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A conspiração vai continuar…

Posted By beatriz On 8 julho, 2009 @ 9:04 am In Política Brasileira,Política Econômica | 1 Comment

Fonte: VALOR

Por Antonio Delfim Netto

A competente jornalista Cláudia Safatle, que ilumina este espaço às sextas-feiras, publicou um excelente artigo no qual revelou as ideias que, a respeito da taxa de câmbio, circulam entre nós. O seu título foi “Tudo conspira pela apreciação do câmbio”. Pode até ser verdade, mas há controvérsia!

As considerações entre câmbio “valorizado” e distribuição de renda exigem maior precisão sobre suas hipóteses e pesquisas empíricas de efetiva causalidade, antes que se possa tirar delas as consequências sugeridas. A troca pode ser entre salário real e lucro real,  mas ela será temperada pelo nível de investimento e emprego, o que impõe considerações sobre o longo prazo e exige, portanto, uma análise dinâmica. Sobre o que não há qualquer dúvida, por exemplo, é o fato que taxa de juro real interna acima da externa para sustentar câmbio valorizado transfere renda do setor produtivo (trabalhador e empresário) para o setor financeiro rentista, sem nenhum benefício para o emprego e para o desenvolvimento econômico.

A discussão sobre a taxa de câmbio é mesmo inexorável e vai continuar porque suas duas encarnações, como preço relativo (entre os bens transacionáveis e os não transacionáveis) ou preço de um ativo financeiro (quando há liberdade de movimento de capitais) juntamente com a taxa de juro real e o salário real, são as variáveis determinantes do equilíbrio macroeconômico.

Desde logo é preciso reconhecer que essa discussão, mesmo quando pretende a objetividade “científica”, sempre envolverá um viés. De um lado, teremos os elegantes “cientistas” do equilíbrio, evangelistas da doutrina do mercado perfeito e da sua misteriosa capacidade de produzir os preços relativos ótimos que levam à maximização do bem estar. Sabemos que com hipóteses restritivas convenientemente escolhidas eles “existem”. O que não sabemos é se há algoritmo que nos leve a eles! De outro, teremos alguns céticos corrompidos pela ideia que o desenvolvimento econômico não é, seguramente, o resultado natural da “ciência do equilibrismo”. É um fenômeno idiossincrático estimulado por um estado-indutor amigo dos “mercados”, cuidadoso com as suas finanças e portador de alguma ousadia.

Apenas para dar um exemplo: mesmo no caso simples das relações entre a taxa de câmbio e a taxa de juros, que teria tudo para ser um fato objetivo na “explicação” do “carry trade”, as diferenças de opinião são fantásticas. No dia 19 de junho um reconhecido especialista brasileiro assegurava que o “carry trade” não pagava. No mesmo dia especialistas em Nova York, diziam (via Bloomberg) que bons lucros podiam ser feitos com o real brasileiro e o rand sul-africano! Trata-se, obviamente, da deformação que a aritmética sofre quando atravessa o Equador…

Com relação a salário real e distribuição de renda em função do nível da taxa de câmbio, a diferença de enfoque é mais produto de confusão do que real. “Desvalorização” ou “valorização” (no caso brasileiro “supervalorização oportunística”), são conceitos relativos a uma suposta taxa de câmbio de equilíbrio (que funde as duas “encarnações” referidas acima) e cuja existência depende da rápida convergência da taxa de juro real interna para a externa.

A respeito, nada mais instrutivo do que observar o que aconteceu com a taxa de câmbio “real” da Alemanha e seus efeitos sobre o emprego depois da unificação das moedas da comunidade europeia. Alemanha, França e Itália fixaram, irretratavelmente, suas taxas de câmbio nominais no euro, o que significa que as relações deutsch-mark/franco e deutsch-mark/lira e franco/lira foram estabelecidas para sempre. Por um lado as finanças públicas da França e da Itália se beneficiaram imediatamente da queda de juros dos papéis com que financiam as suas dívidas, que passaram a ser nominadas numa moeda mais confiável, o euro. Por outro lado, lentamente, França e Itália viram suas exportações e importações se alterarem em benefício da Alemanha: as exportações da Alemanha para a França e Itália cresceram e as exportações da França e da Itália para a Alemanha diminuíram. Tudo se passava como se tivesse havido uma desvalorização da moeda alemã com relação à francesa e italiana.

O que houve? Apenas isto: combinado com o governo, o corporativismo que domina o mercado de trabalho alemão aceitou algumas pequenas “reformas” no nível microeconômico objetivando o aumento do nível de emprego. Para estimular as exportações (40% do PIB), os sindicatos aceitaram, também, uma moderação dos aumentos salariais: o custo unitário do trabalho na Alemanha cresceu entre 2001/06, 0,2% ao ano, contra 2% na França e 3% na Itália. Isso desvalorizou efetivamente a relação salário/câmbio (que é a taxa de câmbio que importa) da Alemanha. A relação entre taxa de câmbio e distribuição de renda talvez seja um pouco mais complicada do que parece e precisa, também, ser entendida dinamicamente.

Toda essa discussão sobre o “nível” da taxa de câmbio deixa de lado as danosas consequências de sua “volatilidade” sobre o investimento nos setores de exportações potencialmente competitivas na indústria e nos serviços. Estes são os únicos que poderão nos ajudar a dar emprego a 146 milhões de brasileiros com idade entre 15 e 65 anos em 2020.

É por tudo isso que a discussão civilizada sobre o papel da taxa de câmbio no processo de desenvolvimento deve continuar. Mesmo porque, no dia 30 de junho, praticamente todos os Bancos Centrais do mundo (até o suíço!) estavam intervindo para evitar a valorização das suas moedas no momento de recessão…

Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento. Escreve às terças-feiras.


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#1 Pingback By Blog do Desemprego Zero » Blog Archive » Boletim semanal: BNDES x Bird, Petrobrás, Senado, Dantas, Honduras On 14 julho, 2009 @ 12:09 pm

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