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“O neoliberalismo está morto nos EUA” – Michael Hardt.

Posted By Imprensa On 29 dezembro, 2008 @ 12:18 pm In Conjuntura,Internacional | No Comments

[1]Michael Hardt é cauteloso com seus pensamentos e palavras. Usa pausas a seu favor para evitar falsos julgamentos. Filósofo político reconhecido em diferentes círculos, professor de Literatura pela Universidade de Duke (EUA) e autor, junto com o filósofo italiano Antonio Negri, de Império e Multidão – Guerra e democracia na era do império (ed. Record), participou no Rio de Janeiro, entre 15 e 17 de dezembro, do Fórum Livre de Direito Autoral – O Domínio do Comum, realizado pela Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o Ministério da Cultura (MinC) e a Rede Universidade Nômade. Dos convidados mais ilustres do evento – sua apresentação sobre as relações entre o conceito de revolução e propriedade gerou comentários durante os três dias de debates -, vê com claridade o fim do unilateralismo e do neoliberalismo nos Estados Unidos. São afirmacões fortes, seguidas dos devidos motivos. Também celebra o fim dos anos Bush, e as novas oportunidades com a chegada de Barack Obama à Casa Branca. Sua maior vitória, diz Hardt, será estabelecer um modelo de governo semelhante ao dos líderes de esquerda da América Latina, capazes, segundo o filósofo, de abrir espaços para os movimentos sociais.

Fonte: CartaCapital [2]

CartaCapital: Como definiria a vitória de Obama?

Michael Hardt: Ela representa muitas coisas, mas uma muito importante é a poderosa mudança simbólica nos Estados Unidos. De certa forma, é o mesmo de quando Lula foi eleito pela primeira vez: há um sentimento, uma identificação, por parte da população com o ‘alguém como eu’ [vitorioso nas eleições]. Para outra porção ainda maior da população norte-americana, e por causa da raça de Obama e de sua cor de pele, a vitória nas eleições opera como uma renovação da crença das pessoas no país. Para essa porção de norte-americanos, e depois de 20 ou 30 anos de incapacidade de se sentir orgulhosos de seu país, a vitória revive a sensação de que eles pertencem a uma grande nação. Além disso, o fato de um homem negro ocupar a Casa Branca é uma sinalização de que o país não é confiável apenas em questões de guerras, armas ou outros temas relacionados.

CC: O que dizer da prática?

MH: Ainda é impossível prever o quanto dessa mudança simbólica se revertirá em transformações práticas das estruturas de racismo do país. Alguns gostariam de dizer que não há mais racismo, uma vez que um homem negro ocupará a Casa Branca. Obviamente, não é verdade. A questão é que tipo de transformações e movimentos sociais serão possíveis com a presidência de Obama, tanto pelas suas ações quanto por essa mudança simbólica. A eleição de Obama resulta dos movimentos negros e de direitos civis de 40 anos atrás. Sem eles, a vitória não seria possível. É uma realização que abre uma nova luta social, e por isso é um momento decisivo na história do país.

CC: No Brasil, muitos consideraram – e ainda consideram – a vitória de Lula como uma revolução política e social para o país. O que diria de Obama?

MH: Definitivamente, não se trata de uma revolução. Obama terá muita dificuldade em mudar o que seja. Ele tem duas guerras e uma crise financeira. Apesar de suas intenções, e as de ordem política não estão claras para mim, Obama não possui um discurso específico sobre diferentes temas. Não sabemos exatamente o que fará uma vez ocupe a presidência. O mais prometedor serão os movimentos sociais que se tornarão possíveis com a vitória nas eleições. Muitas pessoas envolvidas em diferentes mobilizações sociais, como a globalização e o racismo, se mobilizaram em torno da eleição de Obama. A dúvida é o que elas farão a partir de agora. Voltarão para casas ou iniciarão uma cooperação?

CC: Foi também uma reação contra Bush.

MH: A presidência de Bush terminou há cerca de dois anos. E foi nesse momento que o unilateralismo norte-americano falhou. A administração Bush tentou reorganizar o sistema global com os Estados Unidos na posição de líder unilateral, econômica, política e militarmente. Por alguns anos, parecia que eles seriam capazes de fazê-lo. Mas, em 2006, ficou evidente que haviam falhado, que os Estados Unidos é incapaz de governar o mundo de modo unilateral. A eleição de Obama, portanto, é o reconhecimento também nos Estados Unidos de que o unilateralismo norte-americano está morto.

CC: Essa mudança de pensamento é realmente factível, considerando a tradição do país nas relações internacionais?

