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A teoria do caos e o caos da teoria
Posted By beatriz On 13 maio, 2009 @ 4:48 pm In Desenvolvimento,Destaques da Semana,Energia,Política Brasileira,Roberto D'Araujo | No Comments
Por Roberto Pereira d’ Araujo
As idéias do francês Henri Poincaré, matemático do século 19, anos depois, resultaram na teoria do caos, com grandes implicações filosóficas. A indagação que ela tenta responder é: Afinal, o que seria o acaso?
Nas palavras do próprio Poincaré, “uma causa muito diminuta, que nos escapa, determina um efeito tão significativo que não podemos deixar de ver. Então, dizemos que esse efeito é devido ao acaso. Mas, se pudéssemos conhecer totalmente as leis da natureza e as condições iniciais, seríamos capazes de prever a situação do universo no instante subseqüente.”……
….”Porque os meteorologistas têm tanta dificuldade em prever o tempo? Por que as chuvas, as tempestades, nos parecem ocorrer por acaso, a ponto de muita gente achar perfeitamente natural rezar pedindo chuva ou sol, enquanto consideraria ridículo rezar pedindo um eclipse?
Estamos num país tropical, que, apesar de “abençoado por Deus”, tem uma meteorologia bastante incerta. Apesar dessa obviedade, freqüentemente presencia-se debates onde parece que tudo isso foi esquecido. Quem lê certas declarações pode pensar que estamos na Inglaterra, onde a única decisão para fazer uma usina gerar é alimentá-la de combustível.
Como não temos conhecimento das leis que governam a biosfera, a nossa oferta de energia é uma bela variável aleatória. Para se ter uma dimensão dessa variabilidade, nem precisa todo o histórico de vazões dos rios brasileiros. Basta um exame rasteiro nos dados de “energia natural” disponível na página do ONS. Alguns exemplos didáticos: O ano de 2003 apresentou uma hidrologia que, se ocorresse sobre o sistema existente em 2007, representaria, só na região sudeste, um decréscimo de oferta da ordem da energia de quase 4 Itumbiaras em relação à média à longo termo. No mesmo ano, só na região Sul, ficaria “faltando” energia para quase 3 setores residenciais paranaenses2 [1]. Portanto, é com essa variabilidade que a energia nos cai dos céus. Claro, temos grandes reservatórios que amortecem essas variações, mas, ninguém faz milagre. A verdade é que a oferta natural é realmente uma variável aleatória de respeito.
A teoria estatística básica nos ensina que qualquer variável aleatória, ao ser estimada, tem um nível de significância. Quanto maior a amostra, maior o nível de significância. O famoso custo marginal de operação, coração de todo o modelo comercial vigente, é um parâmetro que depende de uma variável aleatória e, portanto, variável aleatória é. Ele determina a conveniência do uso de geração térmica ou não. Conseqüentemente, a primeira pergunta que deveríamos fazer é, afinal, qual o nível de certeza que temos sobre esse número?
Nosso histórico de afluências não chega a 80 anos. Se não fossem as séries sintéticas de afluências que estenderam os dados para 2000 anos, a confiança estatística sobre o CMO seria muito baixa. Num excesso de linguagem, se há alguma certeza estatística sobre cada valor do CMO, ela é “sintética”.
Depois da experiência do racionamento, percebe-se uma preocupação crescente do operador com a garantia. O procedimento de otimização inserido no modelo NEWAVE, reflete o que se pode chamar um paradigma estocástico, onde as séries sintéticas de afluências são a base. Ali, grande parte da realidade é descrita em termos probabilísticos. O ONS utiliza essa metodologia, mas, cada vez mais, faz intervenções com modelos de uma classe mais determinística. As “trajetórias” do NEWAVE se entrelaçam com “curvas de aversão a risco”, “níveis meta”, “curvas críticas da operação”. Nessas, o alicerce é o histórico de um pouco mais de 70 anos. Isso altera bastante o CMO e por conseqüência, a política de operação assumida na modelagem mercantil. Portanto, que operação está sendo simulada nos certificados, nos contratos e nos leilões? A puramente probabilística ou a repleta de intervenções determinísticas? Como séries de CMO’s bem diferentes baseiam-se em modelos distintos da mesma realidade, afinal qual é a realidade?
Isso não quer dizer que seja impossível a implantação de um sistema competitivo ao singular sistema brasileiro. Mas, considerando-se que já se vão quase 15 anos desde que se implantou o sistema de mercado, até hoje não temos um consenso sobre o critério de garantia! Poincaré tenta nos mostrar que até sistemas determinísticos, dependendo de certas condições podem ter um comportamento aleatório. Ao adotar um modelo baseado em certificados dados a priori, nosso modelo de mercado desafia o grande matemático tentando tornar determinístico aquilo que aleatório é. Assim, conseguimos transformar a teoria do caos no “caos da teoria”.
Enquanto isso, um valor fixo, a potência das usinas, mais determinado do que qualquer outro, dorme esquecido nas “gavetas” elétricas. Mas isso é assunto para outro artigo.
¹Trecho constante no livro “Será que Deus joga dados? – A nova matemática do caos – Ian Stewart – Zahar
²Como se pode ver, o ano de 2003 foi terrível. Só não tivemos outro racionamento porque o mercado tinha se retraído aproximadamente 15%.
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