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Muito cedo para tirar estímulos

Posted By Imprensa On 12 setembro, 2009 @ 9:20 am In Desenvolvimento,Destaques da Semana,Internacional,O que deu na Imprensa,Política Econômica | No Comments

Por Martin Wolf

Publicado no Valor Econômico de 11/09/2009

Os países ricos discutem qual será o momento ideal para retirar o estímulos dados para a recuperação da economia.

Nossa política de ação coordenada, decisiva e sem precedentes ajudou a deter a queda e a estimular a demanda global. Dessa forma, os ministros das Finanças e presidentes de bancos centrais das principais economias de alta renda e emergentes que compõem o G20 se deram tapinhas nas costas durante o fim de semana. Eles estavam certos em fazê-lo. A resposta à crise foi essencial e também bem-sucedida. Mas é cedo demais para cantar vitória.

Ben Bernanke, recentemente nomeado por Barack Obama para um segundo mandato como presidente do Federal Reserve, reforçou o argumento no simpósio monetário Jackson Hole deste ano: “Sem estas ações prontas e contundentes, o pânico de outubro provavelmente teria se intensificado, mais firmas financeiras importantes teriam falido e o sistema financeiro global como um todo teria ficado em grave risco. O que sabemos sobre os efeitos de crises financeiras sugere que a recessão global resultante teria sido extraordinariamente profunda e prolongada”.

Dois grupos de pensadores rejeitam esse ponto de vista. Um deles sustenta que a economia está sempre em equilíbrio. Se a taxa de desemprego explodiu para cima, só pode ser porque, depois que o Lehman implodiu, os trabalhadores resolveram tirar férias. Uma opinião alternativa é que depressões são conseqüência natural de excessos. Tanto o culpado como o inocente devem sofrer, à medida que os erros do passado são expurgados. Essas opiniões foram rejeitadas. As economias não estão sempre em equilíbrio e, apesar de uma correção dos excessos em preços de ativos, mercados financeiros e consumo ter se tornado inescapável, uma espiral decrescente cumulativa não era inevitável.

O resgate do sistema financeiro, o afrouxamento monetário sem precedentes, e a expansão fiscal (grande parte desta última mais automática que facultativa) efetivamente estabeleceram um piso para a economia mundial. Analistas do JPMorgan acrescentam a isso um segundo elemento, mais transitório: “uma correção por firmas que se prepararam para condições econômicas e financeiras muito piores no começo do ano do que as que se concretizaram”. Consequentemente, agora a instituição projeta crescimento anualizado do PIB de 4% nos EUA e de 3% na zona do euro no terceiro trimestre.

Talvez o sucesso mais impressionante tenha sido a recuperação do setor financeiro. De fato, esse ressurgimento, embora bem-vindo, é constrangedor: os financistas retornaram aos seus costumes de altos ganhos, enquanto dezenas de milhões de pessoas perderam seus empregos, as economias estão muito abaixo do potencial e o endividamento do setor público está explodindo para cima. Não admira que o item das duras críticas às gratificações figure no cardápio.

Os indicadores de aversão ao risco nos mercados financeiros melhoraram acentuadamente. À medida que a confiança retornava, os mercados acionários se recuperavam, apesar de permanecerem bem abaixo dos picos do passado. Na economia real, a produção industrial se estabilizou: uma retomada substancial é provável, à medida que gira o ciclo de estoques. A maioria das projeções para 2010 mostra agora melhora mensal sucessiva, com China e Índia tomando a dianteira globalmente e os EUA liderando entre os grandes países com rendas elevadas.

O que, então, deve ser feito agora? Os ministros das Finanças do G20 estavam certos em concordar com “a necessidade de (criar) um processo transparente e confiável para remover o nosso extraordinário suporte fiscal, monetário e financeiro setorial, à medida que a recuperação se tornar firmemente assegurada”. Mas ter um plano confiável é uma questão completamente distinta de implantá-lo. Realmente, ter um plano confiável é a forma de evitar uma reversão prematura das políticas.

Muitos se preocupam com a inflação. Atualmente, isso beira a histeria. O que é mais importante, este perigo não será reduzido pela retirada prematura dos estímulos. So contrário, isso pode tornar o perigo ainda maior uma vez que pode provocar outra rodada de intervenções agressivas. Porque, então, não há um bom motivo para se preocupar com a inflação?

Acima de tudo, a economia mundial está com enorme capacidade ociosa. Isto é impossível de ser medido precisamente, especialmente depois das turbulências recentes. No seu mais recente “Panorama Econômico”, a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) estimou a diferença entre produção atual e potencial nesse ano em mais de 5% nos seus países membros. O crescimento no próximo ano precisará ser de pelo menos 2% a 3% para que esta defasagem caia. No mais recente consenso de projeções, isto não acontecerá. Em segundo lugar, mesmo os pesados endividamentos do setor público são sustentáveis. A taxa de juros real paga pelos EUA sobre sua dívida está abaixo de 2%. Portanto, servir uma relação de dívida pública líquida ante PIB de até 100% pode custar 2% do PIB.

Agora suponhamos que, em vez de manter a calma, as autoridades estivessem assustadas a ponto de praticarem um aperto fiscal e monetário prematuro. Dada a extrema fragilidade do setor privado, isso poderá causar outra retração econômica. O resultado inevitável seria mais uma rodada de medidas fiscais e monetárias emergenciais. O ponto é fundamental: medidas monetárias e fiscais excepcionais não são a causa básica do perigo. A fragilidade da economia privada está na sua origem. As medidas de política econômica são uma conseqüência.

Tudo isso transforma a implantação de “estratégias de saída” nacionais e globais numa questão de avaliação apurada. Quase certamente, erros serão cometidos. Mas está perfeitamente claro quais deverão ser os elementos vitais: bancos centrais crivelmente independentes; um compromisso verossímil com a responsabilidade fiscal, no longo prazo; e reequilíbrio da demanda global, afastando-se da dependência nos países extremamente gastadores de antigamente. Isto será fácil? Definitivamente não. Será que acontecerá? Temo que não. Mas os formuladores de políticas ao menos nos deram a oportunidade de discutir a saída. Isto é um sucesso. Agora precisamos construir uma vigorosa recuperação global baseada nisso.


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