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Blog do Desemprego Zero

2009 está (ainda) em nossas mãos

Escrito por beatriz, postado em 24 dEurope/London março dEurope/London 2009 Imprimir Enviar para Amigo

Fonte: Valor Econômico

Por Antonio Delfim Netto*

O Brasil está grogue. Está nas cordas, como consequência do poderoso direto no queixo que recebeu no quarto trimestre de 2008, quando demorou a fechar sua guarda usando uma política monetária mais agressiva. Por falta de pragmatismo e de senso de urgência, perdemo-nos no labirinto de um perigo inexistente: o substancial aumento da taxa de inflação! Os sintomas da desintegração financeira mundial já eram visíveis no primeiro trimestre de 2007. Em abril de 2008, quando iniciamos o movimento de aumento do nosso juro real, praticamente todos os países estavam reduzindo os seus, o que levou a valorização da nossa taxa cambial ao paroxismo em julho de 2008, aproveitando os dramáticos ganhos das relações de troca a partir de julho de 2007.

No primeiro trimestre de 2008, a economia mundial registrava uma queda ainda mais substancial. Tudo apontava para o agravamento da situação e havia a ameaça de deflação. Uma explicação plausível para o comportamento do nosso Banco Central é que ele, sem dizer, levava mais a sério do que o governo a hipótese de “blindagem” da economia brasileira com relação à mundial: a economia mundial estava se desfazendo a olhos vistos, mas a economia brasileira iria continuar a registrar um duvidoso “excesso de demanda”!

A outra é que, ao perder o controle sobre a taxa de câmbio e temendo seus efeitos sobre a inflação, radicalizou. Entre abril e setembro, elevou a taxa Selic em 250 pontos, enquanto o mundo reduzia dramaticamente a “taxa básica”. Esse movimento simplesmente ignorava a enorme probabilidade que a demanda interna cairia naturalmente em resposta à queda da economia mundial. Confirma-se, assim, a hipótese (nunca explicitada) de que os membros do Copom sempre acreditaram, ainda mais do que o governo, na ilusão de que estávamos “blindados”…

A “blindagem”, que poderíamos ter feito e não fizemos, era a do nosso sistema bancário hígido para que ele não tivesse de, por precaução, assassinar o crédito interbancário e interromper abruptamente o “circuito econômico”. Tudo isso é passado. O que foi feito foi feito, não pode ser não-feito, mas pode ser refeito. O “uppercut” foi selvagem. Mais forte do que o mais pessimista imaginava: o crescimento econômico anual, que durante nove trimestres consecutivos andou às voltas de 5% a 6%, caiu para 1,3%. A não ser que mobilizemos nossas forças para os próximos três trimestres, corremos o risco de ter em 2009 uma redução do PIB. Hoje, as estimativas de crescimento (sempre sujeitas a chuvas e trovoadas e sobre as quais não há consenso), se fixam em torno dos seguintes números para 2009:

O Brasil, graças à sua performance e à política econômica que se seguiu ao Plano Real, está numa situação melhor do que sempre esteve. A prova disso é a sua incorporação às decisões do G-20: hoje somos parte da solução, ontem éramos do problema. É natural que nos preocupemos com as questões da nova estrutura financeira internacional, mas devemos humildemente conservar a consciência de nossas limitações. Não podemos perder o foco e o senso de urgência e “filosofar” sobre a nova arquitetura mundial. Nosso problema está aqui. É aqui, no chão do Brasil real, que se definirá, afinal, a verdadeira qualidade da nossa governança.

Lembremos três fatos insuperáveis:

1) Nosso ponto de partida é de -1,5%;

2) Perdemos o primeiro trimestre de 2009; e

3) Dissipamos os últimos seis meses enrolados numa política monetária que, em lugar de usar a musculatura do Banco Central para reduzir os efeitos da queda do crédito interbancário, tergiversou e construiu a perversa teoria que qualquer banco “grande” é melhor do que qualquer banco “pequeno” e que qualquer banco “público” é melhor do que o melhor banco “privado”, da qual ainda vamos nos arrepender…

Temos os próximos três trimestres para: 1) corrigir a política monetária reduzindo os juros, dando maior “conforto” ao sistema bancário e abrindo janelas no Banco Central para o acesso direto das empresas ao crédito, como o FED já está fazendo; e 2) acelerar os investimentos públicos, manter a responsabilidade fiscal (cortando gastos) e cooptar o setor privado.

Não adianta ficar brigando com as “estimativas”. O crescimento real não está no passado: depende de nossa ação. Por exemplo, se o crescimento do primeiro trimestre de 2009 com relação ao último de 2008 foi nulo ou ligeiramente positivo (o que parece plausível), e se os crescimentos dos trimestres sucessivos sobre os seus antecedentes forem de 1% no segundo, 2% no terceiro e 1,5% no quarto, o PIB médio crescerá em torno de 0,6%. Com um pequeno esforço adicional bem dirigido, com crescimentos trimestrais de 1%, 3% e 2,5% respectivamente, o PIB poderá crescer 1,4%, em lugar do -1,4% projetado pelo JP Morgan.

Diante de tanta “previsão” é preciso insistir: todas valem o mesmo! Nenhuma está escrita em 2008 ou nas estrelas. A realidade será a que soubermos fazer. Para não sair de 2009 menor do que entramos, precisamos de uma verdadeira mobilização bélica, focada e urgente, do Banco Central, do governo e do setor privado para aproveitar os três trimestres que nos restam.

É preciso respeitar as regras do bom convívio internacional, mas não parece razoável iludir-se tentando primeiro salvar os EUA para depois salvar o Brasil, mesmo porque é provável que eles saiam da crise antes de nós…

*Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento. Escreve às terças-feiras



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