Crise global abre uma nova porta para desenvolvimento
Escrito por beatriz, postado em 20 dEurope/London março dEurope/London 2009
Fonte: Monitor Mercantil
João Paulo de Almeida Magalhães/Presidente do CED
De acordo com o economista João Paulo de Almeida Magalhães, presidente do Centro de Estudos para o Desenvolvimento (CED), a crise mundial criou uma oportunidade para definição de bases científicas para um novo paradigma de desenvolvimento nos países retardatários, sobretudo para os latino-americanos, que, como o Brasil, há décadas abraçaram o neoliberalismo e o chamado Consenso de Washington.
“A fórmula criada por Keynes resulta em políticas específicas, de curto prazo, para enfrentar uma grande crise, enquanto o desenvolvimento é de longo prazo. Precisamos gerar um novo paradigma científico, que contemple, não só o enfrentamento da crise, mas a questão do longo prazo”, enfatiza Magalhães, que está lançando, pela Editora Contexto, o livro O que fazer depois da crise – a contribuição do desenvolvimentismo keynesiano.
A publicação é produto de discussões promovidas no CED, ligado ao Conselho Regional de Economia (Corecon-RJ), envolvendo economistas que se classificam como neokeynesianos e novo-desenvolvimentistas.
Em entrevista exclusiva ao MM, Magalhães, que integra o Conselho Editorial do jornal, defende que seja estabelecida a distinção entre o padrão de crescimento clássico, dos países desenvolvidos, que recorreram largamente às políticas protecionistas, e o padrão dos países retardatários: “Baixar juros e mexer no câmbio, por exemplo, são ações que careciam de uma justificativa teórica, que o livro oferece”, destaca o economista.
Como está vendo o combate à crise pelos governos latino-americanos?
João Paulo de Almeida Magalhães – Está havendo uma concentração excessiva nos problemas imediatos, sem pensar no depois, para que não se repitam. A concentração deveria estar no desenvolvimento econômico. Em toda a América Latina, o desenvolvimento tem sido lento em virtude do Consenso de Washington e do neoliberalismo.
Por que é tão difícil derrubar o neoliberalismo, apesar do seu evidente fracasso?
Como não se apresentou um paradigma alternativo, justificado teoricamente, os neoliberais argumentaram que suas idéias se baseiam na teoria clássica – científica – e que tentaram aperfeiçoar o Consenso de Washington pelo lado das mudanças institucionais. Daí surgiu o chamado Consenso Ampliado.
Mas, com a crise, ficou novamente provado que não funcionou. Esse fato cria oportunidade para se definir um novo paradigma, com base científica, para o crescimento retardatário, aproveitando contribuições da economia do desenvolvimento tradicional e do chamado neo-keynesianismo, que dá origem ao novo desenvolvimentismo.
O keynesianismo tradicional não é suficiente para tirar os países da crise via desenvolvimento?
A fórmula de Keynes (John Maynard Keynes) resulta em políticas de curto prazo, para enfrentar a crise, enquanto o desenvolvimento é de longo prazo. Precisamos gerar um novo paradigma científico para a crise que contemple o longo prazo. Daí a necessidade de mostrar diferença entre desenvolvidos e retardatários.
Que recomendações o livro traz em matéria de políticas econômicas?
Justificamos a intervenção sistemática do Estado na economia. Os países subdesenvolvidos têm muita mão-de-obra barata, o que representa uma oportunidade, mas restringe oportunidades e faz com que o mecanismo de formação de preços não funcione tão adequadamente quanto nas economias desenvolvidas. Ou seja, o mercado não pode ser ignorado, mas há que ter uma intervenção corretora do Estado. Além disso, se não há uma política correta de desenvolvimento, o estrangulamento das oportunidades faz com que não haja espaço para o capital nacional e o estrangeiro, juntos, e o capital estrangeiro acaba substituindo o nacional. Uma das consequências é que a contribuição da poupança externa acaba sendo desprezível.
O livro defende que a inflação deve ser tratada de maneira diferente pelos países mais atrasados. Por quê?
Conforme demostraram os próprios teóricos do Plano Real, a inflação nos países retardatários é inercial, diferentemente do que ocorre nos países desenvolvidos. Então, os juros não são o melhor instrumento para corrigi-la. As políticas de rendimentos são mais apropriadas, pois encaram a inflação como uma disputa pelo bolo do PIB – soma das riquezas produzidas pelo país. No caso do Brasil, é o sistema financeiro que reivindica uma parte do PIB acima do que seria aceitável. Essa é a principal causa da pressão inflacionária.
Como vê o combate do governo brasileiro ao protecionismo?
O protecionismo não é apenas uma forma de fugir da recessão, mas uma estratégia de longo prazo. Foi fundamental para o desenvolvimento dos EUA, da Alemanha e do Japão, por exemplo. O uso do protecionismo é mais justificável ainda contra a China, que tem mão-de-obra baratíssima, uma vantagem provisória.
Quais as conseqüências disso no futuro?
Daqui a dez anos, o salário na China vai encarecer, mas continuaremos comprando deles por não saber produzir.
É mesmo necessária uma nova teoria para substituir o neoliberalismo?
Uma teoria econômica só é derrubada por outra, cientificamente comprovada. Hoje, até os keynesianos estão cada vez mais neoclássicos. Não se trata de criar uma nova ciência econômica, mas ajustes para contemplar o desenvolvimento dos retardatários. A grande proposta do livro é aproveitar a oportunidade criada pela desmoralização do neoliberalismo para justificar uma nova estratégia de desenvolvimento.
Isso é fundamental para igualar crescimento da América Latina ao asiático. As sementes dessa modificação já estão na economia tradicional, sobretudo nas política adotadas no pós-guerra. Mas os países desenvolvidos, depois que se beneficiaram, deixaram essa idéias para lá e nós passamos a importar teorias. Mas não basta um cidadão sozinho falar sobre isso.
Como ampliar a discussão sobre o novo paradigma?
Criando programas científicos de pesquisa e debate pela evolução da ciência econômica. Por exemplo: a teoria protecionista de Raúl Prebisch continua válida, mas foi abandonada. O que pedimos é um grande debate nacional, não uma receita de bolo. Caso contrário, quando acabar a crise vão dizer que o capitalismo continua, com o setor financeiro regulado, mas logo irão defender a volta do Consenso de Washington.
(Rogério Lessa)










