A bolha que ainda não estourou
Escrito por Imprensa, postado em 6 dEurope/London agosto dEurope/London 2009
Por Matthew Lynn
Fonte: Valor Econômico (05/08/2009)
A bolha dos bônus estourará, pois não se pode esperar que governos mantenham eternamente uma elite remunerada
Nos últimos 18 meses, explodiram praticamente todas as bolhas de investimentos no mundo. O mercado imobiliário foi ao colapso, ações despencaram, commodities desabaram e até mesmo no mundo das artes os preços baixaram da estratosfera. Mas há uma bolha que se recusa a estourar: os bônus pagos aos executivos do setor bancário.
Mesmo depois de receber bilhões de dólares em dinheiro governamental para socorrer o setor – cuja “cultura de benefícios” foi identificada como uma das causas da crise de 2008 -, os executivos de bancos de investimentos reassumiram seus velhos hábitos. No entanto, a lição que podemos tirar do ano passado é que todas as bolhas acabam estourando. Os bônus gigantescos estão se mantendo à tona, sobre uma onda de dinheiro barato e com o suporte do contribuinte do fisco. Um dia, essa sustentação será removida e as consequências danosas serão enormes. O setor bancário deveria ter se modificado enquanto teve a chance. Agora pode ser tarde demais for tentar.
Ninguém pode ter deixado de notar como os executivos bancários estão novamente começando a faturar altíssimo. Na semana passada, o secretário de Justiça do Estado de New York Andrew Cuomo disse em relatório que o Citigroup Inc., o Merrill Lynch & Co. e sete outros grandes bancos americanos pagaram US$ 32,6 bilhões em bônus em 2008, tendo, por outro lado, recebido US$ 175 bilhões em dinheiro do contribuinte. Isso foi em 2008, durante a fase mais profunda da crise. Tendo em vista o fortalecimento dos mercados e o retorno da confiança, esse tipo de remuneração será, neste ano, ainda maior. O Goldman Sachs Group Inc. já incrementou seu pacote de remuneração e benefícios em 33% no primeiro semestre deste ano, reservando um recorde de US$ 11,4 bilhões para essa classe de pagamentos.
No Reino Unido, são tão crescentes as evidências de que os bônus estão novamente escapando de controle que a Autoridade de Serviços Financeiros (FSA, na sigla em inglês), principal agência regulamentadora financeira no país, ameaçou agir repressivamente. A FSA advertiu que bônus “garantidos” podem desrespeitar seu novo código de conduta. Seu chairman, Adair Turner, disse recentemente ao Parlamento estar preocupado com o fato de os bancos estarem voltando a abraçar suas “práticas históricas” na maneira como remuneram seu pessoal. Agora estamos esperando para ver que reação haverá na Alemanha a tentativas legais de ex-funcionários do Dresdner Bank de extrair bônus de sua companhia controladora, o Commerzbank, sediada em Frankfurt. Alguns dos processos reivindicatórios foram extintos mediante acordos extrajudiciais e não resta dúvida de que os executivos bancários levaram muito dinheiro para casa. Os contribuintes alemães não terão qualquer dificuldade para concluir que seu dinheiro está sendo usado para socorrer financistas irresponsáveis.
Todo aquele discurso sério sobre reformular o sistema resultou em muito, muito pouco. Algumas boas ideias foram postas na mesa: criar bônus também negativos, e não apenas positivos, ou distribuir pagamentos por períodos de vários anos, por exemplo.
Entretanto, neste momento há poucos sinais de que qualquer uma delas tenham sido implementadas.
Quanto mais de perto examinamos a questão dos bônus, mais eles nos lembram bolhas. O preço dos “banqueiros” se desacoplaram das forças reais de oferta e demanda – assim como ocorreu com os preços das ações de empresas “ponto com” no auge daquela febre, ou com os preços de novas casas nos EUA, na Espanha ou no Reino Unido no pico do boom no mercado habitacional. As pessoas pagam o preço porque todo mundo está fazendo a mesma coisa, e não porque acreditam que realmente vale a pena. As pessoas dão de ombros, suspendem sua incredulidade e argumentam que o ativo em questão está imune às leis costumeiras da economia que, por alguma razão complicada, elas não têm realmente tempo para explicar.
Essa é uma boa definição para qualquer bolha. E, como em cada bolha, tudo vai bem na alta e é extremamente doloroso na descida. Afinal de contas, o ano passado provou que nenhuma bolha pode inchar indefinidamente. Com base nessa lógica, um dia os bônus bancários sofrerão um colapso. A questão não é se, mas quando.
Neste momento, os bancos de investimentos estão recebendo apoio governamental. Por vezes esse apoio é explícito, mediante investimento estatal direto. Outras vezes, é implícito: os bancos podem tomar dinheiro emprestado barato nos mercados de títulos ou recursos de contas correntes bancárias porque são garantidos pelos governos. De uma ou outra maneira, o suporte é o que mantém o setor inteiro à tona.
Com suficiente ajuda governamental, uma bolha pode durar muito tempo. Se o Estado tivesse despejado centenas de bilhões de dólares para dar sustentação às jovens empresas de internet, todo tipo de empresas “ponto com” poderia ainda estar operando. Departamentos governamentais inteiros estariam contando cliques em páginas de sites, na vã esperança de que um dia o setor saísse do vermelho. Analogamente, se os governos dos EUA, Reino Unido ou Espanha tivessem entrado no mercado para comprar cada novo apartamento construído no meio do nada a preços inflados, então, a bolha de empréstimos subprime ainda estaria superaquecida. Ministérios inteiros estariam ponderando o que poderiam fazer com edifícios onde ninguém parecia querer morar.
A bolha dos bônus estourará, um dia. Isso é certo. Não se pode esperar que governos mantenham eternamente em atividade uma elite remunerada. Nos EUA, o Congresso está buscando maneiras de limitar a remuneração paga aos executivos bancários. O mesmo está fazendo o governo alemão. E o Parlamento britânico está discutindo um leque de limites para a remuneração. Seis meses atrás, houve algum impulso no sentido de uma reformulação na maneira como o setor financeiro remunera seu pessoal. Poderia ter reduzido os bônus, vinculado remuneração a desempenho e condicionado os funcionários à sobrevivência dos bancos para os quais trabalham.
Essa oportunidade passou. Agora, o setor está esperando que algum outro agente faça o trabalho por si. Os “banqueiros” não vão gostar muito quando acontecer.











11 dEurope/London agosto, 2009 as 1:20 pm
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