Do rebanho à manada
Escrito por beatriz, postado em 6 dEurope/London maio dEurope/London 2009
Fonte: Carta Capital
Por Delfim Netto
Abusando de um sociologismo amador, talvez possamos dizer que nosso comportamento na vida cotidiana é controlado, em boa parte, por normas (formas de conduta) construídas no processo de evolução cultural. Elas facilitam nossas decisões e melhoram nossas relações com os outros. Dão-nos conforto e tranquilidade e liberam tempo para outros comportamentos e decisões não rotineiras. Diante de circunstância inusitada, entretanto, a tendência do homem é procurar conforto na imitação do comportamento daqueles que ele supõe saberem o que estão fazendo.
Nosso comportamento individual é, em larga medida, condicionado por nossa circunstância. Isso explica, por um lado, as limitações do individualismo metodológico que domina o mainstream da economia e, por outro, porque o comportamento dos indivíduos é normalmente acompanhar o do coletivo, ou seja, do rebanho (nas condições normais de pressão e temperatura) ou da manada (quando o tempo muda). Ao contrário, portanto, do axioma de madame Thatcher: “A sociedade não existe. Só existe o indivíduo”, parece que ambos existem e o indivíduo só existe na sociedade.
A passagem do comportamento de rebanho, que produz o bom funcionamento do circuito econômico e acelera o crescimento econômico, para o de manada, que é disruptivo e bloqueia o funcionamento do sistema é, em geral, produzida por um evento aleatório, cuja probabilidade de ocorrência é considerada muito pequena. O problema é que, como disse o grande Poincaré, “com tempo suficiente, até o impossível acontece”. Estamos vivendo o momento de uma dessas mudanças de fase. Ela foi causada pela generalização de inovações financeiras interessantes que criaram novos produtos, cujos riscos sistêmicos nunca foram adequadamente avaliados.
O esporte favorito hoje é criticar os econofísicos (economistas com habilidade matemática e físicos desempregados, que reuniram suas forças para voltar a contrabandear métodos da física para a economia, como se fez, sem sucesso, nos séculos XIX e XX), que criaram os tais derivativos tóxicos. Há nessa crítica, entretanto, uma divertida injustiça. As fórmulas foram abusadas pelos banqueiros de investimento e seus comparsas. Utilizaram-nas sem critério para acumular lucros excepcionais, ignorando os riscos apontados por seus construtores.
Em 1999, quando o último resquício de controle bancário do New Deal (o Glass-Steagall Banking Act, de 1933) estava sendo rejeitado no Congresso dos Estados Unidos, o grande criador da geometria fractal, Benoit Mandelbrot, em artigo realmente extraordinário (Scientific American, fevereiro de 1999: 1969-1973), chamava a atenção para os riscos inerentes à ingênua crença no valor daquelas fórmulas. E Andrew Lo, um dos criadores do cálculo de riscos, não se cansou de chamar a atenção para o problema (até pela imprensa) desde 2005.
Nada disso, entretanto, deve obscurecer o fato de que existe uma clara ligação entre o crescimento das economias e a amplitude dos mercados financeiros nacionais e internacionais. É visível que um sistema financeiro sólido e sofisticado facilita a transferência de recursos dos setores de menor rentabilidade para os de maior e, principalmente, para os setores em que as inovações estão estimulando um crescimento mais rápido. Tudo isso acelera os investimentos que sustentam o crescimento da economia a longo prazo. Quando o setor financeiro realiza bem o papel de dar liquidez à economia real e o espírito animal dos investidores está ativo, soma-se a capacidade de inovar com o crédito, e o sistema entra em expansão.
É fundamental entender que o sistema financeiro é, na sua essência, pró-cíclico. Ou seja, tem a tendência de reforçar os ciclos da economia real produzidos pela inovação. Da mesma forma, quando, por qualquer motivo, há uma quebra de confiança e os financiamentos tornam-se mais difíceis, murcha a disposição dos empresários de tomarem mais riscos, diminuem os investimentos e reforçam-se as dificuldades de crescimento da economia real. O sistema financeiro é pró-cíclico na ida e na volta.
A grande lição a tirar deste momento é que a sofisticação e a criatividade do sistema financeiro devem ser reguladas, não coibidas. A melhor regulação prudencial deve exigir uma análise mais cuidadosa dos efeitos das inovações a longo prazo, quando o comportamento de rebanho pode transformar-se, por evento não previsível, em comportamento de manada. O problema essencial é que a regulação mantenha sempre o setor financeiro a serviço da economia real e previna a tendência natural de inverter essa hierarquia.










