir em qualquer tempo sem aniquilar a substância humana e natural da sociedade; ela teria destruído fisicamente o homem e transformado seu ambiente num deserto” (p.18) . Nesse sentido, “inevitavelmente, a sociedade teria que tomar medidas para se proteger” (idem). Como resultado da busca por proteção, a própria auto-regulação do mercado seria prejudicada.
A aparente contradição descrita por Polanyi traduz um dilema enfrentado pelos fundamentalistas de direita e esquerda, ortodoxos nas suas respectivas formas de pensamento. Estariam as sociedades efetivamente reféns de escolhas políticas extremas no campo da organização econômica?
Polanyi argumenta que “a verdadeira crítica à sociedade de mercado não é pelo fato de ela se basear na economia – num certo sentido, toda e qualquer sociedade tem que se basear nela – mas que sua economia se baseava no auto-interesse” (p.289). Reconhecer que houve a imposição do sistema de mercado, em muitos casos de forma violenta, por finalidades não-econômicas não exige grande esforço intelectual. Basta pensar no colonialismo praticado por diversas potências do passado. Dificilmente se pode considerar que as práticas colonialistas terminaram com o mercantilismo e com o advento dos pensadores liberais. O uso impiedoso da força contra os mais fracos, incluindo a sofisticação do poder condicionado no campo intelectual, e a corrupção desenfreada nos escalões administrativos ilustraram histórias de imposição de mecanismos de mercado.
Os diversos sistemas sociopolíticos sentiriam o peso da Revolução Industrial e da haute finance. Seria muito difícil não ser enredado nesse sistema em expansão. Dificilmente se pode afirmar tranqüilamente que havia pacifistas entre os membros dessa emergente classe de capitães de indústria e finanças. Muitos haviam feito fortunas financiando guerras e lucrando com a “paz dos vencedores”. Segundo Polanyi, “o objetivo da haute finance era o lucro; para atingi-lo era necessário um bom relacionamento com os governos, cujo objetivo era o poder e a conquista” (p.26). Empréstimos e suas renovações se articulavam com o crédito e este, por sua vez, dependia do bom comportamento. Leia o resto do artigo »
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Postado em 6 dEurope/London outubro dEurope/London 2008
Luís Nassif
A crise é importante, entre outras coisas, para desvendar a análise seletiva de economistas de mercado.
Por exemplo, no começo do ano já havia sinais nítidos de que a grande crise global se aproximava e que o aumento do déficit em transações correntes era uma ameaça, por dos efeitos previsíveis da crise: queda de preços das commodities e dificuldade de financiamento do déficit.
Uma das vozes que se ergueu contra esse diagnóstico foi a de Affonso Celso Pastores, em artigo de 24 de março passado, no Valor (co-autoria com Maria Cristina Pinotti).
A crise internacional estava vindo a galope, com duas conseqüências óbvias: redução nos preços das principais commodities (com aumento correspondente no déficit em transações correntes) e perspectiva óbvia de aumento da noção de risco de crédito reduzindo os investimentos para o país. Era tema diário aqui no Blog
A análise de Pastore, no entanto, lembrava as discussões dos velhos sábios de Bizâncio:
1. Lembrava que o padrão histórico brasileiro foi de superávit na balança comercial e déficit nas transações correntes. Em vez de utilizar essa informação como alerta – já que esse padrão resultou em inúmeras crises cambiais – utilizava como inevitabilidade do modelo brasileiro.
2. Atribuía o déficit nas transações correntes ao fato de se ter a absorção (consumo das famílias + consumo do governo + investimentos) maior do que o produto, ou ainda, que os investimentos superaram as poupanças domésticas (pública e privada). “E por que as poupanças no Brasil são baixas? Uma das razões é a política fiscal”. (…) .
