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Mimetismo matemático

Posted By lucianasergeiro On 3 dezembro, 2008 @ 9:43 pm In Destaques da Semana,Energia,Roberto D'Araujo | 3 Comments

Por: Roberto Pereira d’ Araujo* 

O resultado do leilão A-5 de 2008 mostra um estranho resultado para um país dotado de tantos recursos naturais. Como poderia o detentor de um dos maiores potenciais hídricos do planeta realizar um certame por novas usinas e obter 75% de usinas térmicas movidas a óleo combustível e carvão, caras, poluidoras e movidas por combustíveis não renováveis? 

Não há uma única razão para tal façanha. Primeiro, é necessário relembrar o desmonte do planejamento realizado pelo governo Fernando Henrique. Usinas hidroelétricas não podem ser licitadas para construção antes de um completo estudo de inventário, que, hoje, é muito mais exigente. Não há novas hidroelétricas por conta do enorme hiato de novas candidatas, já que a ideologia “o mercado resolve” dominava a década passada[1] [1]

Entretanto, o poluente e caro resultado do leilão também é resultado da mimetização. Infelizmente, ainda há resquícios da filosofia “do mercado resolve”, apesar dos avanços conseguidos pelos atuais gestores da política energética brasileira. Complicadas equações tentam imitar a realidade concorrencial de sistemas de base térmica. Como aqui a questão não se resume à geração de cada uma, mas sim ao seu efeito sobre o sistema, inventou-se uma fórmula que associa uma “garantia física” às usinas. Apesar do nome, essa grandeza não pode ser lida em nenhuma placa ou manual de operação. É um atributo calculado pelo governo através de uma controvertida metodologia. 

Além desse “burocrático” certificado, os leilões não são palco dos investidores com o menor preço de geração. São vencedores do certame os projetos com o “menor índice custo benefício” (ICB), outro artifício que, além da garantia física, ainda inclui dois termos originados no mesmo “calculismo”. Teoricamente, toda essa confusão é para fazer com que “o mercado resolva” que usinas serão construídas, mesmo sob a singularidade do sistema brasileiro.

Por trás de tudo, o misterioso, pouco estudado, pouco entendido “custo marginal de operação” (CMO). Na gestão do sistema elétrico brasileiro não há valor mais enigmático. Para ser simples e direto, é suficiente dizer que ele é um número aleatório que depende de uma visão de vários anos no futuro, de uma taxa de desconto e do abstrato “custo do déficit”. Não obstante toda essa dependência a parâmetros subjetivos, o CMO está no núcleo de todo modelo mercantil brasileiro. Tendo sido criado como um indicador para a operação do sistema, esse custo passou a ter funções mercantis, uso jamais imaginado na sua origem.

O CMO é uma variável aleatória, dado que depende das nossas tropicais afluências. O gráfico abaixo mostra qual é o seu comportamento. Na horizontal estão os valores que ele pode assumir e na vertical a freqüência com que isso ocorre.  Para melhor mostrar a distribuição, o eixo horizontal foi limitado a R$ 900/MWh, mas, embora raros, há ocorrências de valores até R$ 2000/MWh. Na grande maioria do tempo esse custo assume valores baixos. O valor mais provável, a moda, está no entorno de R$ 40/MWh.  A média, por incrível que pareça, está no entorno de R$ 140/MWh, pois o sistema foi ajustado para que ela estivesse no entorno desse valor, o custo marginal de expansão.

Na simulação de futuro que define não só a garantia física como o “mágico” ICB, o aleatório CMO desempenha papel central. Ele é o ponderador da importância das usinas. Ora, como o CMO é o indicador que determina o despacho, quanto mais cara for o custo de geração da usina, mais rara é sua geração. As usinas a óleo são flexíveis e, portanto, ficam a maior parte do tempo desligadas. As usinas a gás têm alguma inflexibilidade e geram mesmo quando o CMO é baixo. Como o CMO é o ponderador, os raros MWhs  das térmicas caras são multiplicados por valores muito altos. Por exemplo, uma térmica com custo de geração de R$ 500/MWh será ponderada por valores que vão de R$ 500 a R$ 2000/MWh. O mimetismo matemático diz que, apesar de gerarem pouco, valem muito. Assim, a sua “garantia física” é bem maior do que sua geração própria. Quem gera no lugar delas? As hidráulicas, claro! Tudo isso é discutível, pois depende de uma inusitada distribuição de uma variável aleatória que, sob outros parâmetros, teria outra distribuição com outros resultados. Além disso, quando o CMO atinge valores muito altos, muito provavelmente já estaríamos praticando algum tipo de racionamento e, portanto, não há porque associar mais garantia a essas usinas. [2]

 CLIQUE NO GRÁFICO PARA AMPLIÁ-LO

  Ainda mais bizarro, é que algumas fontes de energia primária são excluídas dessa matemática. Por exemplo, algumas usinas eólicas, que, gerariam energia justamente quando essas térmicas beneficiadas estariam sendo despachadas, estão fora desse certificado.

