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A supremacia dos superbacharéis
Posted By Imprensa On 31 julho, 2009 @ 4:25 pm In Conjuntura,Desenvolvimento,Política Brasileira | No Comments
Por Wilson José Vieira, Engenheiro Nuclear, Ph.D.
Fonte: Democracia e Transparência em C&T [1]
A pós-graduação no Brasil é um sucesso inquestionável. Exibimos com legítimo orgulho a formação de quase 10.000 doutores por ano, mais de 2% da produção científica mundial, a 13ª posição no ranking de número de artigos científicos publicados, Petrobrás, Embraer, Embrapa e outros exemplos de nossa grandeza em Ciência e Tecnologia (C&T). Muito bom. Mas, podemos fazer melhor?
Somos um país enorme. O Brasil possui inúmeros professores e pesquisadores excelentes que o engrandecem mundialmente. Temos milhares de excelentes alunos que vão contribuir decisivamente para nosso desenvolvimento. Temos milhares de homens e mulheres altamente qualificados formados para ajudar no desenvolvimento de nossa sociedade e especializados nas várias subáreas de subáreas de subáreas do conhecimento científico. No entanto, também temos inúmeros professores e pesquisadores doutores que orientam dezenas de teses semelhantes, que publicam centenas de artigos semelhantes, que muitas vezes têm muito pouco a contribuir para o desenvolvimento em C&T e para a solução dos problemas reais do País.
O problema se agrava quando são escolhidas linhas de pesquisa de interesse dos países tecnologicamente dominantes e de suas grandes editoras de periódicos internacionais. Nesse caso, é possível que ciência, feita e paga aqui, possa eventualmente se transformar em tecnologia lá fora e, eventualmente, poderíamos importar produtos com essa tecnologia, pagando caro, muito caro. No entanto, esses trabalhos interessam muito mais aos próprios autores, cuja motivação principal é pertencer à “Casta dos Superbacharéis” (CB, Opinião, 7/2/09).
Por um lado, essa casta, dos que possuem metros e metros de currículo, absorve grande parte dos poucos recursos financeiros para pesquisa do País para produzir mais metros e metros de mais currículo. Por outro lado, muitos dos que se propõem a fazer alguma coisa mais necessária são indeferidos quando não têm metros e metros de currículo. Por quê? Porque quem decide quem deve receber recursos e auxílios tem metros e metros de currículo. As propostas para projetos, bolsas e auxílios financeiros são avaliadas por esses especialistas que julgam também o mérito como critério de aprovação. No entanto, vejam só, concluem que a maioria das propostas tem mérito! Que ótimo! Naturalmente, leva quem tem o maior currículo.
Pergunto quantos “papers” sobre a dengue foram produzidos no Brasil? Quanto se pesquisa sobre o problema de favelas? Quantos pós-graduandos trabalham com saúde pública? Saneamento? Meio ambiente? Energia? Respondo: muito menos do que deveríamos, pois esses assuntos não dão tanto “paper”. Por exemplo, o caso da dengue: temos inúmeros cientistas brilhantes que poderiam ser valorizados por se dedicar apenas a este problema. No entanto, um grande pesquisador não poderia se dedicar a um problema maior, pois tem que publicar e publicar e publicar.
Enquanto fazemos pouco para solucionar nossos problemas, quantos trabalhadores qualificados não vão ser formados? Quanto mais dinheiro vai ser gasto nos doentes excedentes? Quanta educação não será dada? Quanta violência será mais cometida? Nossos gestores em C&T deveriam prestar contas à sociedade brasileira mostrando também melhorias nos indicadores sociais e tecnológicos e não apenas nos científicos.
A solução para essa situação começa com o combate à tirania do “currículo por metro” e à supremacia dos superbacharéis. É necessário discutir a extinção de bolsas de produtividade que incentivam o surgimento de castas; não premiar a prática do “currículo por metro” com verbas e cargos; construir mais capacidade no MCT, ME e nas agências de fomento para julgar valor e estabelecer prioridades para as propostas submetidas; instruir os comitês de avaliação a não determinarem suas escolhas pelo tamanho do currículo do candidato; fomentar soluções para problemas nacionais em todas as áreas do conhecimento; etc.
Os benefícios da adoção dessas soluções serão vistos rapidamente a partir da motivação dos professores e pesquisadores em geral. Cada um poderá competir com suas idéias. Em seguida, uma nova maneira de pensar o País em primeiro lugar irá contaminar nossa elite em C&T. Ao encontrarmos soluções para nossos problemas, certamente, vamos ter mais crescimento, mais investimento, mais salários dignos, mais saúde, mais educação, mais qualidade de vida.
Temos tido bastante sucesso com as recentes políticas de C&T, tanto federais quanto estaduais, mas podemos fazer muito melhor.
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[1] Democracia e Transparência em C&T: http://www.democracia-e-transparencia-em-ct.blogspot.com/
[2] Sobre o papel do Estado: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/sobre-o-papel-do-estado/
[3] Tem São Paulo demais: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/tem-sao-paulo-demais/
[4] EDITORIAL do Cadernos do desenvolvimento do centro Celso Furtado: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/editorial-do-cadernos-do-desenvolvimento-do-centro-celso-furtado/
[5] País perdeu os 'anos de ouro' da economia mundial: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/pais-perdeu-os-anos-de-ouro-da-economia-mundial/
[6] Espantando o vôo de galinha: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/espantando-o-voo-de-galinha/
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