Resta o investimento
Escrito por beatriz, postado em 14 dEurope/London janeiro dEurope/London 2009
Fonte: Carta Capital
Por Delfim Netto
É mais do que justificável a apreensão com a qual o Brasil assiste à chegada de uma crise gerada no mundo desenvolvido e que ameaça interromper o ciclo de crescimento apenas iniciado. Esta não é uma recessão como as anteriores, produzidas deliberadamente pela própria política monetária para corrigir o excesso da expansão da demanda. Ela é a colheita dos equívocos da política monetária laxista dos bancos centrais (liquidez abundante e taxa de juro real muito baixa) e da política fiscal (excesso de estímulo à atividade imobiliária para financiar residências a quem não podia pagar), com as quais se empurrou com a barriga a recessão de 2001.
O desenvolvimento da economia brasileira tem sido cheio de curiosos paradoxos. Entre 1950 e 1985, em meio a chuvas e trovoadas, o Brasil foi um dos países que mais cresceram no mundo ocidental (passou da décima para a oitava economia mundial). Crescemos à taxa anual de 6,5%, ante um crescimento mundial da ordem de 4,4%. Na convulsão planetária dos anos 80, fomos o primeiro país a equilibrar o balanço em conta corrente (1984), à custa de feroz recessão interna e, por dificuldades políticas e ideológicas, o último a negociar a dívida externa (1994), passo preliminar para o sucesso do extraordinário programa de estabilização, o Plano Real. Vencemos a inflação, mas reconstruímos a dependência externa (de 1995 a 2002, acumulamos quase 200 bilhões de dólares de déficits em conta corrente). Entre 1985 e o segundo semestre de 2006, crescemos à taxa anual de 2,6%, enquanto o mundo crescia a 3,7%.
Só voltamos a crescer mais do que o mundo no terceiro trimestre de 2006, quando, graças à expansão da economia mundial a partir de 2003 (que resolveu nosso problema externo) e à trouvaille do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), o Brasil recuperou a crença de que poderia crescer acima dos fatídicos 3% do produto potencial construído por sofisticados métodos econométricos por nossos “cientistas”. A economia mundial começou a reduzir seu ritmo de crescimento no terceiro trimestre de 2007, um ano depois de o nosso crescimento voltar a ser maior do que o dela. Desde o primeiro trimestre de 2008, aumentou a velocidade de seu encolhimento como consequência da crise financeira que nela se instalou.
As ligações entre o nosso crescimento e o do mundo se fazem pela variação do ritmo da demanda externa de nossos produtos, pela variação das relações de troca (preços importação/preços exportação), pela variação do financiamento externo e pela variação do investimento externo direto. É muito difícil avaliar o resultado final de movimentos tão complexos, mas a resultante, certamente, será negativa. Recebemos o bônus de estar no mundo e vamos pagar o ônus de estar nele.
Como já dissemos, esta crise não foi produzida pela tradicional política monetária de ajuste (o famoso credit crunch), mas pelo assassinato da confiança entre aplicadores gulosos e agentes estimulados por incentivos incorretos e protegidos por instituições malconcebidas, o que reduz o poder corretivo da política monetária. A crise explodiu (depois da quebra do Lehman Brothers) numa instantânea desaparição do crédito interbancário e na tentativa de ajuste simultâneo dos balanços das instituições financeiras pela redução de sua alavancagem. Isso cortou o consumo e o investimento e criou a expectativa de desemprego no setor privado, o que está produzindo uma recessão na economia real.
A grande lição que sobra para os estadofóbicos (mas que não serve de muleta para os estadólatras) é que, quando (por qualquer motivo) desaparece o fator catalítico que faz funcionar a economia de mercado, a confiança, produz-se o caos e a sua superação exige a coordenação pelo Estado. É por isso que faz muito sentido: 1. Manter a liquidez do sistema financeiro. 2. Cortar ou diferir as despesas de custeio dos três níveis do governo (afinal, o funcionalismo não corre o risco do desemprego). 3. Concentrar todos os recursos na ampliação dos investimentos públicos. 4. Acelerar as concessões e parcerias de serviços públicos que poderão atrair investidores privados internos e externos. Quando a crise passar, eles serão fatores de aceleração da produtividade do setor privado.










