Um mundo desglobalizado?
Escrito por Imprensa, postado em 12 dEurope/London maio dEurope/London 2009
Fonte: Valor Econômico (12/05/2009)
Os países emergentes terão de substituir políticas que operam através do câmbio por políticas industriais reais
Poderá demorar alguns meses ou um par de anos, mas de uma forma ou de outra os EUA e outras economias avançadas irão acabar se recuperando da atual crise. É improvável, porém, que a economia mundial, então, se assemelhe à atual.
Mesmo passado o pior da crise, provavelmente nos encontraremos em um mundo algo desglobalizado, um mundo no qual o comércio internacional crescerá mais lentamente, haverá menos financiamento externo e a disposição dos países ricos para incorrer em grandes déficits em conta corrente será substancialmente menor. Será isso trágico para os países em desenvolvimento?
Não necessariamente. O crescimento no mundo em desenvolvimento tende a se dar segundo três variantes distintas. Primeiro, há o crescimento impulsionado por empréstimos estrangeiros. Em segundo, há o crescimento como subproduto de alta nos preços de commodities. Em terceiro lugar, há o crescimento resultante de reestruturação econômica e diversificação em novos produtos.
Os primeiros dois modelos estão em maior risco do que o terceiro. Mas não devemos perder o sono por eles, porque são inadequados e, em última análise, insustentáveis. O que deveria ser a maior preocupação é o possível sofrimento dos países no último grupo. Esses países terão necessidade de realizar grandes mudanças em suas políticas para se adaptar às novas realidades atuais.
Os dois primeiros modelos de crescimento invariavelmente conduzirão a um desfecho desfavorável. Um endividamento no exterior pode permitir a consumidores e governos viver além de seus meios por algum tempo, mas a dependência em relação ao capital estrangeiro é uma estratégia insensata. O problema é não apenas que os fluxos de capital externo podem facilmente inverter seu sentido, como também produzir o tipo errado de crescimento, baseado em moedas sobrevalorizadas e investimentos em mercadorias e serviços não comercializáveis, como habitação e construção.
Crescimento impulsionado por altas nos preços de commodities é também suscetível a contração brusca por razões semelhantes. Os preços das commodities tendem a desenhar ciclos. Quando estão elevados, tendem a desestimular investimentos em produtos industrializados e outros comerciáveis não tradicionais. Além disso, altas nos preços das commodities frequentemente produzem políticas nocivas em países com instituições fracas, resultando em enfrentamentos dispendiosos por rendimento de recursos, que são raramente investidos sabiamente.
Portanto, não é surpreendente que os países que têm produzido crescimento ininterrupto de longo prazo durante as últimas seis décadas são os que apoiaram-se numa estratégia distinta: promovendo diversificação em produtos industrializados e outros bens “modernos”. Ao capturar uma parcela crescente dos mercados mundiais de manufaturados e de outros produtos não-primários, esses países ampliaram suas oportunidades de emprego internamente em atividades de alta produtividade. Seus governos adotaram não apenas bons “fundamentos” (por exemplo, estabilidade macroeconômica e uma orientação voltada para fora), mas também o que poderiam ser denominadas políticas “produtivistas”: moedas desvalorizadas, políticas industriais e controles financeiros.
A China é um exemplo dessa abordagem. Seu crescimento foi impulsionado por uma transformação estrutural extraordinariamente rápida rumo a um conjunto cada vez mais sofisticado de produtos industrializados. Em anos recentes, a China também ficou viciada em um grande superávit comercial vis-à-vis os EUA – a contrapartida da sua moeda subvalorizada.
Mas não foi apenas a China. Países que vinham crescendo rapidamente no período que antecedeu o grande crash de 2008 tinham, habitualmente, superávit comerciais (ou déficits muito pequenos). Esses países não querem ser destinatários de afluxos de capital, porque perceberam que isso iria arruinaria suas necessidades de manter suas moedas competitivas.
Hoje é consenso generalizado que grandes desequilíbrios nas contas externas – tipificado na relação comercial bilateral EUA-China – desempenhou importante papel no grande crash. A estabilidade macroeconômica mundial exige que evitemos esse tipo de grandes desequilíbrios em conta corrente no futuro. Mas uma volta ao crescimento elevado em países em desenvolvimento exige que eles retomem seu empenho nos setores de bens e de serviços comerciáveis. No passado, essa investida foi acomodada pela disposição dos EUA e um punhado de outros países desenvolvidos de incorrer em grandes déficits comerciais. Essa já não é mais uma estratégia viável para países em desenvolvimento grandes ou de renda média.
Haverá, portanto, um conflito entre requisitos mundiais para estabilidade macroeconômica e o crescimento de países em desenvolvimento? Será que a necessidade dos países em desenvolvimento de gerar grandes aumentos no suprimento de produtos industriais irá, inevitavelmente, chocar-se com a intolerância mundial a desequilíbrios comerciais?
Não há, na verdade, nenhum conflito intrínseco, desde que compreendamos que o relevante para o crescimento nos países em desenvolvimento não é a escala de seus superávits comerciais, nem mesmo o volume de suas exportações. O que importa é sua produção de bens industrializados (e serviços) modernos, que possa expandir sem limites desde que a demanda interna cresça simultaneamente. Manter uma moeda subvalorizada produz a vantagem de subsidiar a produção desse tipo de mercadoria; mas também traz a desvantagem de penalizar o consumo interno – sendo essa a razão pela qual gera um superávit comercial. Ao incentivar diretamente a produção industrial, é possível ter as vantagens sem as desvantagens.
Há muitas maneiras como isso poderia ser feito, entre elas a redução do custo de insumos e serviços domésticos por meio de investimentos focados em infraestrutura. Políticas industriais explícitas podem ser um instrumento ainda mais potente. O ponto essencial é que os países em desenvolvimento preocupados com a competitividade de seus setores modernos podem permitir que suas moedas valorizem (em termos reais), desde que tenham acesso a políticas alternativas que promovam mais diretamente atividades industriais.
Assim, a boa notícia é que os países em desenvolvimento podem continuar a crescer rapidamente, mesmo que o comércio mundial diminua e haja reduzido apetite por fluxo de capitais e desequilíbrios comerciais. Seu crescimento potencial não precisa ser gravemente afetado, desde que as implicações desse novo mundo para as políticas doméstica e internacional sejam compreendidas.
Uma dessas implicações é que os países em desenvolvimento terão de substituir políticas que operam através do câmbio por políticas industriais reais. Outra é que atores de política externa (por exemplo, a Organização Mundial de Comércio) precisarão ser mais tolerantes diante dessas políticas, desde que efeitos sobre os equilíbrios comerciais sejam neutralizados por meio de ajustes apropriados na taxa de câmbio real. Maior emprego de políticas industriais é o preço a ser pago por uma redução dos desequilíbrios macroeconômicos.
Dani Rodrik, professor de Economia Política na Escola John F Kennedy de Governo na Universidade Harvard, foi o primeiro agraciado com o prêmio Albert O Hirschman, do Social Science Research Council.











