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PIB x CO2: há preço justo?

Posted By beatriz On 9 setembro, 2009 @ 9:46 am In Política Brasileira,Política Econômica | No Comments

Fonte: Valor

Por Antonio Delfim Netto 

Numa larga medida a história do homem foi construída por sua experiência prática e pela acumulação de conhecimento num movimento circular “aberto” cujo final é insondável. Às vezes, com arrogância, ele tenta teorizar como “criou” seu criador à sua própria imagem…

O resultado desta “construção aberta” é que ela foi libertando o homem de seus mitos e condicionamentos. As grandes teorias históricas, a grande história e suas “filosofias” foram esquecidas; múltiplas civilizações alteraram o “centro de gravidade geográfico” da história humana; já não se crê em raças “superiores” (somos agora, cientificamente, todos afrodescendentes); não existem religiões privilegiadas. Parece que sobrou um pequeno resíduo de verdade na explicação pedestre do desenvolvimento: ele tem condições de se materializar quando se combinam (por acidente?): 1º ) um Estado-indutor razoavelmente inteligente capaz de produzir paz e Justiça; 2º ) garantia de uma relativa igualdade; 3º ) uso eficiente dos recursos que retira da sociedade como impostos; e 4º ) permissão de ampla liberdade individual para cada um apropriar-se dos resultados de suas iniciativas.

Não há lei histórica. Não parece haver necessidade, mas cada vez que se observou a coincidência daquelas instituições (desde os registros escritos da Suméria) a humanidade “floresce”. A imaginação do homem, estimulado pelos benefícios gerados por seu conhecimento e curiosidade (as “inovações”), tende a elevar a produtividade do trabalho (com o mesmo esforço, a produção cresce). E essa liberação de energia para promover sua sobrevivência libera o homem para a construção de sua humanidade.

Os acidentes institucionais, como as condições do crescimento da produtividade do trabalho, não são definitivos. O número conhecido de sociedades bem sucedidas (em tempo limitado) mostra que elas contêm em si forças degradadoras (abuso do poder) e tendem à superutilização dos recursos naturais que garantem a reprodução do seu sustento: 1º ) ou porque estes são finitos; ou 2º ) porque a sua taxa de “recuperação e preservação” é inferior à taxa de sua degradação; ou 3º ) porque, eventualmente, foram atingidas por dramáticos fenômenos naturais. Esses fatos são cada vez mais óbvios à medida em que os historiadores perderam o vício do “eurocentrismo”. O cemitério de “civilizações” na Ásia, no Oriente Médio e nas Américas descobertas e algumas “reencarnadas” (num novo nível tecnológico) mostra bem como cada processo é “único”, idiossincrático e, no final, limitado, mas construtor de sua “identidade” que insiste nas “diferenças”.

Estamos vivendo um ciclo onde o “eurocentrismo” está passando por um máximo. Na verdade podemos continuar a insistir na soma do PIB dos EUA, da Eurolândia, do Japão, da China e da América Latina e no comércio entre eles. Mas que sentido tem somar seus “meios de pagamentos” (convertidos por “taxas de câmbio” arbitrárias) ou apelar para “multiplicadores” dos gastos governamentais, ou estimar por métodos econométricos sua liquidez? Eles são produtos de agentes públicos que pensam de forma diferente e são controlados por instituições que mesmo quando têm o mesmo nome (em inglês!) significam coisas tão diversas!

O gráfico nº 1 mostra o PIB “mundial” em paridade do poder de compra. Não é difícil aceitar que a partir da revolução agrícola que precedeu à industrial aconteceu a particular combinação favorável de instituições que aceleraram o desenvolvimento. Mas o gráfico nº 2 sugere (não prova!) que crescimento do PIB e aquecimento global foram até agora, uma espécie de produção “conjunta”: não há aumento do PIB (que todos querem) sem aumento de CO2 (que ninguém quer).

Esse é o desafio do “novo” desenvolvimento tecnológico que bate à nossa porta: poderosos avanços tecnológicos e “inovações” (auxiliadas pela evolução dos preços relativos) reduzirão dramaticamente a relação marginal CO2/PIB e abrirão novos horizontes para o PIB. Mas, como é óbvio, nenhum país poderá tentar resolvê-lo por conta própria sem sacrificar o seu próprio desenvolvimento…

Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento. Escreve às terças-feiras.


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