Complicado não? Imagino que para a grande maioria que não é do setor, o assunto é árido e incompreensível. Pois é! É de pasmar a complexidade adotada só para estarmos submissos a uma visão mercadológica do nosso sistema. Montamos um modelo baseado numa simulação da operação no futuro. Para complicar, a operação real do sistema está cada vez mais distante das hipóteses assumidas nessa simulação. Na prática, a distribuição do CMO é muito diferente da figura acima. Estamos montando um futuro baseado em hipóteses que já não valem hoje.

O mais irônico de tudo é que todo esse instável mimetismo não foi suficiente para cessar as críticas dos que ainda acham ainda há muito “estatismo” no setor, seja lá o que for isso.

 

*Roberto Pereira d’ Araujo: Engenheiro Eletricista e Mestre em Sistemas e Controle pela PUC-RJ. Pós-Graduação em Operation Planning pela Waterloo University. Foi Chefe de Departamento de Mercado em Furnas Centrais Elétricas. Ex-membro do Conselho Administrativo de Furnas. Consultor na área de energia elétrica. Meus Artigos [3]

 


[1] [4] Os impedimentos não são apenas os impactos ambientais no sentido restrito. Criticam-se os “ambientalistas” com o argumento de que, na prática, essa resistência às hídricas é um “tiro pela culatra”, pois acaba viabilizando as usinas térmicas. Os atingidos por barragens passaram a perguntar: Energia para que e para quem? Nesse sentido, colocam no centro do dilema o domínio de uma realidade industrial, urbana, sobre outra, agrícola, interiorana, carente de políticas de desenvolvimento. Enganam-se os que não percebem esse conflito.


3 Comments (Open | Close)

3 Comments To "Mimetismo matemático"

#1 Comment By Gustavo On 5 dezembro, 2008 @ 2:12 pm

Roberto,
gostei muito do artigo.
vou te falar uma coisa.
Você é o único que escreve com detalhes sobre os meandros da gestão do sistema elétrico brasileiro.
Se as pessoas se interessarem em saber, perceberam que é uma confusão que já perdeu a racionalidade social há tempos.
abraços,
Gustavo

#2 Comment By Roberto Araujo On 6 dezembro, 2008 @ 6:45 am

Grato Gustavo;

Além de um desentendimento generalizado na sociedade, não há interesse por parte dos “iniciados” em esclarecer e mostrar a incrível artificialidade do modelo mercantil do setor. Posso estar errado, mas percebo um clima de “respeitoso silêncio”, para não dizer outras sensações mais “stalinistas”. Como uma andorinha só não faz verão, o artigo e toda essa linha de raciocínio não vão dar em nada. Faz parte da letargia generalizada.
Grato pelo apoio.

#3 Comment By Gustavo On 22 dezembro, 2008 @ 12:40 pm

Roberto,
compartilho de suas conclusões. Mas estou mais otimista, o mundo mudará muito rapidamente nos próximos 4 anos. O setor de energia sofrerá também enormos mudanças.
abraços,
Gustavo


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[5] Grande Entrevista com Paulo Henrique Amorim!! PHA / REVISTA FÓRUM: DANTAS COMPROU PARTE DO PT: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/04/grande-entrevista-com-paulo-henrique-amorim-pha-revista-forum-dantas-comprou-parte-do-pt/

[6] Novo Capítulo do Dossiê do Nassif x Veja: As relações incestuosas na mídia: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/04/novo-capitulo-do-dossie-do-nassif-x-veja-as-relacoes-incestuosas-na-midia/

[7] Paraguai não pode ser uma ilha entre as outras nações”: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/04/paraguai-nao-pode-ser-uma-ilha-entre-as-outras-nacoes%e2%80%9d/

[8] Chegou o tempo dos idealistas: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/04/as-duas-faces-do-projeto-mediocratico-no-brasil/

[9] EDMUND PHELPS, NOBEL DE ECONOMIA 2006, É ENTREVISTADO NA VEJA: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/04/edmund-phelps-nobel-de-economia-2006-e-entrevistado-na-veja/

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