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Dois artigos importantes sobre 2010
Posted By Imprensa On 26 março, 2009 @ 3:25 pm In Conjuntura,O que deu na Imprensa,Política Brasileira | No Comments
Efeitos colaterais do lulismo incondicional
Por Maria Inês Nassif
A adesão incondicional do PT ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem efeitos colaterais. O partido suprimiu qualquer projeto de agenda própria por constatar que a sua dependência eleitoral do presidente Luiz Inácio Lula da Silva continua a mesma de 1989,1994, 1998, 2002 e 2006, mesmo não existindo a possibilidade de que ele seja novamente candidato em 2010.
Ao longo dos últimos meses, enquanto consolidava a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, como candidata à sua sucessão, dentro e fora do partido, Lula passou também a ser o fator de convergência de uma rearticulação interna que em outras eleições não apenas definiu um grupo majoritário no partido, mas o setor que se aliaria à sua figura e à sua popularidade. A diferença para os anos anteriores é que, antes, as contradições internas obrigavam a uma costura dos interesses dos grupos em conflito de tal forma que, se era objetivo de todos os grupos vencer as eleição com o candidato Lula, o programa que o levaria ao poder seria a síntese da dinâmica partidária. Em algum momento, no processo de luta interna, o partido conferia um perfil ideológico ao seu candidato e estabelecia uma relação orgânica com ele.
Nessas eleições, a dinâmica partidária está seriamente comprometida pelo que parece, de um lado, uma exigência de Lula ao partido, de adesão incondicional a um projeto de poder que é uma construção quase pessoal sua, e de outro, de um pragmatismo do PT, que cede por não ver possibilidades de uma vitória autônoma, que não dependa da popularidade do presidente Lula. Até o momento, não há sinais de que um projeto de poder e um projeto de partido irão se unir lá na frente de forma orgânica. A aliança entre ambos parece se dar muito mais em função de um risco de “retrocesso” – que, no entendimento interno, seria perder o poder para o PSDB – do que em função de um projeto político comum.
A candidatura da ministra Dilma Rousseff, nessas circunstâncias, é paradoxal. Do ponto de vista ideológico, ela se aproxima muito mais da média do pensamento do partido do que o próprio Lula. O presidente é um político competente e altamente intuitivo, com grande capacidade de liderança, mas a militância pretérita de Dilma a faz muito mais próxima à de grupos do PT que se originaram das facções de esquerda formadas na oposição à ditadura de 1964-1985. Dilma, todavia, não tem liderança própria no PT, nem experiência como mediadora das tendências petistas. Os grupos do partido são desconhecidos para ela; a militância petista é uma coisa que lhe é alheia.
Lula obteve a unanimidade dos grupos do partido em favor da candidatura da ministra, mas isto a tornou completamente dependente do presidente, dentro e fora do PT. Segundo o CNI/Ibope e o Datafolha, a crise já teve repercussões sobre a popularidade de Lula e do seu governo, embora o presidente esteja longe de ser impopular. De qualquer forma, uma candidatura petista sem vínculos orgânicos maiores terá escassas condições de manter a unidade interna por si mesma, e assim emplacar externamente, se a crise atingir de forma mais profunda o governo petista. Também a articulação feita junto aos PMDBs nacional e regional pelo PT tem enormes chances de desabar se Lula não mantiver a sua popularidade muito alta, pelas razões óbvias: o PMDB apenas é um aliado “natural” de um partido com chances inquestionáveis de vencer as eleições.
Nos dois casos, tanto para manter a coesão interna do PT em torno de Dilma, como para ter o PMDB como aliado, Lula tem que segurar a sua popularidade num nível muito alto, e a ministra tem que decolar rapidamente. Se a crise desgastar excessivamente a ambos, a construção de uma candidatura do zero, como é o caso da de Dilma, resultará em risco muito alto de derrota eleitoral. Daí, torna-se mais sensato apostar num candidato do campo governista que já tenha se exposto a uma disputa nacional, mesmo não sendo um petista, como é o caso do deputado Ciro Gomes (PSB). Na hipótese de queda muito grande da popularidade de Lula, portanto, a candidatura de Dilma poderá ficar tão isolada, a ponto de não sobreviver.
Daí o outro paradoxo da candidatura de Dilma Rousseff. Se a economia entrar no rumo e a popularidade de Lula continuar em alta, torna-se natural uma aliança com o PMDB em torno de seu nome, o que fatalmente acabará de empurrar o PT para o centro – e este, por sua vez, joga o PSDB, aliado ao DEM, mais ainda para a direita. Se o PMDB correr do PT, ele terá que refazer sua aliança com o bloco de esquerda – mas aí dificilmente Dilma, cuja biografia política está ligada a uma esquerda mais radical, sobrevive como candidata.
Aécio aposta que crise demandará perfil conciliador
Por César Felício
Em contatos com banqueiros como Roberto Setubal, Pedro Moreira Salles e o ex-presidente do Banco Central no governo Fernando Henrique Cardoso Armínio Fraga, o governador de Minas Gerais, Aécio Neves (PSDB), começa a traçar o cenário com o qual pretende estruturar a sua pré-candidatura presidencial para 2010. Segundo comenta-se nos altos escalões do governo mineiro, Aécio prevê crescimento nulo da economia em 2009 e vê como “exagerado otimismo” a previsão de que o PIB em 2010 possa retomar a trajetória ascendente que teve até 2008, atingindo 3% de expansão.
