Recuperação é mera reposição de estoque e não vai durar, diz Wade
Escrito por Imprensa, postado em 7 dEurope/London setembro dEurope/London 2009
Fonte: Valor Econômico (02.09.2009)
O economista anglo-neozelandês Robert Wade, 65, professor de política econômica e desenvolvimento da London School of Economics, não compartilha do otimismo que tem permeado os mercados nas últimas semanas quanto ao fim da crise econômica mundial. Em entrevista ao Valor, ele pintou um quadro preocupante. Disse que o movimento de recuperação industrial em curso no mundo desenvolvido é apenas uma recomposição de estoques. E que, por não ter sustentação, vai desaguar em nova crise em 2010, provocada pelos altos preços do petróleo e dos alimentos.
Com os países ricos retraídos e a China mantendo uma política exportadora agressiva, Wade avalia que os chamados países emergentes, como o Brasil, têm motivos para se preocupar, pois as exportações chinesas tendem a se direcionar para esses mercados. Não é a China, mas a especulação dos bancos ocidentais com dinheiro emprestado por seus governos para combater a crise que está elevando os preços do petróleo e dos alimentos, diz ele.
Além disso, o economista vê a formação de uma bolha imobiliária na China que deve estourar em algum momento, causando novo abalo. Segundo Wade, os empréstimos bancários na China cresceram mais de 60% no primeiro semestre deste ano, e o quadro em gestação é semelhante ao da crise asiática de 1997, o que a maioria dos economistas ainda rejeita.
Todo esse panorama, na sua avaliação, não é bom para o Brasil, país cuja economia ele diz não conhecer em profundidade. Para Wade, a estratégia comercial exportadora chinesa tem entre seus efeitos inibir a industrialização em países como o Brasil, mantendo-os majoritariamente como fornecedores de commodities.
Wade disse que a crise financeira e econômica desencadeada em setembro de 2008 terá o perfil gráfico da letra “W”, com uma queda, já ocorrida, uma recuperação momentânea, em curso, e uma nova queda, seguida de recuperação lenta, provavelmente a partir do quarto trimestre de 2010.
A quarta perna do “W”, segundo a sua análise, será imperfeita, erguendo-se bem aberta. “O crescimento de 2010 a 2015 será menor do que o ocorrido entre 2001 e 2008″, previu. Um dos fatores que irá inibir o crescimento, diz ele, será o desequilíbrio entre as economias de Japão, China e Alemanha, que são superavitárias, e a dos EUA, deficitária.
O economista divide, para efeito de análise da crise, a economia mundial em três grupos, por grau de exposição aos problemas. O grupo dos mais atingidos inclui EUA, Reino Unido, Irlanda, Islândia, países bálticos e parte do Leste Europeu. Entre os medianamente afetados estão a maior parte da Europa Ocidental, América Latina e a maior parte da Ásia. E os menos afetados incluem a África e alguns países da Ásia.
Nos países do primeiro grupo, definitivamente não dá para dizer que [a crise] acabou”, diz. Wade destacou que, nos países mais afetados, a crise nas finanças e na produção, com a consequente alta do desemprego, afetou o tecido social, com o aumento dos casos de alcoolismo, de consumo de drogas e de desagregação familiar.
Na Espanha, por exemplo, ele disse que o desemprego entre jovens chegou a 30% e que esses jovens terão dificuldade para retornar ao mercado no futuro, mesmo com a chegada da recuperação, porque terão de disputar as vagas com outros jovens que estarão chegando. No Reino Unido, Wade chama de “geração perdida” a dos filhos dos desempregados pela crise que estão sendo empurrados para uma posição marginal, sem acesso ao mercado de trabalho.
Ele cita ainda o drama de idosos dependentes de fundos de pensão. Como essas instituições, excessivamente expostas ao mercado financeiro, perderam patrimônio, os idosos ficaram vulneráveis. Na Islândia, país que Wade estudou e que considera um “microcosmo da crise”, o governo caiu por pressão dos idosos afetados pela crise.
De orientação keynesiana (corrente baseada nas lições do economista inglês John Maynard Keynes), Wade alerta que a recuperação do comércio em um ambiente de desemprego gerou frutos “desastrosos” no passado, como o surgimento do nazifascismo na Europa, e propõe que o mundo volte a se debruçar sobre as propostas vencedoras de Keynes na conferência internacional de Bretton Woods (1944), incluindo a adoção do câmbio fixo, a regulação do mercado financeiro, a atuação dos bancos restrita ao âmbito nacional, além da criação de uma moeda internacional que, no desenho aprovado em Bretton Woods (EUA), seria supervisionada pelo Fundo Monetário Internacional (FMI).
Wade disse saber da baixa probabilidade de que suas propostas venham a ser postas em prática, mas afirmou que seu papel como acadêmico “é falar como as coisas devem ser”. Na sua opinião, três pontos essenciais barram essas propostas: o gigantismo dos bancos internacionais, que sabem serem “grandes demais para falir” o interesse dos EUA e do Reino Unido em manter Wall Street e a City de Londres como os grandes centros financeiros internacionais e a falta de pressão externa, representada por um inimigo comum, como o comunismo, e interna, dado o baixo ativismo sindical.
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