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LISARB, UM PAÍS DE CABEÇA PARA BAIXO

Posted By beatriz On 4 novembro, 2009 @ 4:38 pm In Destaques da Semana,Energia,Roberto D'Araujo | No Comments

Roberto Pereira d’Araujo

Ildo Sauer 

Era uma vez um pequeno país chamado Lisarb. Tinha uma vida feliz, não tinha inflação e não havia impostos. Sua população não passava de alguns milhares. Para uma sociedade razoavelmente igualitária, o único incômodo era que o Sr. Hertz, dono da empresa Lisarb Elétrica, não parava de enriquecer, o que era muito estranho já que a sua empresa era uma prestadora de serviço público regulada por uma austera Agência Lisarbiana de Energia Elétrica (ALEEL).

Eram apenas 1.000 consumidores de eletricidade e, por uma coincidência que só ocorre em Lisarb, todos consumiam exatamente a mesma quantidade de energia por ano. No ano zero dessa história, cada consumidor usou exatamente 1.000 kWh. A empresa distribuidora vendia essa energia por um “leal” (moeda local) por cada kWh. Portanto, a receita da empresa era exatamente L$ 1.000.000,00 (um milhão de leais). 

O Sr. Hertz adquiria a energia a ser vendida por 0,3 L$/kWh e pagava L$ 200.000,00 fixos como encargos. Essa despesa, conhecida em Lisarb por “parcela A” somava L$ 500.000,00. A “parcela B”, necessária para o funcionamento da empresa, era o restante L$ 500.000,00. Estes eram suficientes para cobrir os custos com pessoal, remunerar o capital investido, cobrir a depreciação dos ativos em serviço, além dos materiais de consumo e serviços de terceiros.

Por uma dessas coisas que só acontecem nesse país, no ano seguinte, os seus 1.000 consumidores aumentaram seu consumo em exatamente 10%.  Não houve aumento do número de consumidores, não foi necessário instalar novos postes, novos cabos ou novos transformadores, nem contratar novos funcionários.  Apenas vendeu-se mais energia. A única variação foi que agora, Lisarb Elétrica, precisava comprar mais kWh’s. O fornecedor manteve o preço em L$ 0,3/kWh e assim a parcela de compra de energia mudou para L$ 330.000,00 (1100 x 0,3).

A ALEEL, com um método equivocado, assumiu que toda a receita variava proporcionalmente ao mercado. Assim, os L$ 1.000.000 do primeiro ano se transformaram em L$ 1.100.000. Na realidade, apenas os L$ 300.000 referentes à compra de energia deveriam ser incrementados em 10%. Os encargos fixos permaneceriam em L$ 200.000. A parcela A correta deveria ser L$ 530.000. Pior ainda, a parcela B, a parte que ficava com a empresa, ao invés de ser calculada a partir das suas contas, era resultante de uma diferença da receita total e da parcela A. Como a receita aumentava 10%, descontados os L$ 530.000 da parcela A, a parcela B foi reajustada para L$ 570.000! Um ganho extra de L$ 70.000 sem nenhum novo investimento ou contratação de funcionário! 

Ora, com essas contas, a tarifa foi calculada com a nova despesa total (L$ 1.100.000) e, evidentemente, permaneceu em 1 L$/kWh. Mas alguém em Lisarb resolveu pensar um pouquinho. Ora, se o consumo  e a receita aumentam, a energia comprada não sobe de preço e há gastos fixos, a tarifa deveria ser menor! Simples ganho de escala! Portanto, a conta certa seria a soma da nova parcela A (L$ 530.000,00), da mesma parcela B (L$ 500.000,00), resultando numa receita de L$ 1.030.000,00. Isso resultaria numa tarifa justa de L$ 0,94/kWh. Pode parecer pouco, mas, como esse erro era feito todos os anos, em 10 anos a tarifa seria o dobro do que deveria ser. 

A agência de Lisarb tinha acesso a todas as informações de crescimento de mercado, dos encargos e dos contratos de energia, dos custos de pessoal, material de consumo, da remuneração e depreciação dos investimentos necessários à prestação do serviço em condições adequadas. Mas preferiu ir atrás de teorias econômicas importadas para representar a realidade através de uma empresa idealizada ao invés de se debruçar sobre as contas de Lisarb Elétrica.

O Sr. Hertz, experiente industrial, dificilmente desconhecia essa indevida vantagem. Afinal, ela seria forçosamente retratada em seu balanço. Mas, como sabia que a ALEEL preferia regular indiretamente e não olhava suas contas, resolveu ficar quietinho. Quando o assunto surgiu chegou a ficar agressivo ameaçando entrar na justiça contra a ALEEL. 

Até hoje, apesar da obviedade do erro, as autoridades de Lisarb não sabem como resolver a questão e permanecem brigando entre si enquanto os Lisarbianos aguardam pasmos!  Deve ser horrível morar em Lisarb!


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[1] Grande Entrevista com Paulo Henrique Amorim!! PHA / REVISTA FÓRUM: DANTAS COMPROU PARTE DO PT: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/04/grande-entrevista-com-paulo-henrique-amorim-pha-revista-forum-dantas-comprou-parte-do-pt/

[2] Novo Capítulo do Dossiê do Nassif x Veja: As relações incestuosas na mídia: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/04/novo-capitulo-do-dossie-do-nassif-x-veja-as-relacoes-incestuosas-na-midia/

[3] Paraguai não pode ser uma ilha entre as outras nações”: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/04/paraguai-nao-pode-ser-uma-ilha-entre-as-outras-nacoes%e2%80%9d/

[4] Chegou o tempo dos idealistas: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/04/as-duas-faces-do-projeto-mediocratico-no-brasil/

[5] EDMUND PHELPS, NOBEL DE ECONOMIA 2006, É ENTREVISTADO NA VEJA: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/04/edmund-phelps-nobel-de-economia-2006-e-entrevistado-na-veja/

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