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Mais uma barbeiragem na política monetária

Posted By heldojr On 22 janeiro, 2009 @ 3:13 pm In Heldo Siqueira,Política Econômica | 6 Comments

 

* Heldo Siqueira

A administração da política monetária não esgota-se na decisão do nível da taxa de juros básica. Tão (ou mais) importante que isso é a percepção e a administração das expectivas dos agentes quanto à política monetária. Por basear as outras taxas de juros, a taxa SELIC influencia o nível de investimento privado. Nos últimos meses a administração (incompetente) do Banco Central brasileiro conseguiu formar um consenso sobre a diminuição da taxa SELIC.

Em algum momento de 2008, a cegueira do Banco Central, em diagnosticar todo o tipo de inflação como problema de demanda, pareceu ampliar-se: o Banco Central brasileiro passou a achar que todos os problemas econômicos geravam inflação. No início do ano, quando todos os países desenvolvidos do mundo diminuíam suas taxas de juros (para evitar uma depressão) o Banco Central brasileiro a aumentou até setembro a taxa básica, a mantendo em 13,75% até o fim do ano (clique aqui [1] para ler sobre a trajetória dos juros no Brasil, em 2008, e aqui [2] para ler sobre a trajetória dos juros no mundo).

A remuneração representada pela SELIC é um dos fatores de atratividade dos capitais externos para o país. Assim, trata-se de uma variável fundamental na determinação da taxa de câmbio. Como uma parte significativa dos preços internos é determinada no mercado internacional, além disso, outros produtos podem ser substituído por importados, o controle da taxa de câmbio é fundamental para o controle da inflação (no curto prazo). Por esse efeito, aumentar a taxa de juros valoriza o câmbio diminuindo a inflação. O Banco Central parece não entender (ou não ligar) que utiliza esse mecanismo.

Entretanto, desde o final de 2007 a economia mundial está à beira de uma depressão. A maioria dos Bancos Centrais entendeu o recado: há risco de queda da demanda generalizada e isso provocaria uma deflação. O sinal da queda do emprego nos países desenvolvidos não era alarmante simplesmente por uma questão social (supostamente a política monetária não altera questões sociais), mas porque representa NECESSARIAMENTE uma queda da demanda no período posterior. Ou seja, se havia uma perspectiva de inflação ela não seria duradoura, pois estava havendo aumento do desemprego. Realmente os preços das commoditties, que estavam elevados até meados de 2008 cederam e temos atualmente os menores índices de inflação, nos países desenvolvidos, em muitos anos (clique aqui [3] para ler sobre a inflação nos EUA).

Pois metade do ano de 2008, o Banco Central brasileiro passou combatendo uma perspectiva de inflação. No final do ano, não era recomendável ou justificável continuar aumentando os juros, e por duas reuniões foi mantida a taxa (em nível elevado). Essa política de elevação, até o meio do ano, e manutenção dos juros, gerou um consenso em torno da queda da taxa na última reunião (21/01/2009) altamente prejudicial para a atividade econômica.

Afinal, a expectativa de que haveria uma diminuição nas taxas de juros faz os agentes adiarem suas decisões de investimento. Esse é o efeito de anunciar uma queda nas taxas de juros antes de fazê-la. Trata-se de uma recomendação básica aos gestores de política monetária. Na verdade, durante os 45 dias que seguiram a última reunião e essa de 21 de janeiro. (clique aqui [4] para ler sobre expectativa depois da última reunião de 2008) O que vimos no período foi uma diminuição no nível de investimento e consequente diminuição no emprego. 

Obviamente, a queda que observamos tem influência da crise internacional, mas o Banco Central cometeu um erro infantil e acentuou (mais uma vez) os efeitos da crise. Se por um lado, a decisão de diminuir a taxa SELIC em 1 ponto percentual é indispensável pois desonera os cofres públicos (mais até do que estimula o investimento, clique aqui [5] para ler sobre quanto custa a política de juros do BC), por outro lado, o Banco Central não faz nem isso direito!

*Gremista, economista graduado na Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Trabalho na Assessoria de Planejamento do IDAF-ES (Instituto de Defesa Agropecuária e Florestal do Espírito Santo). Meus Artigos [6]

 


6 Comments (Open | Close)

6 Comments To "Mais uma barbeiragem na política monetária"

#1 Comment By Carcanholo On 22 janeiro, 2009 @ 4:20 pm

1) Como a expectativa de queda da taxa de juros faz os investidores adiarem a decisão de investimento?

2)Como você reduziria a taxa de juros sem criar expectativa de baixa? Subindo só para criar expectativas contrárias e depois baixar? Agindo aleatoriamente?

