- Blog do Desemprego Zero - http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero -
Pode a China crescer depressa na crise?
Posted By Imprensa On 22 dezembro, 2008 @ 10:52 am In Internacional | No Comments
Fonte: Vermelho [1]
Por Fang Gang, em Pequim*
A China vem crescendo ao ritmo anual médio de 9,8% há três décadas. Os últimos três meses, porém, foram acompanhados por desaceleração nas exportações, no investimento doméstico, na produção industrial e na receita tributária da China. Um desaquecimento de grandes proporções parece estar se configurando. Poderá o crescimento chinês rápido persistir? Eu creio que sim.
Operário da construcão trabalha em arranha-céu de Xangai
A China vem crescendo ao ritmo anual médio de 9,8% há três décadas. Durante a maior parte desse período os mercados mundiais estiveram favoráveis, sem grandes crises ou desaquecimentos econômicos ou financeiros. É verdade que houve crises regionais como a do sudeste asiático em 1997-98, o estouro da bolha habitacional do Japão em 1990 e da bolha hi-tech americana em 2000. Mas nenhuma foi obstáculo sério ao prolongado boom chinês.
Os últimos três meses, porém, foram acompanhados por desaceleração nas exportações, no investimento doméstico, na produção industrial e na receita tributária da China. Um desaquecimento de grandes proporções parece estar se configurando. Poderá o crescimento chinês rápido persistir? Eu creio que sim.
A desaceleração atual da China se deve a causas em sua maioria internas. Desde 2004, o governo vem procurando esfriar uma economia superaquecida, reduzindo o índice de crescimento de 12% para um índice mais sustentável de 8% a 9%. Começou a taxar as exportações para reduzir o superávit comercial.
Se os responsáveis pela política econômica chinesa pudessem ter previsto o que acontece agora na economia global, talvez não tivessem se esforçado tanto para frear o crescimento. Mas uma razão pela qual a China vem conseguindo manter seu crescimento nos últimos 30 anos é que ela iniciou intervenções macroeconômicas contrárias aos ciclos do momento nas épocas de boom, em lugar de esperar por um colapso. O governo chinês nunca acreditou que deve deixar apenas o mercado decidir o que vai acontecer na economia. Quando não existe grande bolha, não há necessidade de preocupar-se com uma grande crise.
Base sólida
Outra razão pela qual o crescimento forte provavelmente continuará é que suas bases econômicas são sólidas. Os fatores que o incentivam continuam firmes: mão-de-obra de custo baixo, educação, alto índice de poupança, infra-estrutura que vem melhorando e urbanização acelerada. Ademais, a posição fiscal da China está entre as melhores do mundo. A razão entre endividamento do governo e PIB é de cerca de 20%, contra mais de 80% nos EUA, 160% no Japão e entre 60% e 90% na Europa.
A política monetária vem sendo prudente, e a ameaça de inflação foi reduzida pela queda recente nos preços do petróleo e das commodities. A balança de pagamentos internacionais continua em superávit, e ainda há um fluxo líquido de capitais entrando no país, apesar do arrocho global do crédito. As reservas oficiais em divisas chegarão em breve a US$ 2 trilhões. Assim, os responsáveis pela política econômica terão ampla margem de manobra no caso de algo dar errado.
O recente pacote de estímulo fiscal de US$ 568 bilhões – que será gasto com expansão do sistema ferroviário, construção de metrôs, programas habitacionais de baixo custo, sistemas de irrigação, seguridade social rural e saúde – vai acrescentar alguns pontos percentuais ao crescimento nos próximos dois anos. Com a política monetária e alguns controles administrativos sobre investimentos e gastos locais abrandados, o desaquecimento deve ser breve.
Mas nem tudo são boas notícias para a economia chinesa. O baixo consumo ainda é ponto fraco. O consumo das famílias foi responsável por apenas 34% do PIB, e o consumo total não chegou a 50% do PIB em 2007. Essa fraqueza, porém, é institucional e não poderá ser corrigida facilmente no curto prazo.
Então, com a economia doméstica basicamente segura, existe algo que a China possa fazer para ajudar a economia mundial? Se o país mantiver seu crescimento real em 8% por ano nos próximos dois anos, os mercados emergentes talvez possam crescer 4% ao ano. Isso pode impedir a economia mundial de cair em recessão. A impressão que se tem é que a China poderá ter o papel de ”âncora do crescimento”.
Capacidade limitada
Não se deve, entretanto, esperar que ela faça muito mais que isso. A ação chinesa para a estabilização financeira mundial, por exemplo, é limitada.
A China teve pouca participação nos mercados globais de derivativos e não tem muitos títulos de crédito podres a limpar, nem bancos a resgatar. Talvez a China devesse usar suas reservas de US$ 1,9 trilhão para comprar mais dívida estrangeira, mas esse enorme pool de ativos já está carregado de títulos soberanos de outros países.
É improvável que a China esteja em condições de exercer papel central na reforma do sistema financeiro e monetário global em 2009, porque ainda não liberalizou plenamente suas contas de capital e seu sistema financeiro. Por isso, Pequim preferiu ser coadjuvante nas questões ligadas ao controle de riscos e à regulamentação. Mas é provável que a China aumente sua participação em uma questão: o status do dólar como moeda global de reserva. O país foi criticado no passado por não valorizar sua moeda tanto quanto os EUA exigiam.
A China talvez aprecie emendas ao mandado do FMI ou o acréscimo, na agenda do fundo, de um ”capítulo” que discipline a disponibilidade de moeda dos EUA e o acúmulo de sua dívida. Na visão da China, não basta exigir que outros se adaptem à desvalorização do dólar. Com renda per capita de US$ 2.500 e 35% da força de trabalho ainda na agricultura, os problemas domésticos chineses ainda são enormes. Assim, o desenvolvimento vai continuar a ser sua maior prioridade.
A boa notícia é que a China reconhece quanto se beneficiou da abertura dos últimos 30 anos. Não há mais volta em seu caminho rumo ao envolvimento pleno no mercado global. O verdadeiro desafio da China será encontrar maneiras de lidar com o crescente protecionismo global, à medida que a crise financeira e a recessão onerarem cada vez mais a fundo seus principais mercados externos.
* Professor de Economia na Universidade de Pequim e na Academia Chinesa de Ciências Sociais, diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Econômicas; artigo distribuído pelo Project Syndicate e tomado da Folha de S. Paulo<-->
Article printed from Blog do Desemprego Zero: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero
URL to article: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/12/pode-a-china-crescer-depressa-na-crise/
URLs in this post:
[1] Fonte: Vermelho: http://www.vermelho.org.br/base.asp?texto=48646
Click here to print.
Copyright © 2008 Blog do Desemprego Zero. Todos os direitos reservados.