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O Oriente chega mais perto
Posted By beatriz On 12 maio, 2009 @ 9:43 am In Política Brasileira,Política Econômica | No Comments
Fonte: Valor
Por Sergio Leo
O Brasil sofrerá menos com a crise mundial, em parte por ter diversificado seus mercados de exportação, procurando clientes em todos os recantos do mundo. Em resposta à crise, e em consequência de um poderoso movimento internacional de deslocamento do eixo econômico do globo, o comércio do Brasil volta, porém, a concentrar-se rapidamente. Desta vez, em torno de mercados povoados por consumidores inteligentes de tez amarela e olhos puxados. A rápida ascensão da China como o principal destino das vendas brasileiras ao exterior é só um aspecto da emergência da Ásia como polo dinâmico do comércio mundial.
Nesta semana, quando chegar em Pequim, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva será pressionado por integrantes do próprio governo a falar de comércio. É a Embraer, que teme perder encomendas de sua filial na China para empresas aeronáuticas, concorrentes chineses puro-sangue. São os exportadores de carne suína e frango, que consideram o empurrão presidencial fundamental para mover as forças do mercado chinês. Lula deve atender às demandas dos empresários, mas quer, também, falar de política.
Segundo um ministro com trânsito livre no gabinete presidencial, Lula quer fazer da visita uma oportunidade de articular com a China uma ação política coordenada em instâncias internacionais, como a reunião dos BRICs (Brasil, Rússia, Índia e China) em junho, as Nações Unidas e o G-20, reunião das economias mais influentes do mundo. É uma pretensão inteligente, se, com ela, vier uma negociação para atender aos interesses empresariais do Brasil em relação aos mercados asiáticos.
Mesmo os conselheiros de Lula comentam que é circunstancial o primeiro lugar da China entre os importadores brasileiros. Os Estados Unidos, que foram lançados ao segundo lugar entre os mercados para a exportação brasileira, encontram-se em crise, que devem superar no futuro próximo, para voltar ao posto de maior consumidor de produtos brasileiros. Mas a ascensão asiática é impressionante demais para ser mero fenômeno conjuntural.
Em abril, as exportações brasileiras para países asiáticos chegaram a 30% do total de vendas brasileiras ao exterior. A China absorveu 18% do total. Se computado o resultado do quadrimestre, a fatia das exportações brasileiras acolhida pela China chega a quase 13%, e as vendas aos asiáticos representam quase 25% do total. Vale lembrar que, no primeiro quadrimestre de 2008, os Estados Unidos, hoje compradores de apenas 11% das exportações brasileiras, eram 14% do mercado para os brasileiros no exterior. A velocidade com que os chineses e outros asiáticos se tornam destino preferencial das vendas brasileiras é sintomática, porém.
O vigor das vendas aos asiáticos é sintoma de um mal preocupante, a concentração das exportações brasileiras em bens de baixo valor agregado, as chamadas commodities, como minério de ferro, soja e celulose. Mas também indica que os mercados compradores mais dinâmicos estão em outros meridianos, diferentes dos tradicionais.
E é em mercados chamados emergentes que o Brasil encontra onde escoar sua produção. Só na Ásia o desempenho das exportações brasileiras alcança crescimento expressivo (a África é o outro continente para onde o Brasil aumentou exportações, mas em medíocres 5%). O crescimento das vendas aos asiáticos, de 28% de janeiro a abril, se deve prioritariamente à China, mas também a países como Taiwan, Coreia do Sul, Cingapura e Indonésia. Esses países compensaram o desempenho importador do Japão, que, pelo contrário, diminuiu as compras. Os chineses, em 2008, importavam mais de duas vezes e meia o que o Japão comprava do Brasil; agora absorvem quase quatro vezes mais em produtos brasileiros que os japoneses.
Interessado em fortalecer os laços políticos com os chineses, Lula cometerá um grave erro se descurar da agenda econômico-comercial. A Ásia, além de ser grande consumidor de commodities, é um potencial comprador de manufaturados brasileiros, e está cada vez mais perto, em termos de logística: em 2009, como relatou o Valor, deve ser concluída a ligação brasileira com o pacífico, via Peru. Em 2010, será a vez de projetos que passam por Bolívia e Chile, parte do antigo plano IIRSA, de integração da infraestrutura sul-americana. Haveria outra ligação, passando pelo Equador, que foi armazenada na geladeira pelas autoridades brasileiras amuadas com as bravatas nacionalistas do presidente equatoriano Rafael Correa.
A Ásia ganha importância para o mundo e para o Brasil, e, por tabela, tende a mostrar a importância de boas relações do governo brasileiro com os vizinhos andinos, caminho para os portos que levarão mercadorias brasileiras ao Pacífico. Na Agenda China, que o governo elaborou com apoio da CNI e do Conselho Empresarial Brasil-China, foram identificadas oportunidades no mercado chinês para produtos tão variados quanto autopeças, partes de ar condicionado e material elétrico. A aliança política ajuda, nesses casos, mas faz falta, ainda, uma estratégia empresarial consistente.
No Brasil, empresários do setor manufatureiro, ocupados com a sobrevivência, em tarefas comezinhas como a busca de fontes para seu capital de giro, desdenharam da missão empresarial que parte para a China nesta semana. Antenas mais eficientes, como as do governo dos EUA, já perceberam a forte atração gravitacional que o mercado asiático promete exercer no futuro próximo – não é por outro motivo que o Eximbank americano resolveu triplicar o crédito comercial para o Brasil, em plena crise, como relatou Patrícia Campos Mello em “O Estado de S. Paulo” neste fim de semana.
O discurso do setor privado em relação à China ainda é presa dos interesses defensivos, que veem nos chineses uma ameaça à indústria instalada no país. Esses interesses estão fortemente representados na missão empresarial que acompanha Lula à China, nesta semana. Falta, até hoje, porém, uma ação mais vigorosa do governo e do setor privado, capaz de aproveitar a crescente aproximação política com a China para explorar o potencial emergente dos mercados asiáticos.
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