3. Minimizava o papel do câmbio no aparecimento dos déficits nas transações correntes. “A variável relevante para determinar o comportamento das contas correntes é o câmbio real, que é um preço relativo – entre os bens internacionais e domésticos -, e não o câmbio nominal, que é volátil e se comporta como um preço de um ativo”. Uma afirmação verdadeira e absolutamente inútil, já que é o câmbio nominal quem determina o preço de todas as transações econômicas do país. Seria útil se Pastore admitisse que, por ser volátil, o câmbio nominal deveria ser melhor controlado pelo Banco Central. Mas ele se limita a essa conclusão acaciana para eliminar o câmbio nominal do seu modelo.
4. Para reforçar o não controle sobre o câmbio nominal, ele dizia que o câmbio estava sendo apreciado devido ao aquecimento da demanda, não ao diferencial de juros atraindo capital especulativo. Sendo assim, obviamente não havia razões para se reduzir os juros e o ingresso de capital especulativo. Nem se pergunte porque o câmbio foi para R$ 2,00 com o fluxo de dólar pronto praticamente estável. Ou nem tente indagar toda e engenharia financeira montada pelo mercado para compensar a apreciação irresponsável do câmbio – e que explodiu agora nos casos Sadia e Aracruz. Para Pastore, como essas operações não estavam na planilha da Cristina, não existiam. Leia o resto do artigo »
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Postado em 6 dEurope/London outubro dEurope/London 2008
Estadão
Preocupadas com a crise global, as indústrias na Argentina começam a reduzir custos, planejar demissões, adiar investimentos e se preparar para tempos duros. Isso ocorre nos setores automobilístico – onde as vendas caíram 1,5% em setembro e novas quedas estão previstas -, de autopeças e alimentos, entre outros.No campo, a queda mundial dos preços das commodities agrícolas também preocupa.
A presidente Cristina Kirchner está de olho na evolução das moedas dos vizinhos, sobretudo do real, para evitar perda de competitividade do peso. Lideranças empresariais pedem ao governo um dólar mais alto, de forma a reduzir eventuais “invasões” de produtos chineses ou brasileiros. Leia o resto do artigo »
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Postado em 6 dEurope/London outubro dEurope/London 2008
FERNANDO CARDIM
O PLANO Paulson naufragou na percepção generalizada do público americano de que se tratava de uma tábua de salvação para banqueiros, um dos grupos sociais menos apreciados pela sociedade em geral.
Em relação ao texto originalmente proposto, essa percepção não estava muito longe da realidade. O Plano Paulson realmente aliviaria a situação presente das instituições financeiras, adquirindo seus ativos desvalorizados, sem praticamente exigir nada em troca.
Não havia qualquer restrição, por exemplo, à fixação de preços desses ativos muito superiores aos de mercado. Na realidade, preços superiores aos de mercado seriam quase obrigatórios, porque o valor que o mercado reconhece atualmente nesses ativos é exatamente o que está ameaçando a solvência de tantas instituições financeiras.
Mas, uma vez que essas instituições vendessem o produto de seus erros à sociedade como um todo, representada pelo governo, o que fariam com essas receitas seria de seu inteiro arbítrio, sendo possível realmente, como temeram os cidadãos americanos e seus representantes no Congresso, que se transformassem em fontes de pagamentos a executivos acostumados a apropriar-se dos ganhos do setor financeiro.
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Postado em 5 dEurope/London outubro dEurope/London 2008
Delfim Netto
Carta Capital
Quem acompanhou com algum cuidado a evolução da crise financeira que parecia restrita às hipotecas subprime, mas que acabou por se revelar uma pirâmide de papéis podres, enfrentou surpresas diárias. Por exemplo, em 23 de setembro, o presidente do Federal Reserve, Ben Bernanke, declarou candidamente, na Comissão de Bancos, Habitação e Problemas Urbanos do Senado, quando defendia o plano de salvamento proposto pelo Tesouro: “A falência do Lehman Brothers parecia administrável, mas a simultânea, inesperada e rápida deterioração da AIG na última semana provocou uma extraordinária turbulência nas condições do mercado financeiro global. Isso produziu uma queda espetacular das ações, um aumento do custo dos créditos de curto prazo ainda disponíveis e a escassez da liquidez dos mercados”.
