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Energia no Brasil custa o mesmo que a europeia

Posted By Imprensa On 13 setembro, 2009 @ 11:41 am In Destaques da Semana,Internacional,O que deu na Imprensa,Política Brasileira,Roberto D'Araujo | 5 Comments

Publicado na FSP de 12/09/2009

Tarifa para consumidor residencial do país  é mais cara que a cobrada na Suíça

Em abril houve aumento de mais de 20% na tarifa de consumidores residenciais; câmbio, chuvas e modelo de privatização explicam custo

Os brasileiros pagam pela energia elétrica tarifas semelhantes às dos principais países europeus. Em ranking feito com base em dados divulgados pela Agência Internacional de Energia, o Brasil fica no meio, em 11º lugar em uma lista com 23 países. Os consumidores residenciais da Suíça, por exemplo, pagam menos pela energia do que os brasileiros.

Segundo a lista feita pela AIE (Agência Internacional de Energia), a tarifa mais cara é cobrada pelos consumidores residenciais da Dinamarca e a mais barata é a que vigora em Taiwan. A diferença entre a mais cara e a mais barata é de quase cinco vezes.

A agência listou o preço da energia para o consumidor residencial em 22 países e não incluiu o Brasil (veja quadro). A reportagem calculou o preço em dólar da tarifa residencial brasileira com base no valor em reais fornecido pela Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica), de R$ 0,29067 por kWh, convertido pela taxa de câmbio de R$ 1,82 por dólar.

Feita a conta, o Brasil fica relativamente bem colocado na lista, mas há problemas na comparação. Na lista de tarifas do documento da AIE estão incluídos impostos (para todos os países, menos os Estados Unidos), e, na tarifa fornecida pela Aneel, não. A tarifa brasileira fica aproximadamente 30% mais cara com os impostos.

Sem impostos, a tarifa brasileira fica em US$ 0,1597 por kWh, uma das mais baratas da lista, mais cara só do que as de Suíça, EUA (também sem impostos), México, Coreia do Sul e Taiwan. Com impostos, a tarifa brasileira vai a US$ 0,2076 por kWh, e o país fica em 11º entre os que cobram mais do consumidor residencial.

Aumentos

Desde o ano passado, a discussão sobre o aumento do preço da energia no país tem ganhado força e motivou a instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito na Câmara dos Deputados.

Em abril, houve aumentos de mais de 20% para consumidores residenciais e de mais de 25% para a indústria no interior de São Paulo.

A principal explicação para os aumentos foi a desvalorização do real em relação ao dólar. A taxa de câmbio impacta a tarifa por conta da energia comprada da hidrelétrica binacional de Itaipu, que é vendida com preço cotado em dólares. Além da desvalorização, houve reajuste do preço da energia de Itaipu na moeda americana.

Outro item que pressionou os custos foi a geração de usinas termelétricas (que usam combustíveis como gás e carvão) em 2008. Elas foram acionadas para evitar o esvaziamento dos reservatórios das hidrelétricas, mas seu custo de operação é mais alto.

Modelo

Além das questões conjunturais, como dólar e chuvas, no entanto, há problemas de modelo que explicam a alta. De acordo com Roberto Pereira D’Araújo, pesquisador da Coppe/UFRJ, os aumentos têm origem no modelo implantado no processo de privatização, que começou em meados da década de 1990.

Segundo ele, naquela ocasião, custos de transmissão foram incorporados à geração de energia. A ideia era valorizar os ativos (usinas) de geração que seriam privatizados. Isso acabou não acontecendo (a privatização foi principalmente na distribuição) e, depois, houve leilões de linhas de transmissão. Para remunerar a transmissão, o custo foi novamente inserido na tarifa, o que fez com que, na prática, o consumidor estivesse duplicando o seu custo com transmissão.

Outro problema, segundo o pesquisador, foi o uso do IGP-M como indexador de parte dos custos das distribuidoras. Entre 1999 e 2004, esse índice ficou aproximadamente 40% acima do IPCA.

Também com a privatização, houve a criação de encargos para custear órgãos como ONS (Operador Nacional do Sistema), CCEE (Câmara de Comercialização de Energia Elétrica), EPE (Empresa de Pesquisa Energética) e a própria Aneel.

Mesmo com a mudança de modelo, feita em 2005, foram mantidos os principais problemas que levam ao aumento das tarifas, afirma D’Araújo. Para ele, o fato de o custo da energia ser determinado pelo mercado é um entrave em um país majoritariamente hidrelétrico.


