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Vítimas da recessão

Posted By beatriz On 16 fevereiro, 2009 @ 9:38 am In Política Brasileira,Política Econômica | No Comments

Colapso econômico mundial atinge em cheio a vida dos brasileiros. Trabalhadores perdem empregos, ficam inadimplentes e têm que arrochar gastos. Empresários demitem e restringem os investimentos

Fonte: Correio Braziliense 

Por Vicente Nunes

Aos 31 anos, o agente financeiro Adaílson Gomes de Oliveira já passou por nove recessões no país. Apesar de o termo – com o qual os especialistas definem pelo menos dois trimestres consecutivos em que a economia anda para trás – lhe parecer estranho, ele está sentindo na pele todo o seu peso. No último dia de 2008, a loja da financeira em que trabalhava fechou as portas. “Simplesmente, da noite para o dia fiquei sem meu ganha-pão”, conta. Oliveira foi vitimado pela crise mundial, que fez o crédito secar, a produção desabar e o consumo minguar. Ainda desempregado e sem perspectiva, está assistindo, atônito, ao Brasil ser tragado pela décima recessão em três décadas – é como se, a cada três anos, o país botasse o pé no freio.

Nem mesmo o otimista ministro da Fazenda, Guido Mantega, descarta mais que o Produto Interno Bruto (PIB) encolheu nos últimos três meses de 2008 e vai cair nos três primeiros deste ano, o que, tecnicamente, coloca o Brasil na mesma situação vivida pelos países mais ricos do mundo – a de recessão. Mantega não se arrisca a fazer projeções. Mas, nas contas do mercado, a economia registrou retração de até 4% no quatro trimestre de 2008 e deve recuar até 1% entre janeiro e março. “Os números são cruéis. Basta ver o que ocorreu no fim do ano passado”, diz o economista-chefe da Sul América Investimentos, Newton Rosa. A produção industrial caiu quase 20% entre outubro e dezembro, voltando aos níveis de 2004, e as demissões não param de crescer. “O pior é que a recuperação será lenta e com muito sofrimento. O desemprego deixará muitas famílias à margem do mercado”, avisa.

A crise bateu tão forte que não diferenciou ricos e pobres. Entre setembro, início da crise, e dezembro, houve, nas contas do professor Marcelo Neri, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), um encolhimento de 0,65% nas classes A e B, devido ao forte desemprego nos setores imobiliário e financeiro – do qual Adaílson Gomes fazia parte. Em janeiro, foi a vez de a população menos favorecida ser engolfada de vez pelas turbulências.

Veja o que diz o presidente da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL), Roque Pellizzaro Júnior: “As empresas estão demitindo as pessoas de menor qualificação, que podem ser recontratadas facilmente quando a economia se recuperar. Esse pessoal deixou de pagar as contas em dia”. Ou seja, o calote disparou. Na média do país, o índice de inadimplência do comércio fechou janeiro em 10,9%, quase dobrando em relação ao indicador de dezembro, de 6,9%. “Seguramente, esse foi o pior janeiro dos últimos cinco anos”, enfatiza. Em janeiro de 2008, o índice havia ficado em 10,3%.

Corte na comida
É quando se olha para o perfil das pessoas que tiveram os nomes incluídos no Serviço de Proteção ao Crédito (SPC) que a crise se agiganta e a perspectiva de se ter um Brasil em recessão ganha força. Pelos cálculos do presidente do CNDL, 72% dos inadimplentes têm dívidas de até R$ 250. Caso o universo seja ampliado para R$ 500, os devedores em atraso chegam a 84% do total. Como não se sabe ao certo quanto tempo o Brasil levará para sair do atoleiro, tão cedo essas pessoas não terão acesso ao crédito.

“Com o desemprego em alta, não há como a inadimplência não aumentar. São os males da recessão”, afirma economista-chefe do Banco ING, Zeina Latif. O ex-cobrador de ônibus Raimundo José de Freitas, 43, que o diga. Vivendo no Novo Gama, em Goiás, com a mulher e três filhos pequenos, ele está atolado em dívidas. O seguro-desemprego de R$ 455 que vem recebendo há dois meses em substituição ao salário de quase R$ 600 não está sendo suficiente para ele arcar com todas as despesas. “Minhas dívidas já passam de R$ 1 mil em dois cartões de crédito. E ainda preciso de R$ 7,6 mil para quitar a casa onde moro”, relata.

Sem salários e com dívidas pendentes, boa parcela da população está sendo obrigada a reduzir o consumo. “Com isso, as empresas produzem menos e engavetam seus planos de investimentos, tornando o quadro econômico ainda mais complicado”, explica o economista-chefe do Banco ABC Brasil, Luiz Otávio de Souza Leal. “Em tempos de recessão, até o básico é cortado, como os alimentos”, assinala. Foi o que fez Gilvan Alves dos Santos, 27, morador de Valparaíso, cuja dispensa em casa está vazia há dias. Frustrado, ele conta que ficou desempregado há dois meses. “Trabalhava como temporário no cargo de repositor de mercadorias da Perdigão. Tinha todas as chances de ser efetivado. Mas vieram a crise e a demissão.” Como Gilvan, cerca de 150 temporários da Perdigão foram parar na rua.


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