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O nacionalista Tancredo Neves

Posted By Imprensa On 6 março, 2010 @ 11:28 am In O que deu na Imprensa,Política Brasileira | No Comments

Por Mauro Santayana

Fonte: JB (Coisas da Política [1])

Em debate na TV-Educativa do Paraná, que será exibido no próximo domingo, o jornalista José Augusto Ribeiro narrou um episódio que mostra a altivez de Tancredo. Na viagem que fez aos Estados Unidos, logo depois de eleito, o presidente esteve com Reagan e seu secretário de Estado, George Shultz, na Casa Branca, e, em seguida, visitou o Congresso. O presidente Reagan estava mais interessado em conversar sobre os signos do zodíaco. Com Shultz, Tancredo foi firme ao dizer-lhe que esperava dos Estados Unidos o tratamento que merecem as nações soberanas e conscientes de sua independência. No Congresso, que estava em recesso, foi recebido pela Comissão de Relações Exteriores, reunida para a ocasião. Um senador tocou no assunto da Nicarágua. Naqueles meses, a administração Reagan, diante da vitória eleitoral de Ortega e da discussão de nova Constituição, determinara o embargo contra Manágua, e medidas mais drásticas estavam sendo planejadas. Tancredo, em resposta a um senador, disse, bem devagar, a fim de favorecer a tradução: “O Brasil não permitirá a invasão militar norte-americana contra a Nicarágua”. José Augusto se lembra de que o embaixador norte-americano no Brasil, Diego Asencio, presente ao encontro, ficou lívido, mas ele não tinha razões para surpreender-se com a posição de Tancredo. Meses antes, como governador de Minas, ele o recebera nas Mangabeiras, e, depois de uma conversa amável, lhe disse que as relações de troca entre o chamado Primeiro Mundo e os países em desenvolvimento eram profundamente injustas. Lembrou-lhe que os países ricos se nutriam da miséria dos pobres, ao pagar preços baixos pelas matérias-primas e cobrar muito caro pelas máquinas, insumos industriais e remédios, sem esquecer que se negavam a transferir tecnologia.

Quando o embaixador lhe lembrou que os Estados Unidos tinham imensos gastos militares para garantir as fronteiras do “mundo livre”, Tancredo, sorrindo, lhe disse que o mundo livre era grato por essa defesa, mas que estavam cobrando muito caro pela proteção. E, em tom aparentemente distraído, lhe disse que estavam cobrando “mais caro do que os rapazes de Chicago”. Depois de se desculpar, sorrindo, pela boutade, ficou repentinamente sério. Ao prever rebeliões no continente contra a injustiça social, que poderiam levar os conservadores a buscarem a intervenção norte-americana e levarem Washington à tentação do desembarque de seus “marines”, avisou, com a mesma suavidade na voz: “É bom lembrar, embaixador, que o Brasil é bem maior e muito mais populoso do que o Vietnã”.

Quando Tancredo foi convocado, em 1953, para assumir o Ministério da Justiça, Getulio estava acossado pelos norte-americanos. Eles pretendiam “americanizar” o Brasil, transformando-o em sócio menor no Hemisfério, como caudatário de seus interesses. O espaço brasileiro seria ocupado com a expansão de suas indústrias e a colonização agrícola. Do assunto trata o esclarecedor estudo de Gerald T. Haynes, historiador da CIA, The americanization of Brazil. O cerco se tornou mais duro, quando se soube que Vargas estava preparando a criação da Petrobras. Tancredo tomou posse em junho. Em outubro a sua seria a segunda assinatura – como ministro da Justiça – logo depois do presidente, na Lei 2.004, que criou a empresa estatal de petróleo.

Foi o que bastou para que a oposição se tornasse histérica, com a quase unanimidade dos meios de comunicação articulados contra o presidente. Tancredo nunca hesitou quando se tratava do interesse nacional. Em 1978, logo depois de eleger-se senador, concedeu ao colunista, na fazenda da família, em Cláudio, uma entrevista divulgada pela Folha de S. Paulo. Lembrou que, ao exercer o cargo de primeiro-ministro de Jango, negou-se a indenizar os franceses pela encampação da Port of Para, e agira da mesma forma no caso do Banco Hipotecário de Minas Gerais. Enquanto caminhava pela fazenda, ao ver um já raro tico-tico, comentou que os pardais, vindos da Europa, haviam dizimado a espécie, chupando-lhes os ovos e deixando os próprios, para que os nativos os chocassem e alimentassem os filhotes. “São o símbolo do capital estrangeiro”, observou, com a voz grave e amarga, o semblante endurecido.


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[3] ? A questão dos impostos e juros: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/07/a-questao-dos-impostos-e-juros/

[4] ? Manifesto Grupo Crítica Econômica: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/07/manifesto-grupo-critica-economica/

[5] ? O que é política de pleno emprego?: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/07/o-que-e-politica-de-pleno-emprego/

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