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Blog do Desemprego Zero

Segunda chance

Escrito por beatriz, postado em 17 dEurope/London fevereiro dEurope/London 2009 Imprimir Enviar para Amigo

Fonte: Folha de São Paulo

 *Por RUBENS RICUPERO   

O desafio de Obama não é só vencer a crise, mas fazê-lo de  modo a reconstruir modelo econômico diferente

TANTO O livro de Brzezinsky de mesmo título  deste artigo como recente editorial da “New Left Review” concordam num  ponto: os EUA terão uma segunda chance para reconstruir sua abalada  liderança global. A razão de ambos é parecida. Do ponto de vista militar,  tardarão décadas para que algum país se aproxime do nível americano. Na  economia, os chineses, que poderiam, muito parcialmente, aspirar ao menos  a um segundo lugar mais afirmativo, seguem absorvidos pelos desafios  internos, sem apetite para contestar por enquanto a liderança de  Washington.

No discurso de posse, Obama declarou que os EUA estão  dispostos a exercer esse papel, desde que ajudados pelos demais. A questão  é saber em que medida as atuais condições lhes permitirão de fato fazer  isso com um mínimo de efetividade.

No último número de “Foreign  Affairs”, Roger Altman conclui sombria análise da crise econômica com a  afirmação de que ela constitui importante revés geopolítico para o  Ocidente e os EUA, privando-os da credibilidade e dos recursos necessários  para manter a posição que ocupavam nos assuntos mundiais. Mesmo quando  passe a crise, ela terá acelerado a tendência que vem afastando de  Washington o centro de gravidade do mundo. É difícil discordar do  diagnóstico.

O modelo econômico anglo-saxão perdeu poder de atração com  a demonstração de sua irremediável insustentabilidade. Ainda que por  milagre se pudesse voltar à pré-crise, quanto tempo duraria situação em  que, ano após ano, se voltaria a agravar a dependência do endividado  consumidor americano em relação ao financiamento asiático? Vale a pena  sair da crise apenas para colocar os EUA ainda mais à mercê da China, o  inimigo estratégico, segundo os conservadores?

Isso significa que o  desafio de Obama não é somente vencer a crise, mas fazê-lo de modo a  reconstruir modelo econômico muito diferente do que precipitou o colapso.  O país teria de aumentar a poupança, reconquistar competitividade nos  setores não-financeiros e reduzir as excessivas concentração e  desigualdade que caracterizam o modelo fracassado.

A meta é de uma  extraordinária dificuldade e exigiria da sociedade e de dirigentes elevado  grau de coesão e disposição de trilhar caminho muito mais áspero. Ora, a  batalha da aprovação do pacote fiscal e o decepcionante resultado da  falida tentativa de forjar consenso bipartidário demonstram que a eleição  não curou as profundas divisões ideológicas americanas. O medo da  depressão não se revelou tão eficaz para gerar unanimidade quanto o medo  do terrorismo, tal como explorado por Bush “et caterva”.

Se as divisões  persistirem, como será possível fazer aceitar os tetos de emissão de gases  ou o aumento durável do preço da gasolina para combater o aquecimento  global? Como gerar apoio para a difícil mediação entre Israel e os  palestinos ou para os sacrifícios adicionais no Afeganistão e no  Paquistão?

A nova chance não é certeza; é possibilidade que terá de se  tornar viável graças ao consenso interno nos EUA e à cooperação  externa.

Caso uma liderança cooperativa e partilhada não veja a luz, os  riscos são a introspecção e o unilateralismo. Longa fase de paralisia e  desordem se abateria sobre o mundo, agravando ameaças como as do clima e  do Oriente Médio, sem que haja lideranças capazes ou dispostas a garantir  a paz e a estabilidade.

*RUBENS RICUPERO , 71, diretor da Faculdade de  Economia da Faap e do Instituto Fernand Braudel de São Paulo, foi  secretário-geral da Unctad (Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e  Desenvolvimento) e ministro da Fazenda (governo Itamar Franco)



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