5 Comments (Open | Close)

5 Comments To "Energia no Brasil custa o mesmo que a europeia"

#1 Comment By josé almeida de souza jr. On 17 setembro, 2009 @ 12:38 pm

A tarifa mais cara para o setor residencial é um excelente incentivo para a aplicação em alternativas (geladeiras mais eficientes, lâmpadas fluorescentes compactas, aquecedores solares de água, tomadas chaveadas, etc.). O importante para o consumidor residencial não é o valor da tarifa, mas sim o valor da conta final. Tarifas mais baixas só levariam a um uso ainda mais irracional de eletricidade no setor residencial; exemplo disso é a predominância do chuveiro elétrico,da lâmpada incandescente, da geladeira ineficiente, etc. apesar do elevado custo da eletricidade. Mesmo que o absurdo processo de privatização seja revertido, rebaixar as tarifas seria um retrocesso pelo fechamento objetivo que causaria à implementação de alternativas à matriz elétrica predominante, que, em sua fase de crescimento, resultou na energia “barata e farta” de outrora, no lugar de salários mais compatíveis para a maioria dos consumidores residenciais. O problema todo é querer fazer política distributiva através de preços administrados. Isto é atraso!

#2 Comment By Rodrigo Medeiros On 17 setembro, 2009 @ 1:44 pm

Grandes empresas não costumam ser constrangidas pela disciplina de mercado. A última queda de Wall Street, no segundo semestre de 2008, é rica em lições. “Grandes demais para quebrar” disseram alguns analistas de mercado sobre certas organizações.

O que dizer da nacionalização da GM? Atraso?

No caso do setor energético, a competição imperfeita, com destaque para os monopólios naturais, é facilmente identificável em diversos contextos nacionais. Eficiência energética é compatível com preços administrados em ambientes de monopólio natural.

#3 Comment By josé almeida de souza jr. On 18 setembro, 2009 @ 10:28 am

Em continuidade ao meu primeiro comentário:

Outro motivo pelo qual as tarifas são elevadas para o setor residencial no Brasil deve-se à prática do setor elétrico de seguir a demanda do mercado sem emitir sinais mais adequados de preço. A curva de carga não é constante. Nos momentos de pico, acionam-se as termelétricas a gás, por exemplo, uma energia mais cara; fora do pico, desligam-se estas usinas, mas outros custos relacionados às mesmas devem ser ressarcidos. Por outro lado, fora dos picos, há ampla disponibilidade de energia. No passado era inviável emitir sinais de mercado mais precisos, por conta de uma impossibilidade tecnológica (medidores elétricos incapazes de registrar o consumo e o momento deste). Hoje, esta tecnologia já existe (os medidores eletrônicos “inteligentes”). Se fossem a partir de hoje difundidos, ao invés de uma tarifa, poderíamos ter uma gama delas de acordo com a curva de carga. Bem como a possibilidade de uma conta de eletricidade mais acessível para a maioria dos consumidores (o que é, ao fim e ao cabo, a questão relevante), além de um poderoso indutor à inovação tecnológica, traduzível, entre tantas outras coisas, em mais renda, mais empregos e possibilidade de maior preservação ambiental. Ao invés de incentivar o barramento até o último rio, o Estado também pode intervir no sentido de uma ampliação mais criativa da matriz energética brasileira. Em outras palavras, é mais sensato considerar que a questão energética não passa somente pela dogmática ampliação exponencial da oferta, como se faz ainda, em grande medida.

#4 Comment By Rodrigo Medeiros On 18 setembro, 2009 @ 10:52 am

Recomendo os artigos do Roberto: [6]

Ainda em tempo, do “Valor Econômico” (17/09/09):

