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Cai o mito do real desvalorizado

Posted By Imprensa On 18 novembro, 2009 @ 8:31 am In Conjuntura,Política Brasileira,Política Econômica | 1 Comment

Por Luís Nassif (blog [1])

Quando o mercado fechou ontem, primeiro dia após o anúncio da demissão de Mário Torós do cargo de Diretor de Política Monetária do Banco Central, os juros futuros tinham caído. De ontem para hoje, o DI (Depósito Interbancário) de janeiro de 2011 caiu de 10,27% ao ano para 10,20% ao ano. O DI de julho de 2010, de 9,14% para 9,10% ao ano.

Qual a lógica? De acordo com a retórica terrorista do mercado, se sai um diretor ortodoxo e há sinais de afrouxamento da política monetária, os juros podem cair no curto prazo, mas deveriam subir no longo – porque, pela leitura do mercado, o afrouxamento da política monetária produziria mais inflação obrigando, mais à frente, a outro movimento de alta nas taxas.

Nada disso ocorreu. Pelo contrário, o mercado sequer reagiu à declaração do Ministro da Fazenda Guido Mantega, de que a taxa ideal para o dólar é em R$ 2,60. Nesse nível, declarou Mantega, não tem China, Coréia ou Japão que segure o Brasil.

O significado desse jogo é que começa a cair o último grande mito da economia brasileira, que é a taxa de câmbio baixa.

Vamos entender um pouco melhor o modelo armado em torno do sistema de metas inflacionárias do Banco Central.

Por esse sistema, o BC procede a pesquisas permanentes sobre as expectativas da economia em relação à inflação. Desde que mudou a composição do Copom (Comitê de Política Monetária), na partida do Real, o universo pesquisado é exclusivamente das instituições financeiras.

O BC tem seu próprio Departamento de Pesquisas, que permite a montagem de cenários. E tem um segundo departamento, especificamente para trabalhar em cima das metas inflacionárias.

É nessa segunda área que se dá o jogo de expectativas viciadas com o mercado. Cada Departamento Econômico não procura acertar a inflação, mas acertar qual a inflação que o BC está esperando.

Torna-se, portanto, extremamente fácil manipular as expectativas para justificar taxas de juros elevadas. Recorre-se a argumentos de toda ordem – para uma boa lista, basta consultar os artigos do professor Afonso Celso Pastore, o campeão dos “juristas” (aqueles que defendem juros altos para curar qualquer doença, de lumbago à perda de rentabilidade do sistema).

Suponha que a inflação estivesse sob absoluto controle. Levanta-se o mito do PIB potencial – consagrado por Pérsio Arida depois que abandonou o estudo da economia. Consistia em modelos matemáticos nunca explicitados, mas que permitiam ao economista garantir que, se a economia crescesse acima de determinado percentual, haveria inflação. Bastava um crescimento moderado, para o BC aumentar os juros.

Depois, o mito da capacidade instalada. Bastava haver certo nível de ocupação da capacidade instalada – passo necessário para deflagrar processos de investimento – para se abortar o crescimento com alta de juros.

Um a um foram caindo os mitos. Persistiu a idéia de que com real desvalorizado seria impossível segurar a inflação – mito, aliás, que já havia sido desmentido em duas ocasiões, nas desvalorizações de 1999 e 2003.

Agora é o próprio mercado que derruba o mito, reagindo com queda de juros à saída de Torós e à fala de Mantega.


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#1 Pingback By Blog do Desemprego Zero » Blog Archive » Boletim semanal: Câmbio, Real, Lula, Emissões de carbono On 24 novembro, 2009 @ 10:25 am

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[2] Sobre o papel do Estado: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/sobre-o-papel-do-estado/

[3] Tem São Paulo demais: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/tem-sao-paulo-demais/

[4] EDITORIAL do Cadernos do desenvolvimento do centro Celso Furtado: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/editorial-do-cadernos-do-desenvolvimento-do-centro-celso-furtado/

[5] País perdeu os 'anos de ouro' da economia mundial: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/pais-perdeu-os-anos-de-ouro-da-economia-mundial/

[6] Espantando o vôo de galinha: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/espantando-o-voo-de-galinha/

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