Dilma já tem preferido na economia
Escrito por beatriz, postado em 7 dEurope/London dezembro dEurope/London 2009
Atual secretário de Política Econômica, Nelson Barbosa deverá ter papel importante na campanha de Dilma Rousseff, caso se viabilize sua candidatura à Presidência
O formulador
Nelson Barbosa, antiliberal pragmático, é o preferido de Dilma para coordenar o programa econômico, caso ela dispute a presidência
Fonte: Correio Braziliense
Por Ricardo Allan
Caso sua candidatura à Presidência da República se viabilize, a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, não vai abrir mão de ter no núcleo de sua campanha o atual secretário de Política Econômica, Nelson Barbosa. Para alguns colegas de governo, ela já deixou claro que o quer como coordenador do programa econômico. Por enquanto, Barbosa tem repetido que prefere continuar à frente da secretaria até o fim do segundo mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Mas interlocutores próximos asseguram que, apesar do cansaço, o titular da SPE aceitará o desafio caso enxergue nele uma possibilidade de garantir avanços nos resultados obtidos nos últimos sete anos.
“Nelson Barbosa gosta de encarar algo que o estimule intelectualmente. Os desafios na consolidação e aperfeiçoamento deste bom momento brasileiro no cenário pós-crise são suficientes para animá-lo a topar a parada. Com certeza, ele quer continuar influindo nos destinos do país”, diz um expoente do governo. Desde que coordenou o programa econômico na campanha de Lula pela reeleição, em 2006, Barbosa vem ganhando espaço como uma das maiores referências na área dentro do PT. Não porque o partido tenha quadros muito fracos em economia, o que de fato ocorre. Mas sim porque o secretário se destacou na posição de principal formulador da política econômica.
De sua cabeça, saíram quase todas as medidas adotadas no segundo mandato, período em que foi sucessivamente secretário-adjunto da SPE (até abril de 2007), secretário de Acompanhamento Econômico (até agosto de 2008) e chefe da SPE a partir de então. O Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) tem as suas digitais, assim como o Minha Casa, Minha Vida e os estímulos fiscais para ajudar a economia nacional a minimizar os efeitos da crise internacional, sair da recessão e retomar o caminho do crescimento. “Essa equipe da Fazenda é muito fraca. Ele é um dos únicos com a formação intelectual adequada para o cargo”, diz um colega do próprio ministério.
“Barbosa é vaidoso intelectualmente. Em público, mantém a modéstia, mas adora elogios”, comenta um amigo “brasiliense”, que emenda: “Um dos seus prazeres é indicar livros”. Para os jornalistas que considera “liberais demais”, prescreve ‘A doutrina do choque’, em que a ativista canadense Naomi Klein põe em xeque a ética de gigantes do liberalismo, como Milton Friedman (1912-2006). ‘Ou Tudo à venda’, de Robert Kuttner, sobre os papéis do Estado e do mercado. Disciplinado, o secretário transfere as glórias para seu chefe maior. Costuma dizer que a melhor “cabeça econômica” do governo é a do próprio Lula: não tem conhecimento teórico, mas aprende logo e possui um “instinto perfeito” sobre o que fazer, em que momento e o que evitar.
Como as medidas obtiveram bom resultado prático e publicitário, Barbosa ganhou a confiança de Lula, Dilma e do ministro da Fazenda, Guido Mantega, que já apostava nele como um dos seus homens fortes. O outro, o secretário-executivo da Fazenda, Nelson Machado, teve seu prestígio abalado com a confusão em que a ex-secretária da Receita Federal Lina Vieira envolveu a Petrobras e Dilma. Machado convenceu Mantega a demitir Jorge Rachid, uma herança do período de Antônio Palocci no ministério, e colocar alguém mais afinado com a linha do PT. Escolheu Lina e passou a mandar efetivamente no órgão, enquanto a secretária posava de soberana inglesa.
Exceção
“Mantega ainda confia em Machado para tocar o dia a dia do ministério, mas é uma espécie de trabalho de síndico. Não desgruda mesmo é do Nelson Barbosa, que é o assessor mais requisitado. Às vezes, ele passa o dia inteiro no gabinete do ministro”, afirma um secretário-adjunto da Fazenda. Mantega só deixou de lhe dar razão na tributação sobre a entrada no país de capital externo para aplicação em renda fixa e variável. Escolado com o fracasso da taxação da compra de títulos públicos por estrangeiros, adotada no início de 2008, o secretário era contra a medida. Na sua visão, ela seria inútil, pois não estancaria o desembarque de dólares no país – sua previsão está se mostrando verdadeira.