Difícil de entender a “inesperada e rápida deterioração da AIG”. O próprio Bernanke dissera antes que, “no caso da AIG, o Fed, com o suporte do Tesouro (o Ministério da Fazenda), providenciara uma linha de crédito de emergência para facilitar a solução do problema”, o que sugere que o consideravam resolvido.
Bernanke é um acadêmico competente e respeitado e não caiu em contradição. Apenas revelou quão pouco o Fed e o Tesouro sabiam da gravidade da situação até uma ou duas semanas antes de terem deixado falir o Lehman. A alternativa a essa hipótese é ainda mais grave. Eles saberiam “de tudo” e agiam no “limite da sua irresponsabilidade” (como disse Paul Volcker), para sustentar a situação que a própria política monetária laxista do Fed, e sua indiferença à necessidade de regular a ação dos bancos de investimento, havia criado. A filosofia que presidiu esse comportamento assegurava que: 1. A regulação produz ineficiência. 2. A imaginação financeira, explorando todas as suas potencialidades, financiaria cada vez melhor e mais eficientemente a economia real. 3. O próprio mercado discriminaria os agentes de comportamento duvidoso. Em outras palavras, o próprio mercado garante sua moralidade. Como dizia o velho Karl, o problema da filosofia não é compreender o mundo, mas mudá-lo. E (Greenspan, Rubin, Paulson, Bernanke e tutti quanti) fizeram isso. Leia o resto do artigo »
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Postado em 5 dEurope/London outubro dEurope/London 2008
Para presidente do BNDES, com queda dos juros nos países ricos, capital buscará alternativas rentáveis no Brasil.
Folha de S.Paulo (05/10/08)
Luciano Coutinho diz que fontes de capital no mundo ainda são abundantes apesar da secura atual na concessão de crédito.
Encarregado pelo presidente Lula de manter o ritmo de investimentos no país em tempos de secura no crédito externo, o presidente do BNDES, Luciano Coutinho, diz que o banco de fomento pode precisar de R$ 40 bilhões adicionais em 2009 para atender aos pedidos extras de empresas brasileiras diante do bloqueio nas fontes de financiamentos por causa da crise financeira global. Segundo ele, o BNDES já tem garantidos R$ 70 bilhões. Com os recursos extras, teria até R$ 110 bilhões disponíveis em 2009. Para este ano, o banco prevê desembolsos de até R$ 90 bilhões. Coutinho espera captar os recursos de organismos multilaterais e do Tesouro. O aporte seria um “colchão” a ser usado caso o mercado não se recupere rapidamente. “Obviamente espero que não seja necessário tudo isso, seria um colchão, e também parte disso pode ficar para 2010″, disse Coutinho em entrevista à Folha, na qual afirmou estar “rezando” para que os bancos voltem a abrir linhas de crédito e que o BNDES avança no setor por uma questão conjuntural. “Não há um desejo de aumentar o tamanho do BNDES.” Interlocutor freqüente de Lula em assuntos econômicos, Coutinho não acredita que o dólar se sustente no atual patamar e diz que o cenário agora é “diametralmente oposto” ao do início do ano, que levou o Banco Central a elevar os juros. “As preocupações com a inflação devem ser relativizadas nesses momentos [de esfriamento da economia global]“, afirmou, acrescentando que esse cenário deve ser “levado em conta” por todos, inclusive pelo BC. O presidente do BNDES rebate as críticas de que o governo estaria pisando no acelerador num momento em que deveria ser mais prudente. “Ninguém está pensando em pisar no acelerador”, diz, mas também “não é porque o mundo pisou no freio que temos de fazê-lo também.” Ele defende crescimento com “sensatez e prudência”, que mantenha a liderança dos investimentos e modere a expansão do consumo e dos gastos do governo. Disse ainda que o Brasil é um dos melhores países para investir neste momento de crise nas economias centrais e que fundos soberanos asiáticos já estão visitando o país em busca de oportunidades. A seguir, trechos da entrevista concedida na sexta no escritório do banco de fomento no Itaim, na zona sul de São Paulo.
FOLHA – Como essa crise vai, de fato, afetar o Brasil?
