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Confissões e verdades raras
Posted By Imprensa On 7 setembro, 2009 @ 12:36 pm In Conjuntura,Desenvolvimento,Destaques da Semana,O que deu na Imprensa | No Comments
Por Thomaz Wood Jr.
Fonte: CartaCapital [1]
Em meados da década de 1990, as empresas de consultoria estavam eufóricas. A liberalização econômica, iniciada na década anterior, implantara um clima de desassossego no mundo corporativo. Beneficiada pelo pânico latente, a indústria do conselho comemorava ano após ano crescimentos a taxas de dois dígitos. À luz da ribalta, sucediam-se cenas de superação e sucesso. Nos bastidores, entretanto, a realidade não era tão dourada. Eis que, na curvatura da década, um consultor anônimo publicou, na revista Fortune, uma inspirada diatribe. Sob o sugestivo título Confissões de um ex-Consultor, o impenitente autor revelou mazelas de seus pares e clientes.
Começou por explicar a necessidade de consultores: em uma escala de 0 a 10, os presidentes de empresas são nota 5; eles (e elas) são profissionais medianos, que circularam pela empresa tempo suficiente para mostrar que são minimamente confiáveis; então, precisam dos consultores para resolver os problemas mais difíceis. Os consultores, por sua vez, têm mais interesse nos problemas do que nas soluções, e raramente têm a experiência de implementar suas próprias receitas. Eles flanam de cliente em cliente sem nunca realmente fincar o pé na realidade; cultivam a arte de se fazerem indispensáveis; e gastam mais tempo tentando vender novos projetos para seus clientes do que resolvendo problemas. E arremata: “Você pode não estar doente, mas o diagnóstico de um consultor vai convencê-lo de que você está”. Curiosamente, algumas organizações viciam-se em consultores. Por falta de confiança em seus próprios quadros, elas terceirizam as decisões estratégicas, a gestão e até a liderança.
As empresas de consultoria forneceram o emprego dos sonhos na década de 1990. Nos anos 2000, os bancos de investimento tomaram seu lugar. Com salários e bônus estratosféricos, eles passaram a atrair os mais ambiciosos formandos das escolas de negócios. Em 2008, no ápice da crise econômica, a revista The Economist franqueou suas páginas para outro anônimo, um gestor de riscos, iluminar os bastidores dos bancos de investimento. No testemunho, o autor explicou sua missão: monitorar o nível de risco do portfólio de negócios do banco e aprovar pedidos de crédito e transações encaminhadas pelo pessoal da linha de frente. Para as áreas de negócios, seu trabalho representava apenas custos. Pior, a capacidade de impedir negócios tornava-o uma ameaça aos bônus de seus pares. Entretanto, no bilionário jogo de interesses, seu departamento desempenhava um papel menor: enquanto as equipes de negócios tinham semanas para desenvolver propostas de negócios, o pessoal de riscos tinha apenas algumas horas para preparar seus argumentos. Ao longo do tempo, a possibilidade de ganhos rápidos, aliada a uma inibição sistemática da prevenção de riscos, construiu a base para o desastre que todos assistimos. Pode ter sido surpreendente para a audiência desatenta, mas não para quem tivesse observado as temerárias práticas de gestão dos bancos de investimento.
Uma terceira confissão, desta vez assinada, mostrou os bastidores do polêmico Fundo Monetário Internacional. Simon Johnson foi economista-chefe da instituição. Nas páginas da revista Atlantic, ele revela uma faceta pouco conhecida da ação do FMI. Johnson acusa a indústria financeira de ter capturado o governo norte-americano. E afirma que se o staff do FMI pudesse se expressar abertamente, diria que a recuperação da economia falhará, a menos que a oligarquia financeira que bloqueia as reformas necessárias seja enfrentada. Johnson lembra que as crises que muitas nações enfrentam têm uma raiz similar: a ação temerária das elites. Nos países emergentes, o governo e seus aliados do setor privado comumente formam alianças de conveniência, tomando decisões em benefício próprio. Invariavelmente, desperdiçam dinheiro e acumulam débitos. Mais cedo ou mais tarde, as condições de crédito se deterioram, ameaçando a economia. O governo apela para suas reservas, que eventualmente secam. A solução indica o sacrifício de parte da oligarquia, mas essa opção é frequentemente inaceitável. Na hora de “espremer” alguém, é mais fácil mirar a população, pelo menos até que os protestos cresçam demais.
Cada uma dessas confissões deixa um sabor agridoce no leitor. Vislumbrar os bastidores corporativos é didático e instrutivo. Entretanto, a raridade de confissões como essas mostra quão pouco conhecemos de instituições que afetam nossa vida. Duas décadas de internet aumentaram a exposição e a transparência da ação humana no planeta. Curiosamente, os bastidores do mundo das organizações continuam protegidos por uma cortina de silêncio, que raramente é aberta.
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[1] CartaCapital: http://www.cartacapital.com.br/app/coluna.jsp?a=2&a2=5&i=4986
[2] Sobre o papel do Estado: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/sobre-o-papel-do-estado/
[3] Tem São Paulo demais: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/tem-sao-paulo-demais/
[4] EDITORIAL do Cadernos do desenvolvimento do centro Celso Furtado: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/editorial-do-cadernos-do-desenvolvimento-do-centro-celso-furtado/
[5] País perdeu os 'anos de ouro' da economia mundial: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/pais-perdeu-os-anos-de-ouro-da-economia-mundial/
[6] Espantando o vôo de galinha: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/espantando-o-voo-de-galinha/
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