A decisão pela cobrança do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) de 2% foi mais política do que técnica. Mantega e Lula quiseram dar satisfação aos poderosos representantes empresariais, que pressionavam contra a valorização do real frente ao dólar. O fortalecimento da moeda nacional, argumentam, diminui a competitividade dos produtos brasileiros no mercado externo. Levantar barreiras contra a entrada de recursos estrangeiros seria uma forma de enfraquecer o real. Mesmo alertado para o fato de que os investidores não deixariam de apostar no país, Lula preferiu ouvir economistas como Luiz Gonzaga Belluzo, presidente do Palmeiras, e Luciano Coutinho, presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
À medida que ganhou terreno na equipe econômica, o secretário passou também a colecionar desafetos. Não se dava bem com Bernard Appy, antecessor de Machado na secretaria-executiva e do próprio Barbosa na SPE. Combateu, por exemplo, a proposta de Appy de tributar a caderneta de poupança para tornar essa aplicação menos atraente – do contrário, com a queda dos juros, ela fica mais rentável e rouba clientes dos fundos que financiam a dívida pública. O secretário considerava o projeto muito complexo. O governo não fez nenhuma sugestão ao Congresso ainda, mas Barbosa acredita que é preciso discutir o tema, mesmo que não seja para adotar a solução da cobrança de impostos.
Banco Central
Sua principal desavença é com o Banco Central (BC), em especial com “os Marios”. Os diretores de Política Econômica, Mario Mesquita, e Política Monetária, Mario Torós, sempre foram considerados os membros mais ortodoxos da equipe do presidente do BC, Henrique Meirelles (PMDB-GO). O mercado os reconhecia como os mais resistentes à queda dos juros e entusiastas da alta – Torós foi demitido recentemente e substituído por um economista de perfil mais moderado. Sem citar o BC, Barbosa convocou uma entrevista para chamar de “terrorismo” os alertas do relatório de inflação de setembro. O documento apresentado por Mesquita insinuava que, se a Fazenda não segurasse os gastos públicos, o BC poderia ter que subir os juros para inibir a inflação.
Segundo interlocutores de Barbosa, o episódio o deixou muito irritado, principalmente porque o secretário apoia todas as decisões do BC em público, mesmo quando discorda delas. “O Nelson acredita que o BC não jogou como um time. Ele está certo. Sempre que o pessoal do Meirelles está debaixo de porrada por causa dos juros, nós ficamos quietos, evitando pôr lenha na fogueira. Agora que a política fiscal está na berlinda, eles nos atacaram de forma desleal”, afirma um colega de Barbosa na Fazenda. Acertada com Mantega, a reação aumentou o prestígio do secretário perante à ala desenvolvimentista do governo, da qual faz parte. Além disso, multiplicou a simpatia de Dilma por ele.
Ciúmes
O relacionamento de Nelson Barbosa com a possível candidata à Presidência pelo PT gera ciúmes também em destacados membros do partido. “Nem todo mundo vê com bons olhos a aproximação da Dilma com um membro do segundo escalão de um ministério, mesmo sabendo que ele tem notáveis qualificações”, diz um parlamentar petista. A aproximação foi ainda maior durante a elaboração do regulamento para a exploração do petróleo do pré-sal. As sugestões do secretário, representante da Fazenda nas reuniões, foram quase todas aceitas. “Depois disso, a Dilma ficou quase apaixonada”, brinca um deputado. “Ele já é indispensável para o Mantega e está ficando para a ministra também.”
Barbosa é um antiliberal pragmático. Para ele, o governo recebeu um claro mandato nas urnas para intervir mais na economia. O secretário estimula a discussão na sua equipe, que entra no gabinete sem bater na porta. De temperamento tranquilo, adaptou-se bem a Brasília, para onde trouxe mulher e filho. Com frequência, é visto nos principais shoppings da cidade e caminhando no Eixão aos domingos. Afirma que, em 2011, quer voltar à UFRJ, de onde é professor licenciado. Mas está cotado para posto importante num eventual governo Dilma. Dentro ou fora do setor público, vai continuar acreditando no sucesso do Brasil. “Quando um país começa a dar certo desse jeito, ninguém segura”, diz.
Comentários de colegas sobre Nelson Barbosa, secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda
“Barbosa é vaidoso intelectualmente. Em público, mantém a modéstia, mas adora elogios”
“Mantega não desgruda mesmo é do Nelson Barbosa, que é o assessor mais requisitado. Às vezes, ele passa o dia inteiro no gabinete do ministro”
“Nem todo mundo vê com bons olhos a aproximação da Dilma com um membro do segundo escalão de um ministério”
“Um dos seus prazeres é indicar livros”










