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Masoquismo intelectual
Posted By beatriz On 24 junho, 2009 @ 1:17 pm In Política Brasileira,Política Econômica | No Comments
Fonte: Carta Capital
Por Delfim Netto
A semana passada foi marcada por dois fatos curiosos que revelam a tendência ao masoquismo que domina parte da mídia e da intelectualidade brasileira. O primeiro foi revelado na decepção que invadiu alguns “analistas” financeiros com a publicação, pelo IBGE, da taxa de crescimento do PIB entre o quarto trimestre de 2008 e o primeiro de 2009 – menos 0,8%. É verdade que mesmo os mais otimistas estimavam que o número não seria melhor do que menos 1%. Os pessimistas sugeriam queda de 2% a 2,5%. Os “terroristas” garantiam que seria em torno de 3,5%!
A reação imediata desses últimos foi de incredulidade. Depois, um sorrisinho maroto sobre a “qualidade” da informação que sugere, pelo gesto, uma manipulação. Alguns – com idiotia reconhecida há muito tempo – lembraram que “intervenções” já ocorreram no passado, o que é absolutamente falso. Se há uma instituição cujo corpo funcional preservou sua integridade é o IBGE.
O segundo foi espelhado nas manchetes de 11 de junho de todos os grandes jornais nacionais: “O Copom surpreendeu o mercado com uma redução de 100 pontos da taxa Selic”. Mas surpreendeu a quem? Certamente, não os céticos com a qualidade de nossa política monetária. Lembremos apenas que, em setembro, quando o sistema financeiro internacional estava caindo aos pedaços e reduzindo velozmente sua taxa de juros, o Copom elevou a taxa Selic porque acreditava na fantasia do “descolamento”. A despeito da tragédia mundial, o Brasil continuaria crescendo a 6% e, portanto, seria vítima de uma aceleração da taxa de inflação. Para preveni-la, aumentou em 100 pontos a taxa Selic…
Surpresa por quê? Provavelmente, cabia perfeitamente uma redução de 150 pontos com benefícios para os setores público e privado sem ameaçar o equilíbrio interno e melhorando o externo. Surpresa e até desapontamento (traição do Banco Central?) apenas para a inteligência numericamente majoritária, apurada por amostragem televisiva, desse famoso ente platônico – o “mercado financeiro” – que havia precificado, do alto de sua “ciência”, que a manobra deveria ser de 75 pontos.
É conhecida a queda no primeiro trimestre de 2009 com relação ao quarto trimestre de 2008 (-0,8%) e já está praticamente terminado o segundo trimestre, cuja “sensação térmica” parece um pouco melhor. Talvez seja possível fazer hipótese razoavelmente realista sobre como terminaremos 2009, uma vez que a política econômica está dada. A política fiscal “anticíclica” poderia ter sido melhor postergando os gastos de custeio permanentes e transferindo recursos para os investimentos, que não exigem custeio futuro e aumentam a produtividade do setor privado. Isso facilitaria a continuidade do equilíbrio fiscal e da redução da relação Dívida Pública/PIB. A política monetária, depois de um atraso de nove meses, ainda não completou sua tarefa de irrigar liquidez, particularmente a das pequenas e médias indústrias. Estas são as maiores criadoras de empregos e têm sido ainda prejudicadas pela “supervalorização” do real.
Quanto tempo ainda vamos demorar para aprender: 1. Que a liberdade de movimento de capitais não é da mesma natureza (não obedece às vantagens comparativas) da liberdade de movimento de bens. 2. Que ela exige a igualdade entre a taxa de juros real interna e externa. 3. Que no mundo real (não nos livros-texto) a taxa de juros é determinada menos pelos “fundamentais” (há controvérsia sobre quem são eles…) e mais pela ação dos bancos centrais.
Parece que a política econômica para o segundo semestre não trará nenhuma surpresa significativa. Diante disso, talvez seja possível fazer algumas hipóteses plausíveis sobre o futuro imediato: a) Que o segundo trimestre tenha crescido 0,5% sobre o primeiro. b) Que, no terceiro trimestre, quando todos os estímulos estiverem funcionando, o crescimento seja de 1,2% sobre o segundo. c) Que a partir daí o crescimento seja de 1% sobre o trimestre anterior até o fim de 2010. Teríamos, com essas hipóteses, os seguintes crescimentos anuais em comparação ao mesmo período do ano passado.
A má notícia é que, mesmo com a economia crescendo a partir do terceiro trimestre de 2009, o PIB registrará taxa negativa para o terceiro em relação ao análogo de 2008, que será conhecida com defasagem de três meses no fim de dezembro, quando já estaremos rodando em torno de 1,9% de crescimento anual. Com essa hipótese, o PIB registrará, em 2009, uma taxa negativa em torno de 1% em relação a 2008. Nada é certo: um maior esforço no terceiro trimestre poderá nos aproximar do terreno do crescimento positivo ainda em 2009.
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