Em busca de um grande líder
Escrito por Imprensa, postado em 2 dEurope/London fevereiro dEurope/London 2009
Fonte: CartaCapital
Além da perplexidade geral que tem sido a tônica desses dias, uma conversa ouvida intensamente nos cafés do Congress Center, nos encontros nos hotéis ou mesmo nas pequenas vans que cuidam suiçamente do transporte dos participantes é sobre a ausência de uma liderança global que possa catalizar as forças na direção da saída da crise.
Busca-se liderança nas áreas da teoria econômica, da ciência política, das relações internacionais e, claro, buscam-se também estadistas. Por outro lado, a saída imaginada é aquela que manteria quase intactos os abalados fundamentos do capitalismo global. Ora, aquelas lideranças buscadas não oferecerão as saídas desejadas pelo simples fato de que as lideranças que poderiam manter os fundamentos intactos já demonstraram a sua incompetência. Portanto, as novas lideranças necessariamente surgirão de uma revisão profunda dos fundamentos do próprio sistema.
E aqui vai uma reflexão importante: quão profunda esta revisão deverá ser? A considerar as falas de Bill Clinton e Tony Blair, ambos ex (presidente e primeiro-ministro, respectivamente), a interdependência mundial foi acelerada por esta crise de tal forma que acabará dando ao G20 um papel similar ao dos aliados na concepção dos acordos implantados após Bretton Woods. Isso significa nada mais nada menos que a revisão radical da participação dos países emergentes na regulação de uma nova ordem mundial. Não é pouco. O processo impactará desde a OMC até o Conselho de Segurança da ONU, quando não o próprio sistema multilateral que hoje a ONU representa. Quem teria coragem de propor tamanha mudança no eixo de poder? De novo, o primeiro ministro da China Wen Jiabao (ao menos em seu discurso). Mas os líderes da América Latina presentes também arriscaram ensaios nesta direção. É certo, porém, que o alinhamento tradicional dos últimos 60 anos está por um triz.
Por outro lado ,em uma recepção mais discreta e com poucas lideranças, Al Gore confidenciou que qualquer adjetivação sobre o compromisso de Barack Obama com uma mudança radical na matriz energética dos EUA pecará pela modéstia. “Se existe um homem hoje que entendeu as implicações da crise no estabelecimento de um novo padrão de desenvolvimento ligado ao baixo carbono, esse homem e o presidente Barack Obama”, afirma Gore. A partir daí, começou a discorrer sobre uma série de iniciativas tomadas nas últimas semanas na Casa Branca que indicam esta direção já sinalizada quando da nomeação do secretario de energia, Stephen Chu, Prêmio Nobel de Física em 1987 e conhecido pelos seus trabalhos em energias renováveis e alterações climáticas.
Seria Obama esta liderança? A conferir. Embora possa sê-lo em questões fundamentais que sinalizem a saída da crise, será uma liderança ainda insuficiente frente a tarefa colossal de esforço mundial que se coloca a nossa frente. A civilização industrial e democrática poucas vezes defrontou-se com a possibilidade de seu esgotamento como agora. E os humores de Davos certamente não estão contribuindo para a amenização desse sentimento.
Enquanto isso, na América Latina…
O tradicional jantar latinoamericano que se realiza em Davos – e que reúne todos os participantes e interessados pela região- , foi temperado por importantes novidades. Nos anos anteriores, o tom era um pouco monocórdico em torno das dificuldades de sempre: políticas econômicas equivocadas, ALCA ou MERCOSUL, fragilidade política, pobreza, saúde, educação etc. Esse ano, com as presenças dos presidentes do México, Felipe Calderon , da Colômbia, Álvaro Uribe, do presidente da Guiania , Bharrat Jagdeo, além dos presidentes do Banco Interamericano, Luis Moreno, e do diretor-geral da OEA, o tom era de otimismo e de uma redefinição do papel do continente na nova geopolítica do poder que se avizinha com a crise.
O ex-ministro Luis Fernando Furlan, mediador das apresentações, lançou uma provocação para os oradores: que refletissem a respeito das possibilidades de o continente se tornar uma plataforma para o desenvolvimento sustentável. As falas de Calderon e de Jagdeo foram bastante impressionantes. Ambos os presidentes discorreram sobre os potenciais de sustentabilidade do continente com razoável conhecimento de causa. Não sobre seus próprios países, pois isso seria obrigação mas, sobretudo, do conjunto dos países e, no caso de Jagdeo, dos países amazônicos. Já Uribe deixou a desejar, não conseguia sair da armadilha de comentar narcisisticamente seus próprios feitos.
O fato que, feito raro, o jantar evoluiu para a afirmação de uma possível liderança dos países latinos de um desenvolvimento pautado no tripé econômico e sócio ambiental levando em consideração as vantagens comparativas de serviços ambientais, produtos da floresta, biodiversidade, água, baixa emissão de carbono e matriz energética relativamente limpa. Discutiu-se a necessidade de uma política pan-amazônica com vistas à Convenção do Clima que se realizará em dezembro, em Copenhagem, e até de um possível aprofundamento nas discussões de cálculo de um novo PIB (iniciativa já colocada em prática pelo presidente Sarkozy, liderado pelo economista Paul Krugman), que valorizaria os ativos ambientais dos países do continente.
As questões dissonantes foram a ausência de representantes do Brasil que poderiam falar da política (ou ausência de) de sustentabilidade no Brasil que sabemos, é quase inexistente e a falta de foco no combate radical à pobreza, elemento, aliás, fundamental para quem pretende ser qualquer coisa neste sec. XXI. “Mais importante de como entramos na crise é de como saímos dela” disse Jagdeo.
No final, o emérito professor de Michigan, autor da teoria da economia na base da pirâmide, CK Prahalad disse que o milagre da transformação da AL poderia ser traduzida na capacidade de os países do continente aplicarem a engenharia de Ghandi: fazer mais com menos para mais.











