Em breve: capitalismo 3.0
Escrito por Imprensa, postado em 23 dEurope/London fevereiro dEurope/London 2009
Valor Econômico – 13/02/2009
O capitalismo está em meio às dores de sua crise mais severa em muitas décadas. A combinação de recessão aguda, deslocamentos econômicos mundiais e estatização eficaz de grandes faixas do setor financeiro nas economias mais avançadas do mundo desarrumou profundamente o equilíbrio entre mercados e Estados. Como o novo equilíbrio será atingido ninguém sabe ao certo.
Os que preveem o perecimento do capitalismo precisam enfrentar um importante fato histórico: o capitalismo possui uma capacidade quase ilimitada de reinventar-se. De fato, sua maleabilidade foi o que lhe permitiu superar crises periódicas ao longo de séculos e sobreviver a críticos, de Karl Marx em diante. A verdadeira questão não é se o capitalismo pode sobreviver – porque a resposta é que pode -, mas se os líderes mundiais demonstrarão a liderança necessária para levá-lo a sua próxima fase, enquanto saímos de nossos atuais apertos.
O capitalismo não tem equivalente quando se trata de liberar a energia econômica coletiva das sociedades humanas. É por isso que todas as sociedades prósperas são capitalistas, no sentido mais amplo do termo: são organizadas em torno da propriedade privada e permitem aos mercados desempenhar um grande papel na alocação dos recursos e determinação das recompensas financeiras. A questão é que nem os direitos de propriedade, nem os mercados conseguem funcionar por si sós. Precisam de outras instituições sociais para apoiá-los.
Os direitos de propriedade, então, dependem de tribunais e do cumprimento da lei, enquanto os mercados dependem de as autoridades reguladoras domarem os abusos e consertarem as falhas de mercado. Na área política, o capitalismo requer mecanismos de transferência e compensações para fazer com que seus resultados sejam aceitáveis. Como a atual crise voltou a demonstrar, o capitalismo precisa de dispositivos de estabilização, como uma instituição de crédito de última instância e políticas fiscais anticíclicas. Em outras palavras, o capitalismo não é autogerado, autossustentado, autorregulado ou autoestabilizado.
A história do capitalismo vem sendo um processo de aprendizado e reaprendizado dessas lições. A sociedade de mercado idealizada de Adam Smith precisava de um pouco mais do que um “Estado como vigia noturno”. Tudo o que os governos precisavam fazer para assegurar a divisão do trabalho era cumprir os direitos de propriedade, manter a paz e arrecadar alguns impostos a serem pagos em troca de um grupo restrito de bens públicos.
Ao longo do início do Século XX, o capitalismo era governado por uma visão estreita das instituições públicas necessárias para sustentá-lo. Na prática, o alcance do Estado, com frequência, ia além dessa concepção (como, por exemplo, no caso da introdução de aposentadorias para idosos por Bismarck na Alemanha, em 1889). Os governos, contudo, continuaram a ver seu papel econômico em termos restritos.
Isto começou a mudar à medida que as sociedades ficaram mais democráticas e sindicatos e outros grupos mobilizaram-se contra os abusos detectados no capitalismo. Nos Estados Unidos, foram lançadas políticas antitruste. A utilidade de políticas fiscais e monetárias ativistas tornou-se amplamente aceita na sequência da Grande Depressão.
A proporção dos gastos públicos na renda nacional subiu rapidamente nos atuais países industrializados, de uma média inferior a 10%, no fim do Século XIX, para mais de 20%, pouco antes da Segunda Guerra Mundial. Após a guerra, a maioria dos países erigiu Estados de bem-estar social bastante elaborados, nos quais o setor público expandiu-se até chegar a mais de 40% da renda nacional, em média.
Este modelo de “economia mista” foi o maior feito do Século XX. O novo equilíbrio estabelecido entre mercado e Estado preparou o palco para um período inédito de coesão social, estabilidade e prosperidade nas economias avançadas que durou até meados dos anos 70.
O modelo desgastou-se a partir da década de 80 e agora parece ter se partido. O motivo pode ser expresso em uma palavra: globalização.
A economia mista do pós-guerra foi desenvolvida para a – e operada na – esfera de Nações-Estado e exigia que a economia internacional ficasse encurralada. O regime Bretton Woods-Gatt comportava uma forma “superficial” de integração econômica internacional, que implicava em limitações e controles sobre os fluxos internacionais de capital, algo que Keynes e seus contemporâneos viam como crucial para a gestão econômica doméstica. Exigia-se que os países adotassem uma liberalização comercial apenas limitada, com exceções aos montes para setores delicados socialmente (agricultura, têxtil e serviço). Tal quadro deixou-os livres para construir suas próprias versões de capitalismo nacional, desde que obedecessem algumas poucas e simples regras internacionais.
A atual crise mostra como nos distanciamos desse modelo. A globalização financeira, em particular, demoliu as antigas regras. Quando capitalismo no estilo chinês encontrou-se com o capitalismo no estilo dos EUA, com poucas válvulas de segurança à disposição, deram à luz a uma mistura explosiva. Não havia mecanismos de proteção para prevenir o desenvolvimento de uma bolha mundial de liquidez ou para evitar que esta criasse, em combinação com falhas de regulamentação nos EUA, a onda espetacular de ascensão e queda do setor habitacional. Tampouco houve nenhuma barreira internacional para evitar que a crise se espalhasse a partir do epicentro.
A lição não é que o capitalismo está morto. É que precisamos reinventá-lo para um novo século no qual as forças da globalização econômica são muito mais poderosas do que antes. Assim como o capitalismo mínimo de Smith foi transformado na economia mista de Keynes, precisamos contemplar a transição da versão nacional da economia mista para algo homólogo mundial.
Isto significa imaginar um melhor equilíbrio entre mercados e as instituições que os sustentam na esfera global. Algumas vezes, isto exigirá estender as instituições além das Nações-Estado e fortalecer a governança mundial. Outras vezes, exigirá evitar que os mercados se expandam além de instituições que precisem continuar nacionais. A abordagem apropriada variará entre agrupamentos de países e áreas em questão.
Desenhar o próximo capitalismo não será fácil. Temos, no entanto, a história de nosso lado: a redenção do capitalismo é sua maleabilidade quase infinita.
Dani Rodrik, professor de Economia Política na Escola de Governo John F. Kennedy da Universidade de Harvard, é o primeiro ganhador do Prêmio Albert O. Hirschman, do Social Science Research Council. © Project Syndicate/Europe´s World, 2009. www.project-syndicate.org











