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Fênix: a moeda global
Posted By Imprensa On 16 abril, 2009 @ 2:36 pm In Conjuntura,Internacional,O que deu na Imprensa | No Comments
Por Eliana Cardoso
Fonte: Valor Econômico, 16/04/2009.
[1]Durante pelo menos uma semana, o sr. Zhou, presidente do BC chinês, disputou com Ben Bernanke, presidente do Fed, a atenção dos economistas. O banqueiro causou frisson ao sugerir que o mundo usasse os SDR (Direitos Especiais de Saque do FMI) como moeda de reserva no lugar do dólar. Parêntese: SDR é uma unidade de conta (com base numa cesta de dólares, euros, yens e libras britânicas) que representa o direito de um país adquirir moeda de outro. Corresponde à fração ínfima das reservas globais em dólares.
E então? Imagine que fosse possível contornar os problemas de como passar do dólar à moeda global e os SDR se transformassem em moeda corrente. Você iria às compras com Direitos Especiais de Saque? Não é aí que reside o problema, você me dirá. Para contornar o nome difícil, podemos rebatizar os SDR.
O novo nome poderia ser Fênix, como o do pássaro da mitologia grega, que Voltaire transformou em protagonista de novela com “talhe de águia, mas olhos tão suaves e ternos quanto os da águia são altivos e ameaçadores”. Assim, só quem não tivesse Fênix se amarraria a uma águia de cabeça branca, símbolo nacional dos EUA com suas verdinhas.
O perigo é que o nome do pássaro – que quando morre entra em autocombustão e renasce das próprias cinzas – faz lembrar as inúmeras ocasiões em que uma desvalorização do dólar trouxe à baila a sugestão de sua substituição por outra moeda. Apenas, entretanto, para vê-lo despontar outra vez forte e fagueiro.
Em 2001, Bob Mundell (o prêmio Nobel que inventou a macroeconomia aberta que hoje ensinamos nas escolas) sugeriu o uso de uma moeda global que se chamaria “DEY” (combinação de dólar, euro e yen). Dey? Dei!? Não deu, pois em 2001, Mundell envelhecera e já não era o gênio que inventara a teoria das áreas monetárias ótimas. Ótima é a área onde a moeda comum (ou o câmbio fixo) mantém a estabilidade de emprego e preços com mais eficiência do que o câmbio flexível. “A área ótima”, escreveu Mundell em 1961, “não é o mundo”.
Em 1968, ele mudou de ideia e apresentou ao Congresso americano um plano para uma moeda mundial. Em 2000, mais uma mudança. Em conferência no FMI (“One World, One Currency”), declarou: “Um mundo, uma moeda”? “Só pode existir em ditadura ou império global. Eu não poderia imaginar um mundo democrático com uma única moeda”.
O desejo da moeda única se baseia na ilusão de que seria possível eliminar a volatilidade do câmbio flexível e gozar do aumento do comércio, que o câmbio fixo proporciona, sem correr o risco das crises recorrentes do regime de taxas fixas. Ah! Quando a esmola é muita, o santo desconfia. E os jornais logo ficaram repletos de críticas à sugestão do sr. Zhou.
Para começar, o uso da moeda global retiraria dos países a independência da própria política monetária. E veja que o BC Europeu tem dificuldade em manter, a um só tempo, uma política monetária favorável a todos os países de uma região formada por vizinhos com condições sociais semelhantes. Como seria possível desenhar uma política monetária adequada a todos os países do globo?
Além disso, na ausência de um governo mundial, quem haveria de controlar o banqueiro do mundo? Imagine que o controle ficasse a cargo de comissão de especialistas do FMI ou da ONU e você pode antever a consequente politização do dinheiro.
Mais importante ainda é que os SDR e o euro (ou o yuan chinês, que virá substituir o dólar no futuro) ainda estão longe de ter a liquidez do dólar. E liquidez é chave para o funcionamento do sistema financeiro internacional.
O fato é que o sr. Zhou está com medo. Tendo acumulado reservas para evitar uma valorização do yuan, agora teme que elas virem pó. Ele e Simon Johnson, ex-economista-chefe do FMI, acham que os EUA se transformaram numa república bananeira, que usa o financiamento inflacionário para bancar o déficit fiscal, pondo o dólar em risco. Eles se esquecem de que o americano é o maior interessado na estabilidade de preços nos EUA e no uso continuado do dólar no mundo. Mas o Fed não quer apertar a política monetária muito cedo e matar a recuperação.
Michael Mussa, o mais importante dos ex-economistas-chefes do FMI, acredita que a recuperação está a caminho. A duração de cada uma das últimas dez recessões americanas ficou entre sete e 20 meses. Esta já dura mais de 20 meses. A tendência natural de recuperação e as políticas de estímulo do governo americano devem tirar a economia do buraco.
Ben Bernanke garante que, quando isso acontecer, o Fed tem os instrumentos de que precisa para reverter a expansão monetária. Muitos dos programas de crédito são de curto prazo com taxas de juros acima das do mercado. O Fed pode vender títulos. Pode reduzir as reservas bancárias através de diferentes instrumentos. E, desde outubro de 2008, pode pagar juros sobre as reservas que mantém e, assim, quando necessário, incentivar os bancos a manter reservas com ele em vez de emprestá-las a outros bancos.
Por via das dúvidas, o BC chinês decidiu promover o yuan na economia global. Autorizou quatro grandes cidades do país a usá-lo em negócios com o exterior. E fechou acordos de swap cambial no valor de US$ 95 bilhões com seis países. Na verdade, desde 2000, os países do Asean+3 – dez países do sudeste asiático mais China, Coreia do Sul e Japão, detentores em conjunto de US$ 3,5 trilhões de reservas – já haviam decidido formar uma rede de swaps bilaterais. Querem, agora, combinar esses pactos num fundo regional comum com US$ 120 bilhões.
Acordo entre chineses e japoneses é sinal de mudança-chave na face da terra. Mas só vamos saber se isso de fato acontecerá quando os ministros das finanças da Ásia se encontrarem na Indonésia no começo de maio. De qualquer forma, o governo chinês ainda tem muitos passos pela frente antes que o yuan se transforme em Fênix e conquiste a liquidez e a confiança que as verdinhas inspiram.
Eliana Cardoso é professora titular da EESP-FGV
Leia: A ordem mundial segundo Keynes, de James Galbraith… [2]
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[2] Leia: A ordem mundial segundo Keynes, de James Galbraith…: http://diplo.uol.com.br/2003-05,a633
[3] Sobre o papel do Estado: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/sobre-o-papel-do-estado/
[4] Tem São Paulo demais: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/tem-sao-paulo-demais/
[5] EDITORIAL do Cadernos do desenvolvimento do centro Celso Furtado: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/editorial-do-cadernos-do-desenvolvimento-do-centro-celso-furtado/
[6] País perdeu os 'anos de ouro' da economia mundial: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/pais-perdeu-os-anos-de-ouro-da-economia-mundial/
[7] Espantando o vôo de galinha: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/espantando-o-voo-de-galinha/
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