É em um quadro de economia desaquecida que Aécio pretende apresentar-se com um perfil diferenciado em relação ao seu contendor interno, o governador de São Paulo, José Serra, e a que considera a principal adversária externa, a ministra da Casa Civil Dilma Rousseff (PT): o de elemento conciliador que pode ultrapassar a dicotomia PT/PSDB que marca a disputa política nacional desde 1994. Na visão de tucanos mineiros, tanto Serra quanto Dilma tendem a aprofundar as demarcações ideológicas que separam os dois grupos, o que comprometeria a apresentação de uma proposta voltada para a superação da crise. Para essa conciliação, Aécio contaria com um trânsito junto ao sistema financeiro, mais facilitado do que o de seus adversários. O governador mineiro costuma dizer que o ministro da Fazenda de seus sonhos seria Armínio Fraga.
Foi com este espírito que Aécio encontrou-se recentemente com a bancada do PPS e com as direções nacionais do DEM e do PP. De acordo com o círculo mais próximo a Aécio, o governador de Minas vê em 2010 um cenário perigoso para a oposição. Com a popularidade do governo federal em queda e com a perspectiva de um 2010 nada brilhante do ponto de vista econômico, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tenderia a intensificar as ações de exposição de Dilma Rousseff na mídia, partindo do próprio Palácio do Planalto a iniciativa de antecipar o debate presidencial. Daí porque Aécio pretenderia acelerar a discussão interna em torno da eleição presidencial no PSDB, segundo comenta-se dentro do Palácio da Liberdade.
Nos altos escalões do governo mineiro, a avaliação é que a forte queda de arrecadação que já provocou uma frustração de receita de R$ 750 milhões no Orçamento de Minas para este ano por enquanto não afeta o plano de investimentos do governador, que monta a R$ 11 bilhões. Isto porque Aécio contaria com uma linha pré-aprovada do Banco Mundial de R$ 1 bilhão, liberada no ano passado, para aplicar livremente entre os projetos prioritários do Estado, sem necessidade de contrapartida. Um feito conseguido, segundo Aécio teria dito a interlocutores, graças à política de “choque de gestão”, nome propagandístico de um modelo rígido de controle de gastos aplicado na administração estadual sob a orientação do vice-governador Antonio Anastasia.
Do ponto de vista de popularidade, os problemas econômicos em Minas não arranharam ainda a imagem de Aécio. Em pesquisa divulgada pela “Folha de S. Paulo”, o mineiro aparece com a maior avaliação do país em um grupo de dez administrações estaduais avaliadas.
Com investimentos preservados, o governador teria então tranquilidade para tocar a sua estratégia interna de enfrentamento dentro do partido, que passa pela realização de visitas pelo país no primeiro semestre deste ano. Aécio deve insistir em convites formais para que Serra o acompanhe nas peregrinações. No círculo mais próximo ao governador, há o reconhecimento de que, hoje, Serra é favorito dentro e fora do partido para obter a candidatura presidencial. Mas no PSDB mineiro aposta-se que o quadro pode mudar face à aceleração do debate sucessório, abrindo espaço para um candidato com perfil mais palatável para parte da base de apoio governista.
Segundo interlocutores de Aécio, um pacto implícito teria sido estabelecido entre os dois governadores. O paulista teria admitido a existência da disputa, aceitando transferir a decisão para uma estância decisória ampla no PSDB depois de afirmar que um apoio efetivo do Aécio seria um condicionante para sua candidatura. Aécio, por sua vez, teria dado garantias formais de que sua saída do partido, que chegou efetivamente a cogitar, estaria definitivamente descartada, anunciando sua disposição para trabalhar pela eleição de Serra caso ficasse constatada esta posição majoritária no PSDB.
A inviabilidade de uma prévia ampla, com consulta até a não filiados e propaganda em rádio e televisão, decidida pelo Tribunal Superior Eleitoral, já era esperada no PSDB de Minas Gerais, mas os aecistas deverão insistir na realização de uma prévia no modelo restrito, apenas entre filiados, com debates internos e sem propaganda partidária, como o PT e o PMDB já realizaram. No Palácio da Liberdade, a aposta é que o calendário de viagens e o próprio ritmo da pré-campanha tornem as prévias um fato consumado, a serem realizadas no final do ano. Na hipótese da cúpula tucana impedir a realização de uma consulta ampla, não se descarta entre os interlocutores de Aécio a possibilidade de convenção partidária em junho de 2010. Um cenário que, em Minas, é visto como comprometedor para a união partidária na disputa de outubro.
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[1] Fonte: Valor-online: http://www.valoronline.com.br/
[2] Sobre o papel do Estado: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/sobre-o-papel-do-estado/
[3] Tem São Paulo demais: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/tem-sao-paulo-demais/
[4] EDITORIAL do Cadernos do desenvolvimento do centro Celso Furtado: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/editorial-do-cadernos-do-desenvolvimento-do-centro-celso-furtado/
[5] País perdeu os 'anos de ouro' da economia mundial: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/pais-perdeu-os-anos-de-ouro-da-economia-mundial/
[6] Espantando o vôo de galinha: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/espantando-o-voo-de-galinha/
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