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Decisão do governo causa polêmica entre os analistas

Posted By lucianasergeiro On 23 janeiro, 2009 @ 9:44 pm In O que deu na Imprensa,Política Brasileira,Política Econômica | No Comments

Publicado em: Valor Econômico

Por: Sergio Lamucci

A elevação do orçamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) agradou a economistas heterodoxos, que vêem na medida uma reação importante do governo para combater os efeitos da crise sobre a economia, ao mesmo tempo em que provocou ceticismo e alguma preocupação nos mais ortodoxos. Para estes últimos, incomoda o custo fiscal e a possibilidade de que o banco corra riscos indesejáveis nas operações de empréstimos.

Professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), David Kupfer elogiou a medida, considerando positivo que o governo tenha se organizado para levantar “fundos relevantes” destinados a fornecer crédito às empresas num momento em que as fontes privadas de recursos se retraíram. “Demorou um pouco, mas o anúncio veio em boa hora”, afirma ele. Para Kupfer, com os R$ 100 bilhões adicionais para o BNDES em 2009 e 2010, o governo indica que não será por falta de crédito, a um custo atraente, que o investimento vai parar no país.

Professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) da USP, José Francisco de Lima Gonçalves também vê com bons olhos a elevação do orçamento do BNDES. Para ele, que também é economista-chefe do Banco Fator, a atuação dos bancos públicos é importante num momento de travamento do crédito como o atual, sendo uma alternativa inteligente para estimular a cambaleante atividade econômica.

Embora o volume de R$ 50 bilhões por ano seja pouco se comparado ao estoque total de crédito no país, de R$ 1,2 trilhão, Gonçalves avalia que se trata de um montante expressivo quando se leva em conta que o dinheiro deve ser destinado a financiar basicamente o investimento.

O economista Armando Castelar, analista da Gávea Investimentos, recebeu a notícia com mais reservas. Para ele, o impacto da medida tende a ser limitado, já que pode haver em muitos casos apenas uma substituição de financiamento mais caro – de bancos privados, por exemplo – por um mais barato – o do BNDES. Com isso, o efeito sobre o agregado da economia não seria dos mais significativos.

O economista Fernando Sarti, da Unicamp, não considera esse risco relevante. Ele diz que o governo agiu bem ao elevar o orçamento do BNDES num momento em que os bancos privados relutam em emprestar, ressaltando também o impacto que a notícia deve ter sobre as expectativas. “É uma sinalização importante, por indicar que o governo não está blefando ao dizer que vai fazer o possível para disponibilizar recursos para o investimento.” Para ajudar, a medida veio um dia depois do corte de 1 ponto percentual da taxa Selic, o que ajuda na batalha das expectativas, afirma ele.

Castelar concorda que a combinação de fato estimula demanda no curto prazo, mas considera que medidas como o aumento do orçamento do BNDES diminuem o espaço para cortes de juros em períodos mais longos. O raciocínio é o de que uma política fiscal mais expansionista impede um afrouxamento monetário mais agressivo.

O ex-presidente do Banco Central (BC) Gustavo Loyola, sócio da Tendências Consultoria Integrada, não gostou da medida. Para ele, o fato de haver um subsídio na operação, que representa um custo fiscal para o Tesouro, é um motivo de preocupação, ainda que não provoque dúvidas quanto à sustentabilidade da dívida pública. Loyola também teme que, para emprestar todos os recursos à sua disposição em 2009, o banco corra riscos maiores do que os recomendáveis.

“A minha preocupação é que, na crise, se contratem esqueletos para os bancos públicos”, afirma ele. Outro receio de Loyola é que haja uma alocação ineficiente de recursos, com o dinheiro parando nas mãos de grandes empresas, que poderiam consegui-los no mercado. “Nesses casos, há sempre a questão da escolha de vencedores: por que algumas empresas têm acesso aos recursos e outras não?”

Loyola critica também a contrapartida de que os empréstimos sejam relacionados à geração de empregos. “É algo difícil de fazer, além de ser ineficiente. Há investimentos que, num primeiro momento, podem levar à redução de empregos, como os que envolvem a substituição de uma linha de produção manual por uma mecanizada.”

Sarti, por sua vez, defende a contrapartida. “Se a empresa está pedindo recursos públicos, é natural que tenha que se adequar às normas de políticas públicas”, diz ele, considerando normal a exigência de que haja geração de empregos. O economista observa, porém, que deve haver um exame caso a caso, já que em alguns projetos pode fazer sentido uma racionalização da produção que num primeiro momento envolva redução de postos de trabalho.


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