LUCIANO COUTINHO – O Brasil tem condições excepcionais de atravessar essa crise com efeitos muito moderados sobre o crescimento da sua economia. Nossos fundamentos macroeconômicos são firmes, temos um mercado doméstico com potencial de crescimento, um sistema bancário extremamente saudável, capitalizado, que pode expandir o crédito. Existe ainda uma avenida para a expansão do crédito no Brasil, que tem sido feita com velocidade, sem deterioração de qualidade, considerando que a relação crédito/PIB no Brasil ainda é baixa. Além disso, o país tem uma fronteira de investimentos em infra-estrutura de alto retorno e baixo risco inegáveis, haja vista que, nesta semana [passada], na crise, foram realizados com sucesso leilões de energia. Leia o resto do artigo »
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Postado em 5 dEurope/London outubro dEurope/London 2008
Thomas I. Palley
Página do autor
A friend told me the economist Charles Kindelberger had two rules for a credit economy. Rule one was everybody should know that if they get over-extended they will not be bailed-out. Rule two was if everybody gets over-extended they must be bailed out. The U.S. economy has over-extended itself, triggering rule two. But that still leaves open how a bailout should be designed since designs are not all equal.
Currently, two models are on the table. One is the Paulson model (also supported by Bernanke) that proposes government buy the bad assets of financial institutions. The other is a Buffett-style recapitalization model that would have government invest in and recapitalize banks, just as Warren Buffett has done for Goldman Sachs.
The underlying problem is the financial system is short of capital owing to massive asset depreciation. This shortage is impeding provision of credit, which threatens to tank the economy by interrupting normal commerce.
Banks are caught in a pincer preventing them raising capital. On one hand, if they sell assets to cleanse their balance sheets and make themselves more attractive to investors, this could cause such large losses as to trigger bankruptcy. On the other hand, uncertainty about bank worth means the market is demanding such onerous terms for fresh capital that banks are unable to meet them. Leia o resto do artigo »
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Postado em 3 dEurope/London outubro dEurope/London 2008
No cinema e no romance não há forças de redenção para a anomia descrita por Saramago. Algo semelhante parece ocorrer nesses dias marcados por um certo conformismo bovino na fila do matadouro. Reside aí, talvez, a verdadeira dimensão sistêmica da crise. Não se trata apenas de um atributo de abrangência econômica, mas sim da virtual incapacidade política de seus protagonistas para acionar uma mudança de rumo.
Saul Leblon
Carta Maior
Numa das cenas do filme “Ensaio sobre a Cegueira”, adaptação de Fernando Meirelles para o romance de Saramago, o personagem pergunta à esposa cuja visão subsiste na solidão de um mundo que perdeu a capacidade de enxergar e se auto-gerir: “Há sinais de governo?”
A resposta é dada pelo angustiante passeio da câmera nas ruas de uma metrópole onde nada funciona. O que as lentes mostram são bandos esfarrapados e famintos vagando sem destino. Modalidades previsíveis da barbárie preenchem um hiato em que o Estado desmoronou e os valores da convivência humana se eclipsaram. A auto-regulação dos mercados não funcionou.
Quem assistir ao filme nesses dias de convulsão financeira dificilmente resistirá à analogia. A crise iniciada nos EUA, que aos poucos contamina o resto do planeta, é o Ensaio sobre a Cegueira de quem vive sob a supremacia dos mercados desregulados no alvorecer do século XXI. Da esquerda à direita, dos trabalhadores aos banqueiros, passando por governantes, economistas e líderes políticos quase ninguém consegue enxergar a real extensão de um colapso que se arrasta desde agosto de 2007. Num crescendo ele se derrama de um setor a outro, salta de país a país como uma fatalidade intangível e ingovernável cuja visita cabe apenas aguardar. Mais inquietante, sobretudo, é a invisibilidade de alternativas que possam conduzir a sociedade a uma nova visão da economia e do seu desenvolvimento, escapando à propagação inexorável de solavancos que eclodem em intervalos cada vez menores, com virulência cada vez maior (1987 -1988-2001-2003-2007-2008). Leia o resto do artigo »
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