MH: Antes da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos não se imaginavam capazes de dominar poderes então exercidos pela Europa. A Guerra Fria proporcionou a transição para um poder mundial dividido entre dois. Apenas a partir de 1989 que os Estados Unidos tentam assumir uma posição unilateral. No caso da América Latina, essa postura tem pelo menos 100 anos. O país ainda é importante na região, mas já não é capaz de se impor e ditar.

CC: O senhor diz que um dos desafios de uma política de identidade é tornar visível a subordinação em diferentes níveis da sociedade. O novo governo, com as mudanças que propõe e representa, será capaz de fazê-lo?

MH: O que pode fazer é abrir espaço para que os movimentos sociais possam realizar mudanças realmente necessárias. Essa é a maneira como eu abordaria as relações com os governos de esquerda e os movimentos sociais da América Latina. O que mais desejo é que a presidência de Obama transforme os Estados Unidos em uma América Latina, no modo como os governos da região se relacionam com os movimentos sociais. Em muitos países latino-americanos, encontramos algum tipo de governo de esquerda interagindo com movimentos da sociedade.

CC: E como a sociedade norte-americana passará a lidar com a sua própria identidade, principalmente no âmbito racial?

MH: É certo dizer que teremos uma mudança devido à larga tradição em racismo na sociedade norte-americana. Porém, dentro do mesmo país, há uma plataforma bem estabelecida de multiplicidade e igualdade. As tradições e ideologias de segregação poderão declinar, enquanto as de igualdade poderão assumir uma posição muito mais proeminente. A vitória de Obama pode mudar o equilíbrio entre os elementos de diálogo na sociedade norte-americana porque o país oferece muitos recursos para projetos pela liberdade.

CC: No Brasil, a identidade também é tema de debate. Nos custa, muitas vezes, definir-nos como nação. Qual o seu olhar sobre nós, sobre a nossa realidade?

MH: Primeiro, é importante que os de fora não se pronunciem sobre temas como esse. Porém, diria que ser brasileiro, boliviano ou norte-americano não deve ter um significado único. Precisamos criar sociedades que possam conviver com a multiplicidade. Recentemente, aprovaram a Constituição boliviana que define o país como um Estado pluri-nacional. É interessante a idéia de tentar criar uma Constituição nacional que é aberta à multiplicidade.

CC: Durante os anos Bush, assistimos à supremacia e queda do mercado, com os de privilégios concedidos às corporações e a atual crise financeira como resultados concretos. Quais são as principais conseqüências para os norte-americanos como indivíduos? Até que ponto sua individualidade foi afetada?

MH: Não olharia do ponto de vista da individualidade. Assim como o unilateralismo, o neoliberalismo está morto nos Estados Unidos. Ele morreu exatamente por causa da tragédia dos processos de privatização e desregulamentação, que são elementos chave que levaram o país à crise atual. Em vez de indivíduos, o que aconteceu a toda a população norte-americana é que o neoliberalismo transferiu o compromisso com o bem-estar social do Estado para a própria população. Em vez do Estado gerar um déficit para fornecer condições ideais para a população, o que tivemos foi a perda salarial e a decadência das estruturas de bem estar social. Não se trata de um aumento do déficit do Estado, mas das pessoas, para pagar a sua hipoteca, o cartão de crédito, a medicina privada. Os norte-americanos estamos incrivelmente endividados, e será necessário analisar como o neoliberalismo conseguiu funcionar de modo que a população esteja tão endividada.

CC:Com base no livro Multidão, o senhor considera os usuários de internet, com sua atitude colaborativa e auto-suficiente, como uma multidão, um novo movimento democrático?

MH: Temos que ter o cuidado de não assumir estas pessoas como representativas de toda a população. No caso do Brasil, ficaria surpreso de saber que ao menos metade das pessoas acessa a internet. Quando pensamos politicamente, devemos nos questionar qual a importância que as novas formas de relacionamento desenvolvidas na internet terão para os movimentos sociais maiores.


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[2] CartaCapital: http://www.cartacapital.com.br/app/materia.jsp?a=2&a2=6&i=3055

[3] Sobre o papel do Estado: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/sobre-o-papel-do-estado/

[4] Tem São Paulo demais: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/tem-sao-paulo-demais/

[5] EDITORIAL do Cadernos do desenvolvimento do centro Celso Furtado: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/editorial-do-cadernos-do-desenvolvimento-do-centro-celso-furtado/

[6] País perdeu os 'anos de ouro' da economia mundial: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/pais-perdeu-os-anos-de-ouro-da-economia-mundial/

[7] Espantando o vôo de galinha: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/espantando-o-voo-de-galinha/

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