3) Que post ruim.

#2 Comment By heldojr On 22 janeiro, 2009 @ 6:45 pm

Carcanholo,

1) Se o sujeito for tomar crédito para investir (o que geralmente acontece) e tem expectativa de que o preço a ser pago por seu crédito vai diminiur (taxa de juros) adiará sua decisão de investimento. É o mais “racional” a fazer.

2) Reduzir a taxa de juros não cria expectativa de baixa… O que criou expectativa de baixa foi o fato de não ter reduzido quando a atividade econômica estava diminuindo e havia expecativa de deflação mundo a fora…

3) Escrevo para dar minha opinião, não para agradar ninguém. Mesmo assim, pelo seu questionamento 2) acho que vc entendeu o que eu escrevi.

Abraço

#3 Comment By Carcanholo On 24 janeiro, 2009 @ 10:15 am

Mas, então, qual foi a “mais uma” barbeiragem? Você preferiria que se tivesse mantido a taxa básica estável?

#4 Comment By heldojr On 25 janeiro, 2009 @ 8:13 am

Carcanholo

Mais uma pq o COPOM já fez várias barbeiragens (e se vc procurar no site vai encontrar nesse mesmo site vários artiguinhos falando sobre isso).

A barbeiragem foi não ter feito cortes antes, mesmo com fortes indícios de que haveria retração econômica no mercado internacional.O corte veio em um momento em que não havia mais volta e, além disso, o COPOM na última reunião do ano passado só faltou escrever que faria esse corte na última. Não é só a decisão que se deve analisar, mas a forma como se implementa a decisão.

Quanto a preferir, preferia que a taxa estivesse em 6% ou 7%…

Mas pelo visto vc está mais preocupado em discutir a semântica do que eu escrevi do que a questão econômica.

Abraço

#5 Comment By C. Carcanholo On 25 janeiro, 2009 @ 11:40 am

Antes fosse questão de semântica:

1)Em quantos pontos o BACEN teria que ter reduzido nas reuniões anteriores para que se não criasse uma expectativa de baixa? 0,25, 0,5, 1, mais que 1? Além disso, como ficariam as expectativas com relação à inflação?

2)O BACEN surpreendeu o mercado ao não reduzir antes e agora com a queda de 1pp quebrou o consenso sobre a atuação do comitê tornando a política monetária seja menos previsível.

3) O nível de investimento, no médio prazo, se tem a ver com a variação da SELIC, é com relação à taxa de atratividade, custo de oportunidade. Assim, a expectativa de queda da SELIC faz com que os investidores mudem seu portifólio, procurando outras alternativas de investimento (não necessariamente produtivos, podem ser papéis prefixados, por exemplo). O que afeta, no médio prazo, o investimento, é o nível da taxa de juros e não sua dinâmica.

4) Mesmo assim, com relação ao custo do capital, a taxa relevante para investimentos de grande porte é a TJLP.

#6 Comment By heldojr On 25 janeiro, 2009 @ 4:27 pm

Carcanholo

A atividade econômica estava (e ainda está) baixando e isso é mais determinante para a definição da expectativa de inflação do que a taxa de juros. De qualquer forma, se vc lesse o texto direito, perceberia que eu não falei que a queda da taxa de juros modificaria a expectativa de baixa. Na verdade, todos os indicadores de que a inflação baixaria estavam dados.

Como falei, a taxa de juros praticada deveria estar sendo de 6% ou 7%, então teria que ter diminuído (há muito tempo) mais do que diminuiu.

Um portfólio composto por títulos que pagam uma taxa de juros de 6%, dado que todos os outros países do mundo estão praticando taxas que não chegam à metade disso, ainda é muito atrativo.

Além disso, a SELIC não é só importante por causa do investimento, mas também determina as taxas que serão cobradas para o consumidor. Da mesma forma, diminui a atividade econômica uma expectativa de queda.

Abraço


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[2] aqui: http://economia.uol.com.br/ultnot/2008/10/08/ult35u62970.jhtm

[3] aqui: http://g1.globo.com/Noticias/Economia_Negocios/0,,MUL958738-9356,00-INFLACAO+DOS+EUA+TEM+MENOR+ALTA+DESDE.html

[4] aqui: http://www.fipe.org.br/web/index.asp?c=108&aspx=/web/home/noticia.aspx

[5] aqui: http://desempregozero.org/2008/04/22/mais-juros-mais-gasto-publico-mais-inflacao

[6] Meus Artigos: http://desempregozero.org/category/todos-nossos-autores/heldo-siqueira/

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