A cúpula do clima de Copenhague, em dezembro, vai tratar de dinheiro. Terá de definir como financiar a adaptação dos países em desenvolvimento às mudanças climáticas. Serão, provavelmente, centenas de bilhões de dólares em investimentos. Há, por enquanto, três propostas mais prováveis sobre a mesa e nenhum consenso.
A conferência de Copenhague, chamada de COP-15 e organizada pela ONU, reunirá quase 200 países e será o principal evento sobre mudanças climáticas do ano. Um de seus principais temas é como financiar a transição das economias em desenvolvimento para o baixo carbono.
Negociação vai definir que países poderão crescer, diz pesquisador
A remissão cinematográfica não evoca uma imagem agradável. “Imagine um mundo de ‘Guerra nas Estrelas’ no centro e um enorme muro que o separa da realidade árida de ‘Mad Max’”, diz o inglês Duncan Green, chefe de pesquisas da Oxfam, a ONG de perfil social que trabalha pelo fim da pobreza e desigualdade social no mundo. Isto, segundo ele, é o que poderia acontecer no futuro se não se chegar a um acordo climático justo e satisfatório em breve.
Dentro do tal muro vivem as populações de um grupo de países ricos e muito tecnológicos, capazes de se proteger da destruição provocada pela mudança climática e de controlar o acesso ao carbono dos gases-estufa. Do lado de lá desta espécie de “cortina de carbono”, diz Green, “estariam países e comunidades pobres, vivendo em uma Nova Idade Média, sujeitos a condições climáticas cada vez mais instáveis e devastadoras, incapazes de ter acesso ao carbono necessário para se unir ao grupo dos ricos.”
Há outra maneira de ver o desafio enorme que o mundo tem pela frente para enfrentar a mudança do clima. Para que a temperatura do planeta não aqueça mais que 2°C no fim do século e, assim, possam ser evitadas grandes catástrofes, todas as pessoas, de todos os países, poderiam emitir apenas 1 ou 2 toneladas de carbono em 2050. Hoje os europeus emitem, em média, 10 toneladas per capita, os chineses, 5 toneladas, e os americanos, 23 toneladas.
“Isto significa um choque econômico e tecnológico enorme”, diz ele. Resolver esta equação, que impõe limites ao crescimento, no seu entender passa pela vertente tecnológica e pela resposta a quem terá direito ao crescimento. “Mas a ciência não tem uma bala mágica, não terá todas as respostas”, adverte.
Ele diz, por exemplo, que se fosse possível que o mundo inteiro tivesse acesso, hoje, às técnicas mais avançadas e limpas e todos pudessem ser tão eficientes em suas emissões de carbono como a Alemanha, o Japão, o Reino Unido e a Suíça, as emissões globais de carbono cairiam cerca de 43%. Isso daria dez anos a mais de prazo para que as emissões globais sejam reduzidas em 80% em relação aos níveis registrados em 1990, em 2050. Nada muito animador mesmo na hipótese de ficção.
“O debate em torno do aquecimento global e do tratado climático coloca a seguinte questão ao mundo: quem tem direito a crescer?”, questiona Duncan. “Este é um tema de difícil resposta política.”

Link: [7]

#5 Comment By Roberto Pereira d’Araujo On 18 setembro, 2009 @ 4:19 pm

Sobre essa reportagem, que, inclusive me consultou, quero dizer o seguinte. Se o critério para a tarifa ser cara ou barata é a comparação internacional, coteje-se esses preços com países com a mesma matriz energética. Não me venham dizer que é barata porque os italianos e japoneses pagam mais. Não há melhor sistema do que o Canadá, pois é o único que, além de ser predominantemente hidroelétrico, tem grandes reservatórios e teve as duas experiências: serviço pelo custo e mercado.
Não sou defensor de tarifas baratas para induzir um consumo perdulário. Estou apenas defendendo a idéia de que há algo errado nas tarifas brasileiras, que estão tão absurdamente acima de suas similares, que é preciso examinar todo o processo. Na realidade, nem é preciso comparar com outro país. Basta comparar com o Brasil de 1996, já sob o mesmo modelo elétrico.
Sobre horários de pico, tenho a dizer que no nosso caso, a grande questão não é a ponta da curva de carga, pois o parque gerador brasileiro tem máquinas suficientes para gerar essa energia. O nosso problema é o período seco, e nesse caso há enormes absurdos, pois ligam-se térmicas que não formam preço no mercado livre que, dessa maneira, fica isento de “conservadorismos” do operador. Esse custo extra é jogado para o mercado cativo que sustenta vantagens estruturais de um mercado spot sui-generis onde, só consumidores livres, comercializadores e térmicas se aproveitam do viés de preços baixos


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[1] Grande Entrevista com Paulo Henrique Amorim!! PHA / REVISTA FÓRUM: DANTAS COMPROU PARTE DO PT: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/04/grande-entrevista-com-paulo-henrique-amorim-pha-revista-forum-dantas-comprou-parte-do-pt/

[2] Novo Capítulo do Dossiê do Nassif x Veja: As relações incestuosas na mídia: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/04/novo-capitulo-do-dossie-do-nassif-x-veja-as-relacoes-incestuosas-na-midia/

[3] Paraguai não pode ser uma ilha entre as outras nações”: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/04/paraguai-nao-pode-ser-uma-ilha-entre-as-outras-nacoes%e2%80%9d/

[4] Chegou o tempo dos idealistas: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/04/as-duas-faces-do-projeto-mediocratico-no-brasil/

[5] EDMUND PHELPS, NOBEL DE ECONOMIA 2006, É ENTREVISTADO NA VEJA: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/04/edmund-phelps-nobel-de-economia-2006-e-entrevistado-na-veja/

[6] : http://desempregozero.org/category/todos-nossos-autores/roberto-daraujo/

[7] : http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=66083

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