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Ave, Mr. Obama!
Posted By beatriz On 26 janeiro, 2009 @ 2:32 pm In Desenvolvimento,Internacional | No Comments
Por Antonio Delfim Netto
Fonte: Carta Capital
O Brasil vive momentos de angústia. Depois de ter reencontrado há três anos o “espírito de desenvolvimento”, com melhor equilíbrio interno e externo, como mostra a tabela, vê a situação ameaçada por uma crise produzida nos centros financeiros mundiais.
É importante reconhecer que o sensível progresso se fez com a redução da taxa de pobreza absoluta e a melhora na distribuição de renda, que tornaram mais saudáveis as relações sociais. Que o progresso se deve à continuidade da política econômica, à responsabilidade fiscal, à forte aceleração da economia mundial e ao formidável aumento do comércio, particularmente depois da entrada da China na Organização Mundial do Comércio (OMC).
Paradoxalmente, uma das forças que ajudaram a produzir essa aceleração global foi a mesma expansão da liquidez mundial, feita com instrumentos arriscadíssimos que o sistema financeiro inventou sob os olhos complacentes dos seus fiscais (bancos centrais, agências de risco e auditores independentes), e que produziu a crise atual. Hoje sabemos que a lambança dos agentes financeiros foi grande, que seus modelos ignoravam a possibilidade do risco sistêmico, que as autoridades monetárias nunca entenderam o que se passava e, pior, demoraram a descobrir o tamanho do problema que ajudaram a criar. Sabemos também que a malcheirosa, precipitada e incompetente liquidação do Lehman Brothers, aparentemente forçada pelo então secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Henry Paulson, ignorou a rede de conexões que ligava o banco a todo o sistema mundial, com os mais extravagantes produtos criados pela liberdade (sem responsabilidade) da imaginação financeira.
O que não sabemos ainda é como e quando as coisas vão voltar a uma nova normalidade. Como sugeriu uma vez Shakespeare, a flecha do tempo existe: “As coisas feitas podem ser desfeitas, mas não podem ser não feitas”. É possível sentir algum alívio criticando o que aconteceu e exigir a sua correção, mas o tempo é irreversível. As consequências dos erros feitos (que não podem ser não feitos) vão consumir-se ao longo do próprio tempo. O máximo que podemos fazer é tentar minimizar suas repercussões para reduzir o preço que o PIB brasileiro terá de pagar por conta de ser parte da economia mundial, hoje surpresa e paralisada pela quebra de confiança entre os agentes que a fazem funcionar.
Como toda recessão, esta também há de ser enfrentada com uma boa política monetária: 1. Fornecimento de liquidez. 2. Oferta de conforto para os agentes financeiros. 3. Redução efetiva dos compulsórios, para que o aumento do crédito seja acompanhado da redução da taxa de juro. 4. Rápida acomodação do crédito interno, para substituir parte do funding externo, devidamente apoiada em enérgica e eficaz política fiscal, com a redução e o diferimento de tributos, que deixem direta e imediatamente recursos nas mãos dos agentes (consumidores e empresas); com o corte e diferimento das despesas de custeio (preservadas as redes de segurança dos mais necessitados); com a mobilização de toda a máquina do Estado para a aceleração dos investimentos públicos, e com a aceleração de todo tipo de transferência de investimentos de infraestrutura para o setor privado (concessões, licenças e parcerias público-privadas).
O avanço no diagnóstico e na terapia desta recessão é o reconhecimento de que ela difere das comumente produzidas, sob controle, pelos bancos centrais (com alta das taxas de juro), para corrigir pressões inflacionárias e/ou déficits em conta corrente que as próprias políticas monetária e fiscal resolviam. Esta recessão foi produzida por uma quebra radical da confiança (que é o fundamento da própria organização social) entre os poupadores e o sistema financeiro (bancos de investimento). Em resposta, os mercados corrigiram, também dramaticamente, os valores de todos os ativos. Isso produziu uma busca de liquidez por parte de todos os agentes (consumidores, empresas e bancos), que reduziu a demanda global, ao mesmo tempo que criou uma expectativa deflacionária, que reforça a si mesma e tende a aprofundar-se. Nessas condições, políticas monetária e fiscal adequadas são apenas condições necessárias para a superação da crise. Para que o sistema econômico volte a funcionar, é preciso restabelecer a confiança. Ou seja, é preciso que uma liderança confiável e suficientemente enérgica convença os agentes a inverter sua expectativa deflacionária, como fez Roosevelt em 1933.
É por tudo isso que a esperança do mundo está hoje sobre os ombros de Obama.
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