O subprime brasileiro
Postado em 8 dEurope/London outubro dEurope/London 2008
As peças se encaixaram finalmente.
Dias atrás relatei aqui – com exclusividade – as operações de opções de dólar com CDI, oferecidas por muitos bancos a empresas brasileiras. Segundo informações que colhi no mercado, as empresas haviam incorrido em duas opções de venda de dólar: a R$ 1,80 e a R$ 2,00.
Significava que, enquanto o dólar ficasse abaixo desse valor, elas ganhariam diariamente a diferença. Acima, teriam que pagar.
Quando o dólar passou os R$ 1,80 e encostou nos R$ 2,00, estimava-se uma perda de R$ 25 bilhões para os vendidos; quando passou de R$ 2,00, as estimativas de perda passaram para R$ 35 bilhões.
Hoje, o “Valor” adianta mais detalhes da operação (clique aqui). E, juntando as peças, explica a razão do governo ter editado a Medida Provisória conferindo plenos poderes ao Banco Central.
1. A operação se chama “target forward”. Nela, a empresa aposta duas vezes na valorização do real.
2. No primeiro passo, ela vende o dólar para o banco através de um instrumento chamado de “forward”, o correspondente ao “non-deliverable forward” no exterior. É o que chamamos de venda a termo. Na operação, a empresa se compromete a entregar o dólar em um dia qualquer do futuro, por uma cotação pré-fixada. O jornal montou um exemplo de uma empresa que vendeu US$ 10 milhões ao banco no dia 10 de julho para entrega em 30 de agosto a R$ 1,6040.
3. Para as empresas conservadoras, não há risco. Na outra ponta ela tem dólares a receber de uma exportação efetuada. Se o dólar explodir, ela perde na venda a termo mas ganha as exportações, ficando empatada. É o hedge clássico. Suponha que o dólar vá para R$ 1,70. A empresa recebe R$ 1,70 x US$ 10 milhões por seu contrato de exportação e paga a mesma quantia ao banco.
4. As operações da Sadia e Aracruz continham um componente adicional. Vende uma segunda vez os dólares ao banco através de uma opção de compra. Através dela, o banco paga um valor à empresa para ter o direito de comprar o dólar no futuro pela cotação pré-estabelecida.
5. No exemplo do Valor, o banco passava a ter o direito de comprar US$ 10 milhões a R$ 1,73 no dia 30 de agosto de 2008. Se, nesse dia, o dólar estivesse valendo menos, o banco não exerceria o direito de compra. Perde o que pagou à empresa e a operação se encerra. A opção “virá pó”, no jargão do mercado.
6. Mas se o dólar batesse em R$ 2,00, a empresa teria que adquirir por esse valor no mercado, para entregar ao banco por R$ 1,73. Sua perda seria de 13,5% ou R$ 2,7 milhões. A empresa perde entregando os dólares a termo por esse valor e perde comprando dólares no mercado para pagar as opções.
O Valor conseguiu levantar algumas das propostas dos bancos às empresas, que batem com aquela divulgada aqui dias atrás.
Além das exportadoras, possivelmente empresas médicas, bancos e construtoras entraram nesse jogo. Leia o resto do artigo »
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